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[Moçambique, margem Sul]

Arte, tatuagens e valores estéticos: os macondes de Moçambique

| 26/04/2022

Máscara maconde. Moçambique

Uma máscara maconde. Foto: Direitos reservados.

 

Se me quiseres conhecer
Se me quiseres conhecer,
Estuda com os olhos bem de ver
Esse pedaço de pau preto
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou
Em terras distantes lá do Norte
Ah, essa sou eu […]
(Noémia Sousa, Sangue negro; ed. AEMO, 2001)

Passo todos os dias por um ponto no qual se instalou um grupo de associados da cooperativa de arte maconde, em Maputo. Fundada em 1975, durante muitos anos, a cooperativa funcionava em um lugar convencional, na cidade de Maputo, mas, nos últimos anos, passou a funcionar num lugar informal, junto à marginal. O material de que a instalação actual é feita é precário. Trata-se, na verdade, de uma “barraca”, como chamamos a construções de material não convencional. 

A arte maconde é característica de um povo oriundo do Planalto de Mueda, no Norte de Moçambique, na província de Cabo Delgado. É conhecido estereotipicamente como guerreiro e extremamente ligado à arte, de tal sorte que essa manifestação cultural não só é representada em objectos, como também é colocada no corpo, com recurso a escarificações e tatuagens. 

De um modo geral, antigamente, mulheres e homens tinham as caras escarificadas e tatuadas. Com o tempo, os homens deixaram de o fazer e as mulheres continuaram a cumprir com esse mister. Mas, ultimamente, também elas deixaram de se tatuar. Além disso, das que ainda tinham essa marca do “ser maconde”, com as tecnologias da medicina moderna “removeram”, a laser, as escarificações e tatuagens que tinham. Devo dizer que a diferença entre esses valores estéticos situava-se no facto de as mulheres, para além das tatuagens, colocarem um furo nos lábios e dentro dele, um indona (pedaço de pau preto, que une os dois lábios). Para ver um exemplo de tatuagem maconde, pode-se ver o filme Comboio de Sal e de Açúcar, de Licínio Azevedo, que apresenta a personagem Sete Maneiras, um homem tatuado (sem recurso a escarificações), interpretado por António Nipita.

Intrigava-me ver tão valiosos objectos colocados em um estabelecimento pouco convencional. Além disso, sempre tive curiosidade em perceber se, para além dos valores estéticos, as escoriações e tatuagens maconde tinham outro significado; porque, tendo crescido muito próxima de um bairro a que se designava “zona militar” – habitada maioritariamente por macondes – eu tinha ouvido a sabedoria popular mencionar que tais escoriações e tatuagens tinham significados antropológicos. Entretanto, após ler o livro Arte em Moçambique, de Alda Costa, aprendi que a representação de valores estéticos é um conhecimento universal e que a arte pode ser analisada a partir da sua representação estética e não do seu valor utilitário ou da sua função antropológica. É também essa a perspectiva de análise que foi referida pelo meu interlocutor na cooperativa, Sebastião Nakanda, que fez questão de abordar a arte exposta na cooperativa numa perspectiva estética.

Para além das marcas corporais, a arte maconde é representada em objectos. Na cooperativa a que me refiro, esses objectos artísticos são caracterizados por esculturas shetani, Ujamaa, máscaras de mapiko, diferentes tipos de objecto utilitários rústicos – feitos de madeira de mafurreira, entre outros. 

As esculturas em shetani e ujamaa são feitas em “pau preto” e são aquilo a que se considera “tipicamente maconde”. As do primeiro tipo, as esculturas shetani, representam maldade, as do segundo tipo, ujamaa, unidade. Uma explicação pormenorizada pode ser encontrada no livro Arte em Moçambique. São todas elas feitas com recurso ao pau preto. Eu tinha ouvido, de algum modo, falar no precioso pau preto e no seu grande valor, a partir de escritores de referência, em Moçambique, tais como Noémia de Sousa, no emblemático poema “Se me quiseres conhecer”, acima epigrafado, e José Craveirinha, no célebre poema “Siya Vuma”. 

