Entrevista

Armindo Vaz, padre e biblista: “A catequese, quando não é bem feita, pode gerar ateísmo”

| 2 Jul 2023

“A exegese bíblica pode ser feita à medida da capacidade de cada um”, diz o padre Armindo Vaz, biblista, autor de O Sentido Último da Vida Projectado nas Origens (ed. Carmelo), obra em que retoma a sua tese de doutoramento, numa edição refundida e atualizada. Padre carmelita, ordenado em 1969, é professor da Universidade Católica Portuguesa desde 1978, depois de ter feito a formação filosófica em Vitoria, Espanha (1963-65) e ter completado, em Roma, em 1965 e 1973, as licenciaturas em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas.

Afirmando que “os autores bíblicos não estavam a pensar em contribuir para uma minibiblioteca”, Armindo Vaz partilha, nesta entrevista, o seu vasto saber bíblico, insistindo na importância da formação e do estudo. A conversa surgiu, aliás, por ocasião do encerramento do Curso Bíblico que congregou várias dezenas de pessoas em torno das questões da hermenêutica e da exegese bíblicas desde outubro de 2022 [ver outro texto no 7MARGENS]. Nesta conversa são objeto de reflexão a hermenêutica e a exegese bíblicas, a formação dos leigos e o exercício de Ministérios Laicais… bem como a Mística.

  

Padre Armindo Vaz: “Sinto grande motivação para aceitar e ministrar este curso.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

Padre Armindo Vaz: “Sinto grande motivação para aceitar e ministrar este curso.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

 

7MARGENS – Para começo de conversa, estou curiosa: que motivação tem um especialista em Teologia Bíblica – portanto, um formador altamente especializado – para realizar um curso bíblico destinado a alunos leigos?
PADRE ARMINDO VAZ – Sinto grande motivação para aceitar e ministrar este curso a leigos que já têm alguma formação cristã e bíblica, mas que quiseram aprofundar a educação da sua fé. Aceitei bem, e eu próprio me senti entusiasmado, porque, desde sempre, sentia gosto em aprofundar os temas da interpretação da Sagrada Escritura, procurando situar os textos no seu contexto próprio e próximo, cultural, literário, histórico, religioso, para que assim cada texto bíblico pudesse respirar bem no seu campo e no contexto em que nasceu – por parte do autor que o escreveu há dois mil anos ou há 2700/2800 anos, para o caso dos textos do Antigo Testamento.

 

7M – Como texto literário que é, mesmo na sua origem…
Exatamente, porque texto literário é o texto bíblico. Não é propriamente um texto de história, não é um texto de geografia, não é um texto de cosmologia ou de botânica, embora fale de todas estas questões. Mas não é um texto de ciências. Tem uma perspetiva própria, tem o seu ponto de vista próprio, que é o ponto de vista religioso, da fé. Aqueles textos – sentia, sempre senti e sinto – nasceram de uma vida com sentido, a dos seus autores, para darem sentido à vida. E, portanto, essa é uma operação hermenêutica, indispensável, a da interpretação com rigor.

Isso sempre o senti, por um lado, mas, por outro lado, e ao mesmo tempo, eu sempre sentia que os textos bíblicos não tinham sido escritos por académicos, nem por técnicos de literatura ou bons conhecedores das ciências. Os textos bíblicos foram escritos por pessoas que sentiam necessidade de comunicar a sua fé a outras pessoas.

 

7M – E que muitas vezes já eram herdeiros de tradição oral.
Sem dúvida! Herdeiros! Até podemos dizer que, do ponto de vista antropológico, todo o ser humano é um herdeiro. Mas, do ponto de vista religioso e no caso do povo bíblico, é verdade o que diz. Temos ali uma herança riquíssima. Sentia-se a necessidade de a transmitir de pais a filhos, através das gerações, como se exprimem os textos bíblicos, até à quarta ou à quinta geração. Isso é uma das grandes ideias da tradição bíblica: a transmissão da fé.

Esta acontecia, em primeiro lugar, na vida, na família, mas também no culto, na escola, etc.. Os próprios autores bíblicos também sentiram necessidade de transmitir, realizando assim uma tarefa que depois se reconheceu como não só providencial, mas também fundamental. Foi a tarefa de nos legarem o mais precioso que o povo bíblico nos deixou, a nós e à história da humanidade: a sua Bíblia. Provavelmente, pelo menos na sua maioria, os autores bíblicos, quando escreviam, não estavam a pensar em contribuir para a minibiblioteca que é a própria Bíblia, que são 73 livrinhos. Eles não teriam essa preocupação. A verdade, porém, é que, querendo ou não querendo, deixaram-nos um legado tradicional, religioso, cultural e mesmo histórico sem paralelo nas religiões antigas.

