Arte, literatura e renovação cristã
À memória do Arquiteto João de Almeida
Começo por invocar a memória do Arquiteto João de Almeida, que nos deixou há pouco e que teve um papel fundamental na reflexão e na renovação da Arte Religiosa em Portugal. Compreendeu como poucos que a liberdade religiosa e uma perspetiva de laicidade, tão enfatizadas no Vaticano II, têm sido fatores essenciais para o estabelecimento de uma relação genuinamente saudável e construtiva entre a espiritualidade, a criatividade cultural e a salvaguarda do bem comum, tornando as nossas vidas “lugares de beleza”. Daí a importância do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR), animado em 1952 por figuras marcantes do mundo das artes, como Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Diogo Pimentel, António Freitas Leal, José Escada, Manuel Cargaleiro, Flórido de Vasconcelos, Madalena Cabral e Maria José Mendonça, entre outros…
João de Almeida foi nesse grupo um dos mais influentes, com uma densidade única na concretização de uma abertura inovadora na espiritualidade da arte – tendo sido autor das igrejas de Paço d’Arcos e Moscavide. E é fácil de ver como as gerações mais jovens foram influenciadas por esse impulso, que entroncou na extraordinária projeção internacional da moderna arquitetura portuguesa, de que são protagonistas Siza Vieira e Souto Moura.
Se falo de um renovador da arte a partir de uma perspetiva cristã, devo recordar o exemplo de Graham Greene (que o arquiteto João de Almeida bem conhecia e admirava). E dou o exemplo de Monsignor Quixote (1982, tradução portuguesa: Europa-América, 1984), o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar. Trata-se de um diálogo vivo e divertido sobre temas muito sérios e complexos que um grande romancista trata de um modo inteligente e atual. Estamos perante uma recriação, nos dias de hoje, da obra de Cervantes, que é uma chamada à atualidade, como a do século dezassete, de uma crítica jocosa e séria à sociedade e ao confronto eterno entre valores e realidades.
E tudo se passou assim. O Padre Quixote tinha encomendado o seu almoço solitário à governanta e pôs-se ao caminho para ir buscar vinho a uma cooperativa local, a oito quilómetros de El Toboso, na estrada de Valência. Era um dia de calor imóvel, no qual o ar trepidava sobre os campos secos. Com o seu Seat 500, comprado barato havia oito anos, sem ar condicionado, o Padre cismava com tristeza sobre o momento em que iria ter de mudar de carro. O homem vive sete vezes mais do que um cão: com tais contas, o automóvel não tinha entrado ainda na idade madura, mas o Padre tinha reparado que os seus paroquianos consideravam já o seu Seat quase senil. E chamavam-lhe a atenção: ‘Nunca fiando, Abade Quixote!’ e só ele podia responder: ‘Percorremos maus dias, e eu peço ao Senhor que esta viatura me possa sobreviver’. Com tantas orações sem serem ouvidas, alimentava uma certa esperança de que este pedido pudesse funcionar como um pedacito de cera na ‘Orelha Eterna’…
O Seat era o seu Rocinante, e havia uma espécie de afeto que Quixote alimentava no seu íntimo. E indo nestes pensamentos não reparou logo num Mercedes parado na estrada. Mas, olhando bem, deu nota de que se tratava de alguém que tinha cabeção, era um clérigo, e mais do que isso tinha vestes de um Monsenhor. Naturalmente, indagou o que era. Tratava-se de um Bispo, vindo de Roma, com uma pronúncia inconfundível, que se identificou como de Motopo, um título in partibus infidelium. O contacto foi fácil e a hospitalidade extraordinária, com vinho, queijo, carne e a boa cozinha de Teresa, a governanta do Padre Quixote. O encontro foi, assim, de grande simpatia e de tal modo a ajuda foi benfazeja, ainda que bem simples, graças a um jerrican para repor o nível de combustível, que o Bispo romano partiu satisfeito para Madrid, o seu destino.
E aqui nasceu o motivo romanesco. Para grande surpresa do Bispo da diocese, o Padre recebeu do Vaticano a nomeação para Monsenhor, em reconhecimento das qualidades reveladas, mas, ao contrário do que seria esperável, o bispo considerou incómoda a distinção para quem era um modesto pároco de aldeia, a que o prelado não reconhecia especiais qualidades, pelo que se tornou incómoda a sua presença na paróquia, o que levou Quixote a aproveitar o ensejo para viajar com seu amigo Sancho, um comunista, que inesperadamente perdera as eleições para Alcalde de El Toboso. Neste ponto, com as devidas distâncias, tudo se assemelha ao encontro de D. Camilo e Peppone de Giovanni Guareschi.
