Arquivos de Pio XII hoje abertos: as “debilidades, força e contradições” do catolicismo durante a II Guerra Mundial

| 2 Mar 20

Papa Pio XII. Foto: Direitos reservados.

 

O arquivo do pontificado do Papa Pio XII abre esta segunda-feira à consulta de investigadores, após década e meia de preparação e tratamento da documentação disponível. A abertura foi considerada pelo cardeal bibliotecário do Vaticano, o português José Tolentino Mendonça, como um “acontecimento histórico”.

Em Fevereiro de 2003, em entrevista ao Público, o historiador italiano Andrea Riccardi dizia que, também na sua relação com a Guera Mundial e o nazismo, o Papa Pio XII “somatiza o catolicismo dos anos 50, com as suas debilidades, a sua força, as suas contradições”.

Até ao próximo mês de Maio, os 20 lugares disponíveis na sala de leitura do Arquivo Apostólico do Vaticano estão já requisitados por 85 historiadores, entre os quais vários do Museu do Holocausto, de Washington, e de países como Israel, Alemanha, Itália, França, Rússia, Espanha e vários da América do Sul.

Tolentino Mendonça afirmou também, em declarações ao Vatican News citadas pela Ecclesia, que os documentos podem ser investigados com “total abertura”, sem “qualquer restrição de religião, de proveniência, de ideologia”.

“A Igreja não tem medo da história, mas considera a avaliação dos estudiosos com a certeza de que seja compreendida a natureza de sua ação”, acrescentou o cardeal português há dez dias, quando falou sobre a abertura dos arquivos de Pio XII, que foi declarado venerável por Bento XVI, em 2009, abrindo assim caminho eventual à sua beatificação.

A abertura dos arquivos pode vir a fazer luz sobre o pontificado de Pio XII, um dos mais longos da história da Igreja Católica (1939-1958), que coincidiu com a II Guerra Mundial e os primeiros anos da Guerra Fria. Muitos sectores acusam o Papa Pacelli de ter silenciado o Holocausto, mas muitos dados disponíveis mostram que, entre várias ambiguidades, ele teve também um papel activo na protecção de muitos judeus.

Na documentação agora disponibilizada incluem-se 120 diferentes fundos de arquivo, num total de 16 milhões de folhas em 15 mil dossiês. Uma das principais fontes, informa a Ecclesia, é o arquivo dos Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, com quase cinco mil caixas que foram reordenadas, num inventário de cerca de 15 mil páginas.

 

“O ódio do nazismo contra o Papa”

Citado igualmente pela Ecclesia, o arcebispo Paul Richard Gallagher, secretário do Vaticano para as Relações com os Estados, disse ao Vatican News que a documentação mostrará um Papa “defensor da humanidade”, um “autêntico pastor universal e que foi corajoso diplomata”.

“Como Papa demonstrou uma caridade ilimitada, nem sempre compreendida e nem mesmo partilhada dentro dos muros vaticanos. Dos seus documentos evidenciam-se os esforços feitos para tentar responder aos pedidos de ajuda para a salvação dos perseguidos e dos necessitados em perigo de vida. Certamente poderemos constatar também o ódio do nazismo contra a Igreja Católica e pelo próprio Papa”, afirmou.

Johan Ickx, director do arquivo de uma secção da Secretaria de Estado do Vaticano, defendeu numa intervenção sobre “A Santa Sé e os refugiados (1933-1945)”, apresentada num recente colóquio da Missão da Santa Sé nas Nações Unidas, em Nova Iorque – que, dos 9.975 judeus presentes em Roma no dia da libertação, no final da II Guerra Mundial, 6.381 tinham sido ajudados e protegidos por Pio XII, pelas instituições do Vaticano e pelo Vicariato de Roma. “A preocupação com os refugiados está no topo da agenda política da Santa Sé”, referia.

Em Julho de 2012, o Yad Vashem – Memorial do Holocausto, em Jerusalém, alterou o texto alusivo a Pio XII que se encontra nas suas salas de exposição: mantendo as críticas ao Papa Pacelli, a legenda acrescentava que os seus defensores afirmam que ele se manteve neutral e que a sua acção possibilitou “um número importante de resgates clandestinos em diferentes níveis da Igreja”.