 

Bíblia dos Jerónimos, século XV, produzida em Florença para o que viria a ser o Rei D. Manuel I de Portugal. Foto © Domínio público, via Wikimedia Commons.  

Bíblia dos Jerónimos, século XV, produzida em Florença para o que viria a ser o Rei D. Manuel I de Portugal. Foto © Domínio público, via Wikimedia Commons.

 7M – No fundo, foi uma obra feita de um conjunto de fragmentos, não havendo, à medida que foi feita, essa visão de conjunto…
Isso mesmo. Porque outros escritores pertencentes aos povos circunvizinhos no Antigo Próximo Oriente – desde o Egito, passando pela Síria, a Ásia Menor e a Mesopotâmia Antiga, onde estavam a Síria, a Babilónia e vários povos e culturas que se foram sucedendo ali naquelas geografias – outros povos também nos deixaram muitos textos. Mas neles não sentimos tão clara a conexão (não só do ponto de vista literário, mas também do ponto de vista histórico, cultural e religioso) entre os vários temas, como notamos na Bíblia.

Os outros povos, o Egito, os Assírios, os Acádicos, os Babilónios, deixaram-nos muitos textos preciosos, e muitos deles constituem interessantes paralelos, tão úteis para compreender melhor os textos bíblicos. Mas nota-se ali a falta de uma articulação, quase ao pormenor, entre acontecimentos e acontecimentos, entre tradições e tradições, entre, por exemplo, faraó e faraó. Coisa que temos na Bíblia.

A Bíblia não é um livro de história, nem um livro de cultura. Mas está cheia de cultura, está cheia de história. E os autores bíblicos, realmente – nós até podemos dizer isso – fizeram uma história: a do povo bíblico. Ou, do ponto de vista religioso, legaram-nos uma história sagrada: a história do povo bíblico. Não é história propriamente dita, como é a historiografia, onde se apuram os factos e onde se depuram os acontecimentos com sentido crítico. Isso não temos na Bíblia, mas temos lá uma história, que é interpretação da história.

 

7M – E também tem um valor documental desse ponto de vista, como toda a literatura tem.
Com certeza que tem, porque pelo facto de ser uma história interpretada teologicamente, pelo facto de ser história sagrada, não deixa de ser uma história. Não é historiografia. Porque ali os factos e os acontecimentos objetivos estão narrados do ponto de vista da história salvífica, de uma história religiosa. Portanto, pelo interesse inerente a tudo isto, é que eu senti também a necessidade e a importância de passarmos essa tradição, essa cultura, essa religiosidade para as pessoas da Igreja, responsáveis vários cargos na Igreja ou para os simples leigos, que procuram aprofundamento da fé.

Os textos bíblicos – que não são ciência – podem iluminar a fé de todas as pessoas. Eles foram escritos para qualquer pessoa que queira dar sentido à sua vida. Por isso é que eu sinto a necessidade de transmitir os conteúdos da fé bíblica para as pessoas que nela queiram nela penetrar um bocadinho mais. E conforta-me saber que mais de 150 pessoas se inscreveram neste curso.

 

Rembrandt e o Regresso do Filho Pródigo

Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo: “A exegese vai ajudar a enriquecer o tesouro que o leitor consegue descobrir e retirar dessa parábola.”

7M – Quer dizer que considera que a hermenêutica e a exegese bíblicas são para todos?
Considero que o texto bíblico é um texto situado. Os textos bíblicos são textos datados. Surgiram em determinados tempos históricos que abrangem vinte séculos, isto é, desde Abraão, lá pelo século XVIII a.C., até ao início do século II d.C. Portanto, os textos bíblicos, embora tivessem sido escritos só no espaço de uns dez, onze séculos, isto é, desde o século X, tempo de David e Salomão, até ao início do século II d.C., mesmo assim falam de uma história que começa já com Abraão.

Considero que eles devem ser compreendidos para desentranharmos o conteúdo próprio de cada texto. E isso requer, como estava a dizer, alguma hermenêutica. Na prática, alguma exegese bíblica. Que agora pode ser feita à medida da capacidade de cada um.

