Obras para piano de Schubert

Arte Total: As Shubertiades de Maria João Pires

| 5 Nov 2023

Ó fresco cheiro, ó novo som!
Não te atormentes, coração!
É hora de tudo mudar
(Johan Ludwig Uhland)

 

Maria João Pires, numa foto do site oficial da pianista.

Maria João Pires, numa foto do site oficial da pianista.

 

Maria João Pires e seus amigos presentearam-nos em Setembro, no início da temporada dos concertos da Fundação Gulbenkian, com as Schubertiades, quatro concertos com obras para piano de Schubert. Dei-me ao luxo de ir a estes quatro concertos, de uma assentada. Puro deleite. 

Os amigos em torno de Maria João Pires eram diversos: o Quarteto Hermès, o barítono Thomas Humphfreys, Ignasi Cambra, Júlio Resende, Ricardo Castro, Lillit Gregoryan, todos no piano, Selma Uamusse (de Moçambique), voz, Gyula Stuller, violino, António Meneses, violoncelo, Lou Yung-Hsin Chang, viola, Domingos Ribeiro, contrabaixo… Judite da Silva Gameiro, responsável pela parte da dança, que eu apelaria de “litúrgica”, um ambiente sóbrio na iluminação (luz e sombra). O balanço entre cor e brilho, o corpo, a dança e o texto poético, a música clássica e o jazz. João Saraiva, o mágico das andas e da completa imobilidade. Um grupo bem internacional, vindo dos quatro cantos do mundo. Todos artistas de enorme qualidade, uns originários da música clássica, outros do mundo do jazz. Um ambiente de verdadeira tertúlia, com os artistas à volta da mesa redonda, à média luz, interagindo com subtileza enquanto um deles atuava. A beleza da imperfeição. 

A sombra de Schubert pairando, elevando, transformando… A uni-los, Maria João Pires e as suas pequeninas mãos ao piano na sua figura frágil e imensa. Ouso afirmar que estes foram momentos de “arte total” em que a música de Schubert é recriada em tantas outras modalidades artísticas: isto é, os mistérios da música incomparável de Schubert entrevistos através de outras artes que não apenas a musical. Schubert, o inigualável Schubert que, morto precocemente aos 32 anos, viu bem poucas das suas obras conhecidas do grande público.

Traduções de letras significativas de canções: Wilhelm Muller, Goethe, Ludwig Rellstab, Johann Georg Jacobi, entre vários outros. O programa impresso mostrava-nos alguns dos poemas em versão portuguesa.

Terra que acolhe os meus amigos,
Que ressuscita os meus mortos,
Terra que fala a minha língua,
Ó terra onde estás tu?
(Georg Philipp van Luberck)

Tu és a calma,
A paz repousante, Tu és a saudade,
E o que ela suaviza.
Consagro-te,
Com alegria e dor,
Para neles habitares,
Os olhos e o coração.
(…) Que este coração fique repleto
Com a tua alegria.
O que os meus olhos veem
Seja só iluminado
Pelo teu clarão,
Oh, preenche-o Totalmente!
(Friedrich Rickert, Tu és a tranquilidade)

 

A obra de arte total

 

A sala do festival de Bayreuth. Foto © JosefLehmkuhl, CC BY-SA 3.0 <http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/>, via Wikimedia Commons

Na construção do seu teatro em Bayreuth, Wagner deu grande importância a elementos que proporcionassem ao público uma total imersão no mundo da ópera. Foto © JosefLehmkuhl, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

 

O conceito de Obra de arte total é oriundo do romantismo alemão do século XIX. Geralmente associado ao compositor alemão Richard Wagner, o termo refere-se à conjugação de músicateatrocantodança e artes plásticas em uma única obra de arte. Wagner acreditava que, na antiga tragédia grega, esses elementos estavam unidos mas, em algum momento, separaram-se. O compositor criticava o estado da ópera do seu tempo, em que toda a ênfase era dada à música, em detrimento da qualidade do drama. Este conceito é usado com frequência, principalmente na Alemanha, para descrever qualquer integração de diferentes formas de expressão artística.

Na construção do seu teatro em Bayreuth, Wagner deu grande importância a elementos que proporcionassem ao público uma total imersão no mundo da ópera – como o escurecimento do teatro, efeitos sonoros, rebaixamento da orquestra e reposicionamento dos assentos para focar a atenção no palco. Esses conceitos foram revolucionários na época e hoje fazem parte da maioria das produções “operísticas”, como lemos na Wikipédia.