Na entrevista de Andrea Riccardi, já citada, o historiador italiano defendia que não se pode fazer de Pio XII “uma caricatura, é preciso estudá-lo como personagem histórico”. Pacelli é “a síntese do catolicismo da primeira metade do século, como, em certo sentido, Wojtyla [João Paulo II era] a síntese do catolicismo da segunda metade do século”.

Fundador da Comunidade de Santo Egídio, Riccardi é um dos que mais tem investigado o pontificado de Pio XII. E considerava que Pacelli “escolheu fazer condenações indirectas”, tentando “fazer da Igreja um espaço de asilo aos perseguidos e de mediação diplomática”.

Nessa entrevista (reproduzida no livro Deus Vem a Público, ed. Pedra Angular), acrescentava: “Pio XII escolheu fazer condenações indirectas. É uma escolha. Mas não porque fosse filo-nazi. Temos provas de que Pio XII ajudou, de longe, a ideia de uma conjura contra Hitler” – o tiranicídio, está “previsto mesmo pela doutrina católica”. Ele preferiu esse tipo de intervenção, tentando fazer da Igreja “um espaço de asilo aos perseguidos e de mediação diplomática”, dizia Riccardi. E o que se deve debater é sobretudo a estratégia escolhida por Pacelli, de priviliegiar a acção escondida.

 

Pelo menos 4300 judeus refugiados em casas religiosas

P. Joaquim Carreira, reitor do Colégio Pontifício Português durante a II Guerra Mundial, que protegeu e deu abrigo a cerca de 50 fugitivos do nazismo, entre os quais alguns judeus. Foto: Direitos reservados

 

Em Roma, os conventos e as instituições do Vaticano abriram-se a muitos judeus perseguidos: dados de investigações várias dos últimos anos indicam que pelo menos quase um terço das casas religiosas de Roma (220, em 750 conventos, mosteiros e colégios pontifícios, entre outras), acolheram judeus perseguidos, partigiani antifascistas, socialistas, comunistas e muitos outros.

Entre os 10 a 12 mil judeus que viviam em Roma, pelo menos 4300 pessoas acolhidas naquelas casas, sobretudo durante o período de ocupação nazi da cidade (Setembro de 1943-Junho de 1944). Um dos casos foi o do padre Joaquim Carreira que, enquanto reitor do Colégio Pontifício Português, deu abrigo e protecção a pelo menos meia centena de homens, no colégio, e mais de uma centena de mulheres e crianças em casas de religiosas. Em 2015, depois de esses elementos terem sido revelados, Joaquim Carreira foi declarado “Justo entre as nações”, pelo Yad Vashem.

A escolha de Pio XII foi “lúcida, não ditada pelo medo, mas por uma convicção”, dizia Riccardi. “Outros papas teriam sido mais fortes. Talvez Pio XI tenha sido mais forte na condenação do nazismo, mas eram tempos e carácteres diferentes.” E explica, acerca de como nasceu a lenda do papa silencioso: “Até aos anos 60, foi considerado um grande Papa”, mas, a partir da peça de teatro O Vigário, do alemão Rolf Hochhuth começou a surgir o “discurso muito duro” sobre o Papa e os alegados silêncios. “Mas Pio XII não tinha simpatia pelo nazismo”, diz Andrea Riccardi.

De qualquer modo, já antes de Hochhuth, intelectuais católicos como François Mauriac ou Carlo Bo criticavam a ausência de “palavras fortes” do Papa Pio XII.

“Pode pensar-se ou sonhar-se que outro Papa teria feito de outro modo. Mas os historiadores devem compreender o que fez Pio XII. Arriscamo-nos a exagerar: mesmo os Aliados – americanos, ingleses – não bombardearam Auschwitz”, comentava Riccardi, para quem Pacelli era “um prisioneiro de luxo” no Vaticano, dentro de uma cidade de Roma controlada pelos nazis, que não podia sair nem fazer mais nada além de escrever e contactar os seus representantes diplomáticos – e, mesmo assim, com muitas limitações.

Roma, Castel Sant’Angelo, situado a 200 metros do edifício do então Colégio Pontifício Português, numa foto feita pelo padre Joaquim Carreira, reitor do Colégio durante a II Guerra Mundial, publicada no livro “Roma – História, Arte e Religião” (1975). Foto: Direitos reservados.

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