Claro, eu faço essa exegese dos textos bíblicos à minha medida. Mas as pessoas podem interpretar, compreender o texto à sua medida, contanto que seja da forma adequada, mesmo que não seja muito aprofundada, como pode fazer um técnico de exegese bíblica. O importante é que a pessoa consiga perceber qual é o sentido original que o autor queria comunicar ao escrever aquele texto. E isso, a pessoa consegue fazê-lo.

 

7M – Pode concretizar?
Por exemplo, na parábola do Pai Misericordioso ou parábola do Filho Pródigo. Qualquer leitor consegue descobrir nela ricos conteúdos. Consegue perceber que há ali uma grande carga de amor, de misericórdia, de ternura, de afeto igual de um pai para com seus filhos. E enquanto disser assim, por exemplo, um leigo, está a dizer o sentido correto que o texto dessa parábola queria comunicar quando foi escrito. Sem dúvida.

O que eu me proponho com este curso gostaria de ir mais longe: entrar dentro dessa parábola e fazer perguntas a partir de dentro do texto. Porquê um pai? Porquê dois filhos? Porquê dois filhos e não três? Isso até seria interessante, não é? Três é um número bíblico interessante, sugestivo. Porque não três filhos, mas só dois? Ora, eu quero chegar a esse ponto: levar as pessoas a interrogarem-se e, então, a perceberem a razão pela qual são dois filhos. Mais ainda: porque é que o texto da parábola diz que um é mais velho e o outro é mais novo? Procure descobrir. Vê, isso é exegese. E a exegese vai ajudar a enriquecer o tesouro que o leitor consegue descobrir e retirar dessa parábola.

 

7M – É muito mais do que ficar sensibilizado com a própria beleza do texto.
Exatamente. A beleza literária do texto já fala, sim. Já diz muito. Mas podemos ir mais longe, mais fundo ou mais alto. É aí que quero chegar: levar as pessoas a fazer exegese.

 

7M – Mas perceber o que o texto dizia na altura em que foi escrito, para um leigo, é uma grande dificuldade.

Essa é a maior dificuldade. Esse deve ser um grande objetivo de um curso de Introdução Geral à Bíblia: levar os eventuais leitores a perceberem qual era o sentido original do texto. O que é que o texto queria dizer quando foi escrito? A outra operação, o segundo momento hermenêutico, é o que o texto quer dizer agora para mim.

 

Armindo Vaz a ministrar o curso bíblico: “A compreensão do texto é particularmente útil para os catequistas.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

Armindo Vaz a ministrar o curso bíblico: “A compreensão do texto é particularmente útil para os catequistas.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – E estes aspetos são relevantes se pensarmos nas exigências que estão envolvidas nos ministérios laicais de leitor e de catequista, não é verdade?
Com certeza. Porque, já no ministério laical de leitor, a compreensão, o mais cabal possível, do texto, ajuda o leitor a ler bem: não propriamente a pronunciar bem, mas a ler com sentido. Perceber o sentido do texto que se está a proclamar, por exemplo, numa liturgia, faz com que o próprio leitor proclame com outro tom e quase comunique um bocadinho do sentido do texto aos participantes na assembleia litúrgica.

Essa compreensão do texto por meio de alguma exegese é particularmente útil para os catequistas: eles são os primeiros a contactarem com as pessoas fora do âmbito da família. Claro que os primeiros catequistas das crianças são os próprios familiares, idealmente. Era assim, por exemplo, no povo de Israel. E, ainda hoje, assim pode ser na família. Mas fora do âmbito da família, os primeiros que, por assim dizer, tocam na fé, na sensibilidade religiosa das crianças, são os catequistas.

 

7M – Que tem uma função importante…
O catequista tem uma função que quase me atreveria a chamar função primordial, porque vai às origens da vida da criança. Tudo o que diga à criança vai influenciá-la de forma profunda. E é por isso que nós até conhecemos pessoas, por exemplo padres ou professoras que dizem, por vezes com orgulho, “A melhor mestra de religião que eu tive foi a minha catequista” ou “O melhor professor de religião e moral que eu tive foi a minha catequista, foi o meu catequista”.

O catequista toca na fé da criança logo desde o princípio, quando ela está completamente disponível. Por isso, temos de ter muito cuidado com aquilo que o catequista ou a catequista ensina. Precisaria de boa formação catequética. E não é esse geralmente o caso, infelizmente. Exceto poucas pessoas, poucos catequistas têm honrosamente essa formação.

