Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 1)

Arrumar a casa, responder às vítimas, escutar sinais de mudança

| 2 Abr 2023

Debater a questão dos abusos sexuais é essencial para que não seja esquecida ou ignorada. Foto © Lisa Runnels / Pixabay

 

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos, em que a lógica do Evangelho foi invertida: em vez de escutar e cuidar das feridas das pessoas vitimadas, cuidou-se de preservar a instituição e alimentar uma cultura de silêncio.

Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

 

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

 

Dar respostas concretas

 

Nesta primeira resposta, o casal Lisete e Fernando José Fradique, que integra os movimentos das Equipas de Nossa Senhora e Nós Somos Igreja – Portugal, destaca a importância de centrar respostas nas vítimas e promover dinâmicas de escuta de pessoas sobre mudanças a introduzir.

 

1 – Primeiro que tudo, é preciso “arrumar a casa”. No meio deste ruído em torno dos abusos, todas as energias devem ser concentradas nas respostas necessárias para ajudar as vítimas e esclarecer o mais possível a dimensão da tragédia. A forma como este assunto for tratado pode dar sinais importantes para o que há a fazer a seguir. Para já os católicos têm de organizar-se e ir ao encontro da hierarquia, interpelando-a, dando sugestões, apontando insuficiências e confrontando-a com a exigência de levar muito a sério este fenómeno. Vigiar e escrutinar o que se vai fazendo.

Tem de haver dois tipos de liderança paralela: a da hierarquia e a dos cristãos. É preciso que surjam grupos que assumam o direito de interpelar, mas também de participar com ideias que ajudem a esclarecer e propostas de solução. Para isso devem pedir reuniões com os bispos e demais hierarquia. Devem também falar com os párocos que conhecem especialmente os párocos das suas paróquias pedindo reuniões abertas à comunidade, numa perspetiva de entreajuda.

 

2 – Temos pensado no Escutar a Cidade [iniciativa de movimentos católicos para ouvir não-crentes da diocese de Lisboa a propósito do papel da Igreja, no contexto do Sínodo diocesano 2015-2016].

Poder-se-ia fazer algo análogo, com dimensão diocesana, a ser depois acompanhado de entrevistas à hierarquia confrontando-a com essa voz que ela tanto precisa ouvir. Seria uma escuta forçada? Talvez, mas também pode ser uma forma de “furar a bolha” em que muitos clérigos estão encerrados. Indo, claro, ao ponto de estar também disponível para ouvir das razões que têm impedido a mudança e a abertura. Forçar, pressionar para que haja respostas concretas.

Poderiam ser assembleias com caráter programático, donde saíssem grupos para trabalhar em diferentes áreas.

Algumas áreas:

Julgamos ser consensual que as celebrações têm de ser alteradas. Poderia ser uma área de trabalho saída dessas assembleias como um programa de ação.

Exemplos:

Simplificação e clareza de linguagem, ligação à vida concreta, revelando conhecimento da comunidade;
Leituras feitas e comentadas por leigos preparados;
Revisão da catequese, na metodologia e nos conteúdos;
Simplificação dos paramentos/ornamentos;
Aproximação dos sacerdotes e bispos às comunidades em visitas informais e sem aparato para além dos dias de festa e acontecimentos especiais;
Incluir trabalhadores leigos nas dioceses para libertar sacerdotes que faltam nas paróquias/comunidades e também libertar de tarefas burocráticas aqueles que devem ser sobretudo pastores. Pedir aos bispos que apoiem mais os sacerdotes que estão muito sós. Ter atenção às condições de habitabilidade dos sacerdotes que por vezes estão muito isolados. Promover formas de proximidade.

 

3 – Não conseguimos, neste momento, dizer em que podemos ser úteis. Mas, uma vez que surjam programas de ação, talvez consigamos ajudar. Gostaríamos muito de contribuir.

 

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