A dança mapiko
Cabeça dupla (maconde). Foto: Direitos reservados.

Cabeça dupla (Maconde). Foto: Direitos reservados.

 

Sobre o mapiko, enquanto dança, tinha ouvido falar de forma vaga. Lendo a obra literária de Felizmina Velho, intitulada Xilendela Maconde foi Riscada do Mapa,  vi o mapiko associado aos ritos de iniciação de rapazes, rituais esses que não são um exclusivo dos macondes; são também realizados nessa cultura, com a diferença de que, entre os macondes, depois dos ritos de iniciação (passagem de menino para homem), nos quais passam por uma circuncisão, recebem um cognome e ascendem a uma fase considerada de adultos; após essa cerimónia segue-se um momento de reclusão, onde recebem os ensinamentos que melhor os habilitará como homens. Esse processo termina com a dança do mapiko. 

Na cooperativa, Sebastião Nkanda explicou-me que a máscara mapiko é entregue ao bailarino mais ágil e habilidoso que dança mascarado. É frenético, o que faz com que muitas vezes se acredite que por trás dela existam espíritos, quando, na verdade se trata de um dançarino, uma pessoa concreta. 

Disse-me ainda que a dança mapiko vai para além da transmissão de forças, sentimentos, tradições e costumes aprendidos durante os ritos de iniciação; é também altura de troca de saberes entre pessoas de diferentes aldeias e que pode ser realizada para lembrar alguém que tenha morrido na comunidade maconde. É uma dança mística e multifuncional, mas é sobretudo um objecto artístico. Tem a sua orquestra específica, tambores e trajes específicos. Lembra a festa do Carnaval, disse-o. Perguntei-lhe sobre as tatuagens que eram feitas na face dos macondes, ao que me respondeu corresponderem apenas a um valor estético.

A cooperativa vende máscaras mapiko, bem como estatuetas de esculturas em shetani e ujamaa, mas estas se encontram num lugar recatado; o que é espantoso é o valor dado aos materiais que os compõem. Esses eram o principal produto que unia os artistas em cooperativa. No espaço exterior, passaram a ser expostos objectos utilitários modernos e rústicos, feitos em madeira de mafurreira. 

Tive sempre curiosidade em saber a razão da ocultação dos objectos em pau preto e o motivo pelo qual a arte rústica tem sido deixada a pernoitar fora da barraca, aparentemente sem receio de que seja roubada. Eu julgava que houvesse algo como uma protecção divina, que não permitisse que fosse roubada. Constou-me que não havia esse tipo de protecção e que os objectos eram guardados por um segurança contratado pelos artistas.

Foi-me explicado que a maior parte dos que compravam a arte maconde eram turistas e moçambicanos com posses. A raridade desses clientes têm feito a cooperativa sobreviver recorrendo à arte moderna. Os sócios da cooperativa tiveram que se adaptar ao novo mercado e às condições actuais; daí a produção artística em materiais de outros tipos de madeira, a tal com a qual se produzem objectos rústicos. Vivemos tempos líquidos, como diria Zygmunt Bauman.

Nessa madeira, há utensílios que estão muito ligados ao grande consumo, como decoração de festas: tábulas para queijos, bases para ornamentação de bolos, mesas decorativas, entre outros. Têm sido os objectos mais comprados, porque mais baratos e esteticamente bem aceites nestes tempos modernos, nos quais há possibilidade de utilização de formas alternativas.

Após matar a minha curiosidade relativa à protecção de tão valiosos objectos e o significado das tatuagens maconde, fica-me a ideia sobre o quão é importante o diálogo entre aquilo a que designamos de tradicional ligado à antropologia versus o moderno – a que chamamos artístico; porque afinal, as máscaras de mapiko são, de algum modo, equiparáveis às do Carnaval e as tatuagens maconde são feitas por uma questão estética, tal como as que hoje vemos no mundo moderno, tanto no ocidente, quanto no oriente. A arte e as suas representações são valores estéticos universais. Aprendi.

Sara Jona Laisse é docente na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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