 

7M – Que aprendizagem faz a criança? Ela recebe a fé, mas tem consciência disso? Adere por iniciativa sua ou toma o que lhe foi posto à frente?
A criança escolherá de acordo com a impressão que lhe causar o conteúdo que lhe é comunicado pelo catequista. Se os conteúdos que os catequistas transmitirem a impressionarem positivamente e se conteúdos fizerem sentido na vida da criança e a enriquecerem, então ela abre-se e acolhe.

Se os conteúdos não fizerem grande sentido, então aí não sei como é que reagirá a criança. Se até não será, por exemplo, com alguma rejeição. Se na catequese lhe comunicam conteúdos que não só não vão fazer sentido na vida dela, mas também não fazem sentido enquanto conteúdos, então eu não sei como é que reagirá.

Por exemplo: um eterno tema complicado na catequese, e também na teologia e também na eclesiologia, na vida da Igreja, etc., o famoso caso da chamada história de Adão e Eva, com tudo aquilo que ela implica. Eu não sei qual será a reação das crianças de 8, 10, 11 anos, quando os catequistas lhes dizem que “Adão e Eva” cometeram um pecado horrível – que o catequista não sabe explicar em que consiste –, e que, então, Deus os castigou, a eles e a todos os seus descendentes, ou seja, a toda a humanidade. Eu não sei como é que a criança vai receber estes conteúdos. Sobretudo se depois ela consegue descobrir que os textos bíblicos não falam de nenhum pecado no âmbito dessa narração.

 

7M – Exatamente.
Pôs o dedo numa ferida profundíssima, que tem mais de quinze séculos. É uma ferida ainda não curada, que sangra de vez em quando, e que continua a causar estragos nas pessoas que ouvem falar de cristianismo. Esses conteúdos fazem estragos, não só nas crianças que recebem a primeira catequese, mas até em adultos.

Efetivamente, uma comunicação dessas faz estragos tremendos, inimagináveis. Porque o adulto que recebe catequese já raciocina, já pensa com sentido crítico e faz perguntas e, se as perguntas não são condizentes ou proporcionadas à inquietação do catequizando, ele pode rebentar e, simplesmente, apear-se do comboio. Esta catequese, quando não é bem feita, bem fundamentada em textos bíblicos minimamente bem interpretados, pode gerar ateísmo, relativismo, indiferença em tantas pessoas que encolhem os ombros e dizem “Ah, é assim? Um Deus assim não o quero”.

 

Lucas Cranach, O Jardim do Éden (1530): “Eu não sei qual será a reação das crianças de 8, 10, 11 anos, quando os catequistas lhes dizem que ‘Adão e Eva’ cometeram um pecado horrível”.

Lucas Cranach, O Jardim do Éden (1530): “Eu não sei qual será a reação das crianças de 8, 10, 11 anos, quando os catequistas lhes dizem que ‘Adão e Eva’ cometeram um pecado horrível”.

7M – Isso faz pensar na urgência da formação. A diferença entre a formação desejável e a formação disponível é enorme; o que está disponível é muito pouco.
Disse bem. E muitas crianças não vão. Mesmo adultos, não vão.

 

7M – Mesmo para adultos, apesar do novo diretório para a catequese da Igreja Católica, tudo está orientado para a preparação dos sacramentos e cessam logo depois.
É assim.

 

7M – Até espanta que a fé se tenha mantido na mais completa ignorância, durante tanto tempo…
Isso é verdade. É muito interessante dizer isso. Como foi possível manter a fé, apesar de termos dito coisas que não encaixavam bem na chamada “analogia da fé”? Porque há ali estridências entre uma e outras afirmações de fé.

Por exemplo, não encaixa bem dizer que Deus é amor, suma misericórdia, infinita bondade, mas que ao mesmo tempo castigou toda a humanidade por causa do pecado de um casal. Vê? São coisas não coerentes. Encontramos algumas afirmações de fé que saem desta harmonia. E apesar de tudo, ainda temos tantos cristãos que se mantêm firmes na fé.