Maria João Pires, ao jeito de Wagner, é também uma “artista total”, que transforma e transcende a música. Creio poder afirmar que vai para além de Wagner: transforma a música de uma arte competitiva numa arte solidária. Não é apenas uma das maiores pianistas do mundo. É uma mulher visionária que encontrou em Belgais (Centro para o Estudo das Artes de Belgais) a concretização de um dos seus projetos. Belgais é um “centro de arte total”, inscrito nas casas térreas restauradas e no jardim circundante onde o cultivo de flores se cruza com a plantação de legumes ou o pão fresco feito diariamente. Plantar, colher, guardar, armazenar, distribuir. E tertúlias, sim, com todo o tipo de música, onde se fala uma multiplicidade de línguas, se dão muitas gargalhadas e há muita festa e palmas. Percorrendo os interstícios, as vozes e risos das crianças. Uma escola artística para crianças da região (de momento suspensa por falta de fundos estatais). 

 

Maria João Pires num concerto em Belgais, em Agosto de 2019: “Um espaço significante, em harmonia profunda com uma intenção artística”. Foto © António Marujo/7MARGENS

Maria João Pires num concerto em Belgais, em Agosto de 2019: “Um espaço significante, em harmonia profunda com uma intenção artística”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Frédéric Sounat (2001) descrevia assim Belgais:

…um lugar com génio: não uma localização, mas um espaço significante, em harmonia profunda com uma intenção artística. A expressão criativa está, em boa verdade, por todo o lado e estende-se até à cozinha: é importante dizer, por exemplo, que as sopas servidas em Belgais são as melhores do mundo (…). A paisagem das oliveiras, como se numa estrada romana, carrega de sentido, de justeza este “espaço pedagógico” destinado à música e às artes. (…) Poderíamos dizer que os princípios que presidiram à fundação de Belgais tomaram raiz na concepção que faz do poético uma substância comum a todas as artes, pelo que a sua aproximação não deve ser apenas objeto da intuição, mas antes de experimentação. A literatura, as artes plásticas ou manuais, o teatro, a dança, e mesmo a agricultura, colaboram no descobrimento de um saber “estético”, para o qual a música oferece, sem dúvida, um acesso privilegiado (…).

Um “lugar de génio” em que o trivial se transforma em arte, cada gesto ou cada objeto intencionalizado, significante… belo!

Já se terá tornado claro de que a arte de que falamos em Belgais não é nem um fetiche nem uma projeção autoritária do sujeito, nem um valor fixado arbitrariamente, mas um risco: uma troca permanente entre as individualidades mais diversas, uma aventura humana. A investigação estética duplica assim a sua responsabilidade: em relação à criatividade individual e, mais, em relação à sociedade em geral. Nada exprime, nem simboliza melhor este estádio do espírito do que a preocupação em acordar as crianças para a experiência estética, que constitui um dos objetivos fundamentais do projeto e, de certo modo, a sua “dívida” para com o futuro. A descoberta, sem constrições, de várias formas de expressão, o desenvolvimento da interioridade e da vida espiritual são os objetivos principais desta experiência, o que confere a Belgais um lugar único no campo da pesquisa contemporânea sobre a iniciação às práticas artísticas.

As Shubertiades realizaram-se num ambiente ao jeito de Belgais. A presença das várias formas de expressão, a subtileza dos gestos, a transparência das luzes. E sempre a perspetiva formativa, educacional. Antecipando Maria João Pires, Sophia escrevia em 1998, ao falar nas artes na educação: 

Creio profundamente que só a arte é didática porque a arte não explica mas implica. Penso que, como se fazia na Grécia Clássica, a educação deve começar pela ginástica e pela dança, pela música e pela poesia.

É na poesia que verdadeiramente aprendemos a falar. A criança deve aprender de cor poemas antes de saber ler e deve aprender a dizê-los em voz alta com o ritmo e a entoação certa – antigamente nas aldeias, soubessem ou não ler, quer adultos quer crianças, quase todas as pessoas sabiam poemas de cor.

(…) A educação deve partir do concreto para o abstracto. Deve começar por coisas, representações e factos e não pelas ideias. As ideias nascem do real. É o real que as dá à luz. Só depois as ideias iluminam o real.

(…) Creio que o atual sistema de educação desencarnada conduz a um nada mais ou menos sabichão. Pode inducar, impor, inculcar, mas não pode educar, trazer à luz, ser uma maiêutica. E não pode preparar o aluno para o gosto pelo conhecimento. Daí o mau nível de aproveitamento dos alunos portugueses.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen numa foto datada provavelmente dos anos 1950: “Penso que, como se fazia na Grécia Clássica, a educação deve começar pela ginástica e pela dança, pela música e pela poesia.” Foto Fernando Lemos/Direitos reservados.