Nessa viagem de encontros inesperados e de desencontros, o que se debate é a Espanha marcada pela Guerra Civil e pelo franquismo, que espreita ainda onde menos se espera. E o Padre Quixote, ao que parece, descendente do herói mítico de Cervantes, compreende em sentido crítico a fé e a razão, não como ilusão, mas como uma exigência de compreensão. O materialismo de Sancho choca com o espírito de Quixote, mas na realização da justiça há a preocupação do Padre se pôr na pele do Alcalde, para surpresa deste, mostrando que não há dogmatismo que possa vencer o amor e o cuidado com os outros. Por isso, Quixote afirma que “o raciocínio lógico leva-nos tantas vezes a situações absurdas”…
Há que ponderar os dilemas que nos são colocados pela coexistência de valores que não podem sobrepor-se ao primado das pessoas concretas, de carne e osso. Em determinado momento, Sancho insinua que a fé e a ilusão se tocam. Mas Monsenhor Quixote não deixa passar em claro esse ponto: “Pensa que o meu Deus não é senão uma ilusão, como os moinhos de vento. Mas Ele existe, sou eu que o digo. Não me limito a acreditar. Posso tocá-lO”.
A polémica, porém, não é apenas com Sancho, que se demarca da solução eurocomunista e de Santiago Carrillo, preferindo Álvaro Cunhal; há também um sério confronto entre o novo Monsenhor e o seu Bispo, quando este põe dúvidas sobre a liberdade e as suas virtudes por esta ser perigosa, o que leva Quixote a responder: “Foi Ele (Jesus Cristo) quem nos deu a liberdade, não foi? Por isso mesmo O crucificaram.”
No final do romance, Graham Greene revisita o célebre episódio de Cervantes com Dulcineia e transpõe-no para uma cena em que um grupo de fanáticos profana a imagem da Virgem Maria cobrindo-a de dinheiro, o que obriga Monsenhor Quixote a intervir, a ser atacado e a sair severamente molestado, além de ver destruído o seu querido automóvel. Acolhe-se com o seu amigo no Mosteiro trapense onde, fraco e doente, é acometido de um delírio sonâmbulo, levantando-se de noite para ir até à Igreja onde celebra uma antiga missa tridentina, imaginando que tem nas suas mãos o pão e o vinho eucarísticos, que administra num derradeiro gesto em comunhão ao antigo Alcalde, caindo depois morto nos seus braços…
O romancista escreveu “Monsenhor Quixote” depois de uma viagem de reconhecimento em vésperas da chegada da Espanha às Comunidades Europeias, que fez com o seu amigo Padre Leopoldo Durán. O diálogo entre Quixote e Sancho significa a compreensão de um encontro necessário entre as duas Espanhas, e Greene não esconde a sua admiração por místicos como S. João da Cruz e uma especial identificação com Miguel de Unamuno, e o seu Sentimento Trágico da Vida.
Humor e tragédia são encontrados neste percurso em que D. Quixote é relido à luz dos nossos dias. Como Leopoldo Durán testemunha, Greene era de uma disciplina notável – lia sete a dez narrativas num mês e diariamente escrevia a partir das 8 horas pelo menos trezentas palavras. E não foi só uma viagem, mas 15 verões passados na Península. Durán pagava a gasolina, algumas refeições e as pernoitas em conventos e mosteiros e Greene assegurava os jantares e os hotéis. Interessava ao romancista ver como ficava a Espanha depois do fim do franquismo. Logo em julho de 1976 visita Salamanca, Galiza e a costa cantábrica até San Sebastian, Burgos e Segóvia… No ano seguinte parte de Salamanca, Ávila e Leão e segue até Portugal, com paragens no Porto, Lisboa e Sintra… E depois retorna a Madrid, onde no Prado se torna um admirador devoto de Goya. E depois visitou sistematicamente La Mancha, depois do circuito amplo Andaluzia, Levante, Catalunha e Pirenéus… Eis como Monsenhor Quixote deve ser lido como uma reflexão e um balanço de um escritor do seu tempo.
Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian
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