 

7M – A ação do Espírito Santo faz-se sentir?
É verdade. As pessoas veem para além da coerência, veem mais fundo do que as incoerências que alguns pontos da nossa teologia geram entre uma verdade e outra verdade cristã. As pessoas estão para além dessas pequenas incoerências geradas pela teologia, por teólogos que somos seres humanos e limitados. Mas, a verdade é que, então, temos de pôr toda a atenção em fundamentar as nossas afirmações teológicas na revelação bíblica. Para isso, é fundamental compreender bem a revelação bíblica.

 

7M – Sim, porque ser teólogo e fazer experiência de Deus… nem sempre uma coisa vai com a outra.
Pois, eu hoje diria assim.

 

“Nada te turbe / Nada te espante / Todo se passa / Dios no se muda / La paciencia / Todo lo alcanza / Quien a Dios tiene / Nada le falta / Solo Dios basta” (Teresa d’Ávila)

 

7M – Os místicos sabem mais disso?
Sim, é verdade. Em primeiro lugar, estão para além da teologia. Comungam muitas verdades da teologia, como essencialmente comungam da tradição da fé cristã que é aprofundada pela teologia. Sem dúvida. Santa Teresa de Ávila, grande mística e considerada como mestra dos cultores do espírito e dos místicos, tinha um grande apreço pelos teólogos. Ela deixava-se tratar e iluminar pelos melhores teólogos da sua época em Espanha. Estimava muito os que ela chamava ‘letrados’, que ela também dizia que deveriam ser simples e humildes.

Portanto, por um lado, sim, o místico comunga da teologia. Mas, por outro, está para além da teologia e podemos até dizer que ultrapassa a teologia. Porque enquanto a teologia bebe nas fontes da revelação, que são fontes escritas e fontes orais, o místico bebe diretamente na revelação. Claro que este “diretamente” tem de ter algumas aspas, porque nunca é diretamente que o místico acede ao divino: sempre há mediação, que é a mediação da fé. Mas o místico faz uma experiência do transcendente quase em direto, ou seja, entra em comunhão com o Divino e experimenta-o em primeiro grau.

 

7M – Santa Teresa era muito conhecedora da Sagrada Escritura.
Era, na medida em que lhe era possível. Ela tinha enorme desejo de ler a Sagrada Escritura – mas nunca teve uma Bíblia completa na mão. Podemos dizer com toda a segurança que ela não leu toda a Bíblia. Leu e devorava tudo o que podia.

Claro que um bocadinho de exegese teria ajudado, mas no tempo dela, no século XVI, não se conseguia ter uma metodologia com ferramentas hermenêuticas que pudessem contribuir para descobrir corretamente o sentido de determinados textos bíblicos. Poderia pegar, por exemplo, e sobretudo, em textos do Antigo Testamento. Já não digo nada, por exemplo, de textos como a epopeia do Êxodo, a epopeia da Ocupação da Terra Prometida, assim chamada, ou então as lendas das tradições patriarcais (Abraão, Isaac e Jacob). Não havia maneira de descobrir a forma literária de cada um desses textos e, portanto, dificilmente se percebia o sentido que cada um desses textos queria comunicar no tempo em que foram escritos.

 

Armindo Vaz: “A geografia bíblica não começa na Palestina, mas no sul da antiga Mesopotâmia, na cidade chamada Ur dos Caldeus” Ilustração © Educris

Armindo Vaz: “A geografia bíblica não começa na Palestina, mas no sul da antiga Mesopotâmia, na cidade chamada Ur dos Caldeus” Ilustração © Educris

 

 

7M – Era o possível no tempo…
Por exemplo, ela falava frequentemente de demónio. E com razão. Porquê? Porque aquilo a que ela chamava demónio pode fazer estragos na vida de fé de uma pessoa: são tentações diversas, que nos distraem, que nos levam para o mais fácil ou para o pior. E recomendava cuidado em não ceder perante as tentações do demónio. Ora bem, quando ela falava do demónio, estava a falar daquilo que hoje, segundo uma exegese aturada, nós temos de chamar diabo. Porque demónio é uma figura literária que corresponde a um conteúdo – portanto, a uma realidade –, que não se deve confundir com a outra realidade, expressa por outra figura literária, que é a que nós chamamos, e a que a Bíblia chama, diabo.

A Bíblia distingue claramente entre essas duas figuras, a do diabo, por um lado, e a do demónio, por outro. Demónio refere-se a males reais físicos, psíquicos ou psicofísicos: um epiléptico, um surdo-mudo, que no tempo de Jesus eram correntes. As pessoas viam e perguntavam: “Como é que se explica isto?”