 

Quem melhor do que Sophia nos pode alertar para o papel das artes na educação? Quem melhor do que Maria João Pires para as pôr em prática? 

Durante estes dias pesados da guerra entre Israel e o Hamas, fazendo recrudescer o eterno conflito Israel/ Palestina, um perigo para a estabilidade no Médio Oriente com consequências para a estabilidade no mundo  inteiro, e a propósito desta perspetiva de “arte total” como “reparadora” de tantas feridas da humanidade, lembro o grande maestro e pianista Daniel Barenboim de origem judaico-askenazi russa, nascido na Argentina mas emigrado precocemente para Israel. Conciliador no conflito do Médio Oriente, acredita(va) que a arte podia criar laços de humanidade e constituiu em 1999 uma orquestra de jovens israelitas e palestinianos, a West-Eastern Divan Orchestra, juntamente com o estudioso literário americano-palestino Edward Said (1935-2003). Ambos queriam contribuir para uma solução pacífica do conflito no Médio Oriente, numa pacífica convivência entre israelitas e palestinianos. Em 2016 Barenboim fundou a Academia Barenboim-Said, que oferece a jovens músicos do Médio Oriente uma educação musical e em ciências humanas. Neste tempo negro de conflito e guerra, lembro as propostas de Barenboim e Said. Infelizmente Barenboim, ao nível da saúde, já não pode participar neste tipo de iniciativas. Que é feito delas?

Todas estas figuras da “arte total” – Maria João Pires, Sophia, Barenboim ou Wagner e tantos outros – têm posto a arte ao serviço da Paz, da educação para a paz e para a humana convivialidade, para uma ética mundial, tal como propõe Edgar Morin em Os Sete Saberes para a Educação do Futuro.

Barenboim associa a arte de tocar numa orquestra a uma escuta ativa:

Sempre que tocamos música, seja de câmara ou em orquestra, temos de fazer duas coisas muito importantes ao mesmo tempo. Uma é exprimir-nos – caso contrário não contribuímos para a experiência musical – e a outra é escutar os outros músicos, faceta indispensável para se fazer música. (…) A arte de tocar música é a arte de simultaneamente tocar e escutar, sendo que uma reforça a outra. Isto passa-se tanto a nível individual como colectivo: a execução é valorizada pela escuta e uma voz é valorizada pela outra. Esta qualidade dialógica, inerente à música, foi a principal razão que nos levou a fundar uma orquestra (Barenboim, 2009:70).

O estudo da música é uma das melhores formas de conhecer a natureza humana. É por isso que me entristece tanto ver que, hoje em dia, a educação musical praticamente inexiste nas escolas. Educar significa preparar as crianças para a vida adulta; ensiná-las a comportar-se e a escolher o tipo de gente que desejam ser. O resto é informação e pode aprender-se de um jeito muito simples. Para tocar bem música, é preciso estabelecer um equilíbrio entre cabeça, coração e estômago. E, se um dos três não está presente ou está presente demais, não se pode usá-lo. Existe alguma coisa melhor que a música para mostrar a uma criança como é ser humano? (Barenboim; Said, 2003, p. 40-41).

O maestro Daniel Barenboim realizou, há uns anos, na Faixa de Gaza, um concerto beneficente organizado pela Agência das Nações Unidas para Assistência a Refugiados Palestinos, Unrwa. Foi a primeira vez que Barenboim, nessa altura com 68 anos, visitou Gaza para reger um concerto. O evento foi apoiado ainda pela Coordenção do Processo de Paz entre Israelitas e Palestinianos, da Unesco. O concerto aconteceu no Centro Al-Madha, na Cidade de Gaza, para um público de 700 pessoas. Não pertenciam a supostas “elites” musicais: muitas delas estavam a ouvir música clássica pela primeira vez.

No seu magnífico CD (até na concepção gráfica) de sonatas de Beethoven, Quasi una Fantasia, Maria João Pires insere um conjunto de poemas de Rainer Maria Rilke. Termino com um desses poemas, sublinhando a necessidade de uma paz urgente em zonas de conflito, e convidando a crescer “na desmesura”. Participar nas Shubertiades foi um desses momentos:  

Não vás nos sons que o vento atira
junto de ti nos vendavais.
Espera atento, a ver se à lira
te chegam mãos das imortais.
Tempo que a todos desfigura
desde o nascer, ruína e pó.
Só crescerás da desmesura
e só no todo estarás só.

 

 

(Um dos concertos das Schubertiades pode ser visto no vídeo a seguir)

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra novidade

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This