Arquivo do Vaticano deixa de ser “Secreto” e passa a ser “Apostólico”

| 29 Out 19

Sala dos Anjos Músicos, na entrada para o Arquivo Apostólico do Vaticano. Foto reproduzida do catálogo Lux in Arcana, de 2012.

 

O até agora Arquivo Secreto do Vaticano passa a denominar-se Arquivo Apostólico Vaticano (AAV), de acordo com uma decisão do Papa Francisco, anunciada nesta segunda-feira, 28. A decisão foi formalizada na carta apostólica sob a forma de motu proprio A Experiência Histórica. Na carta, Francisco justifica a mudança de nome com as mudanças semânticas, na cultura e nas sensibilidades de todas as nações com o passar dos tempos: o termo secretum, que significava “privado” para referir o arquivo pessoal do Papa, “começou a ser mal-entendido e interpretado de modo ambíguo, até mesmo negativo”, refere o Papa no documento, citado pelo portal Vatican News.

O agora AAV, tal como a Biblioteca Apostólica, é dirigido desde Setembro de 2018 pelo cardeal português José Tolentino Mendonça e na argumentação utilizada pelo Papa na carta apostólica não será difícil ver o dedo do arquivista. Francisco acrescenta que “toda a instituição humana, nascida com a melhor das tutelas e com vigorosas e fundamentadas esperanças de progresso, fatalmente tocada pelo tempo, e para permanecer fiel a si mesma e aos objetivos ideais da sua natureza, adverte a necessidade, não só de mudar a própria fisionomia, mas de transpor nas várias épocas e culturas os próprios valores inspiradores e realizar as atualizações que considera conveniente e às vezes necessária”.

A bula “Inter Caetera”, do Papa Alexandre VI, que reconhecia a partilha do mundo feita por Portugal e Espanha. Foto reproduzida do catálogo Lux in Arcana.

 

No Vatican News, recorda-se ainda que do núcleo documental da Câmara Apostólica e da própria Biblioteca Apostólica (a chamada Bibliotheca secreta) nasceu, no início do século XVII, o Arquivo Pontifício que começou por se designar Secreto (Archivum Secretum Vaticanum). Com o tempo, o Arquivo cresceu e começou a ser solicitado por investigadores que pretendiam aceder à consulta de documentos nele guardados. “Embora a abertura aos pesquisadores tenha ocorrido apenas em 1881, entre os séculos XVII e XIX inúmeras obras eruditas puderam ser publicadas com o auxílio de cópias fiéis de documentos autênticos que eram conservadas pelos prefeitos do Arquivo Secreto Vaticano”.

O último passo da abertura do Arquivo foi anunciado há meses por Francisco: em março de 2020, toda a documentação do pontificado de Pio XII passa a estar acessível à consulta.

Entre os documentos guardados no AAS, constam, por exemplo, o rolo com o processo dos Templários, constituído por 60 metros de pergaminho com 231 confissões de outros tantos cavaleiros do Templo, ou a assinatura de Galileu Galilei na sentença em que o cientista aceita a sentença que contra ele pronunciara o cardeal Roberto Bellarmino, presidente do Tribunal do Santo Ofício. Ambos estiveram há sete anos numa exposição do Arquivo em Roma.

Assinatura de Galileu no processo da Inquisição contra ele. Foto reproduzida do catálogo Lux in Arcana.

 

O Arquivo cujo responsável máximo é o cardeal português tem 85 quilómetros de estantes onde estão depositados milhões de documentos (entre os quais, 30 mil pergaminhos), provenientes pelo menos de 650 fundos diferentes e dos arquivos dos diferentes papados.

 

(Este texto teve o contributo de António Marujo)

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