 

7M – Não havia ciência que explicasse.
E designavam essa realidade (mal físico, psíquico ou psicofísico) com esse termo figurativo: demónio. Ao mal moral, isto é, ao mal perpetrado pelo ser humano contra outro ser humano, a Bíblia chama “diabo”. Corresponde também a uma realidade – e de que maneira! É a existência negativa de uma pessoa que torna mais negativa a vida de outra pessoa. A guerra é o diabo. Grupos que nasceram para matar são o diabo. Enquanto, por exemplo, uma pandemia é um demónio.

Santa Teresa não distinguia, não podia distinguir. No tempo dela, nem os teólogos distinguiam. E por isso Santa Teresa chamava à realidade inquestionável que é o mal moral com o nome usado pelos teólogos no seu tempo, claro. A exegese iria pôr precisão nesse tema. Hoje podemos fazê-la.

 

7M – Também na perspetiva de que o conhecimento e a inteligência não geram fé, mas a fé não os dispensa.
Diz bem. Também pode haver fé fora da competência na compreensão das Sagradas Escrituras. Pode, e nós temos aí o povo simples, a piedade popular, etc., que tem fé e que não sabe fazer exegese. Mas a exegese vai dar mais profundidade à fé, vai pensar a fé, onde nós estamos quase no limite de adulterar certas verdades da fé. A exegese vai lá pôr verdade, corrigindo a interpretação tradicional de certas expressões ou de certos relatos bíblicos. Por exemplo, os primeiros onze capítulos do Génesis, sobretudo esses, que ainda hoje não são suficientemente bem entendidos pela sociedade e pela tradição cristã em geral.

 

 

Papa Francisco audiência-geral 23 03 2023 antes de ser hospitalizado

O Papa Francisco “fala precisamente sobre a necessidade da catequese e da formação bíblica na catequese”. Imagem reproduzida do canal YouTube do Vatican News.

 

7M – O Papa Francisco tem feito muito isso nas suas catequeses.
Tem feito.

 

7M – E com muita gente a achar mal…
Também…

 

7M – Com a crise associada ao clericalismo na Igreja Católica, o conhecimento da Bíblia torna-se mais indispensável para que alguém seja capaz de exercer com responsabilidade o seu papel na Igreja?
Sem dúvida. Seria muito conveniente, para não dizer mesmo necessário, porque um leigo que ocupe um cargo com algum destaque social ou de representatividade na comunidade cristã, se não tem um mínimo de formação bíblica, pode deixar mal a Igreja, pode fazer pensar ainda mais nas limitações e na pobreza do exercício dos ministérios por parte da Igreja e dentro da Igreja. Por isso, seria de toda a conveniência que, se escolhemos ou nomeamos para determinados cargos dentro da Igreja certas pessoas, lhes déssemos formação, a melhor possível. A melhor possível.

Voltemos à catequese: não basta pedir que as pessoas que quiserem ser catequistas se apresentem no cartório para ver a que hora podem dar catequese. Haveria que ser mais rigoroso na seleção dos catequistas. Haveria que pedir-lhes formação em conteúdos religiosos, sobretudo bíblicos. Porque já sabemos que não há catequese sem Bíblia. Pelo menos não devia haver. A Bíblia hoje já está suficientemente presente na catequese. Está, sem dúvida.

Outra coisa é a competência por parte dos catequistas, que estão cheios de boa vontade e fazem o melhor por darem os melhores conteúdos às crianças na catequese. Dão o melhor de si mesmos, em tempo, em disponibilidade, até mesmo em bens. Tudo isso é fantástico, mas é preciso que essas pessoas tenham formação e, porque na catequese a Bíblia é fundamental, então eles têm de ter formação bíblica.

 

7M – O Papa Francisco, nas audiências-gerais, tem feito catequeses sobre a alegria da evangelização (iniciadas a 11 de janeiro). É uma forma de nos recordar o Decreto Apostolicam Actuositatem, do II Concílio do Vaticano, que tão bem explicita esse dever de todos os batizados?
Sim, claro. É verdade. O Papa Francisco, no nº 175 da exortação apostólica Evangelii Gaudium, fala precisamente sobre a necessidade da catequese e da formação bíblica na catequese. Tal também já tinha sido apontado na exortação apostólica Verbum Domini de Bento XVI (número 74 e seguintes).

 

 

Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo: “A exegese vai ajudar a enriquecer o tesouro que o leitor consegue descobrir e retirar dessa parábola.”

Albrecht Dürer, São Jerónimo, tradutor da Bíblia. Imagem © Direitos reservados, via Wikimedia Commons.

 

O estudo da Sagrada Escritura deve ser uma porta aberta para todos os crentes. É fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a catequese e todos os esforços para transmitir a fé. A evangelização requer a familiaridade com a Palavra de Deus, e isto exige que as dioceses, paróquias e todos os grupos católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária.

Papa Francisco, EG, A Alegria do Evangelho, 175]

 

7M – No fundo, estamos aqui a procurar resposta à questão: como se forma um ser humano para a experiência de Deus? O Papa Francisco, na catequese de 13 de maio de 2020, sobre a oração, diz que “oração pertence a todos: aos homens de todas as religiões, e provavelmente também àqueles que não professam religião alguma”. Acrescenta que “o que reza em nós é o mistério mais íntimo de nós mesmos”. Portanto, esta experiência de Deus toca a todos os seres humanos. E essa também será uma perspetiva cristã, de olhar para a questão de que Deus veio para todos e Jesus veio para todos. Concorda?
Sem dúvida, isso é claro. Embora a experiência cristã seja específica dentro do concerto das religiões, ela comunga com as outras na medida em que todas elas dizem que todo o ser humano é, no seu fundo, religioso e que esse fundo religioso faz parte da essência, da identidade e, portanto, da definição de ser humano. Ou seja, poderíamos dizer que não definiríamos cabalmente o ser humano, se não disséssemos que ele é não só para o outro e com o outro, mas também para o totalmente Outro.

Não é por acaso que essa perspetiva aparece logo na primeira página da Bíblia, em que o ser humano é perspetivado como criado por Deus, ou seja, como provindo de Deus, como tendo sido feito por Deus, logo, para se relacionar com Deus. O ser humano aparece na Bíblia como um ser de relação. Nesse sentido, as antropologias mais recentes, a antropologia filosófica mais recente, dão a mão à Bíblia. Porque antigamente, quando estudávamos filosofia, definíamos o homem como um ser racional. Um animal racional.

 

Armindo Vaz: “O ser humano é muito mais do que um animal racional, é um ser de relação.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

Armindo Vaz: “O ser humano é muito mais do que um animal racional, é um ser de relação.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

7M – Mesmo com muitas provas de irracionalidade.
Exatamente. Um animal racional. Hoje não há nenhum filósofo, antropólogo, que aceite essa definição de ser humano. O ser humano é muito mais do que um animal racional. É um ser de relação: um ser com o outro e para o outro, em empatia com a própria Bíblia.

 

7M – Nas catequeses que o Papa Francisco fez sobre os mandamentos, ele começa logo por dizer que o decálogo são 10 palavras dirigidas por Deus ao homem para dialogar com ele.
Os mandamentos aparecem dados por Deus, como uma Lei de Deus para o ser humano, mas no âmbito da aliança de Deus com o ser humano, a chamada Aliança do Sinai. É aí, nesse contexto de amizade de Deus com o homem (no livro do Êxodo, capítulos 19 até 24) que se descreve a doação da Lei ao povo de Israel.

A aliança é de Deus. Ele é que a propõe ao povo: “queres fazer uma aliança? queres relacionar-te comigo? queres dialogar comigo? queres estar em comunhão comigo?”. E manda a Moisés que diga isso ao povo. E o povo respondeu, “sim, tudo aquilo que o Senhor disse, nós o faremos.” Resposta de Deus a Moisés: “Muito bem. Se quer, então tem aqui a minha vontade: dez palavras. Tem de amar os outros”. Já lá está no Antigo Testamento: Honra o pai e a mãe; Não matarás; Não roubarás; Não mentirás; Não farás mal a ninguém. Com isto ligava-se o Papa Francisco: é essa a vontade de Deus – que as pessoas se estimem umas às outras. O Novo Testamento dará ponto culminante a essa verdade, dizendo “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. E sugerindo que o ser humano estará mais completo quando procurar e encontrar Deus, diz que o encontra no mais íntimo de si próprio: é o Espírito Santo, que é «a lei do Espírito», a lei que é o Espírito, recebido no batismo e que inspira a pessoa por dentro, ditando-lhe o que deve fazer para ser melhor e para se realizar.

 

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