
Michel Biberstein, O Céu de Santa Isabel, pintura no teto da Igreja de Santa Isabel, em Lisboa. Foto © Francisca Gigante
Muito se fala sobre emigração jovem em Portugal. O fenómeno é verdadeiramente preocupante. Em julho deste ano, uma sondagem realizada pela Aximage avaliou a opinião de jovens a residir em Portugal. Revelou que mais de metade admitia emigrar. Além destes números, pouco se tem falado da imigração de artistas internacionais para Portugal. Trago à luz o caso especial de Michael Biberstein.
O artista nasceu em Solothum, na Suíça, estudou História da Arte no Swarthmore College no estado norte-americano da Pensilvânia. Aprendeu com o escritor, curador e crítico de arte britânico David Sylvester, que o desafiou a criar obras de arte continuando a sua sede de questionamentos e, no país das oportunidades, encontrou-se com as obras deixadas pelo artista Mark Rothko.
Ora, ao longo da sua vida, David Sylvester trabalhou com afinco as obras de René Magritte, Henry Moore e Francis Bacon. Interessa-me sobretudo que tenha escrito cinco catálogos raisonné do artista surrealista belga René Magritte. Quem não se recorda da expressão Ceci n’est pas une Pipe (Isto não é um Cachimbo) que marcou a obra La trahison des images, em 1929? Não era um cachimbo, era a imagem de um cachimbo. Dois anos antes, em 1927, também Magritte se mudou para Paris, centro artístico em ebulição, onde conheceu André Breton, Paul Éluard e Marcel Duchamp. Ficaram amigos durante o período em que mantinha um contrato de trabalho com a Galerie la Centaure, em Paris. Depois, quando cessou o contrato, foi obrigado a regressar a Bruxelas. Estudando mais a fundo a vida de René Magritte ficamos a saber que se assumia como agnóstico, mas contemplava o espiritual.
Mark Rothko, por sua vez, foi um pintor nascido em Dvinsk (anteriormente parte do que se denominou Império Russo, hoje Letónia). A sua família judia emigrou para Portland, no Oregon (EUA), devido à opressão antissemita e à violência cossaca. O seu navio a vapor atracou em Ellis Island, sem passaportes. Mais tarde recebeu uma bolsa para o primeiro ano em Yale. No entanto, não termina os seus estudos. O artista mudou-se para Nova Iorque e aí viveu grande parte da sua vida, nos Estados Unidos da América.
Rothko experimentou temáticas surrealistas para expressar as tragédias da Segunda Guerra Mundial que lhe chegavam aos ouvidos, foi um notável artista do movimento AbEx (Expressionismo Abstrato). No final da década de 1940 começa a pintar telas com regiões de cor em formas retangulares. Esta torna-se a sua linguagem na tela. Ainda me recordo da primeira vez que me falaram destas obras. Se olharem atentamente podem ter rasgos de diversas camadas do solo. Há quem fale em ver a representação do corpo de Jesus Cristo. Além de ter contribuído para a instalação de 14 obras na Capela de Rothko em Houston, no Texas, a sua obra marca pela espiritualidade.
Falando de Biberstein – com dupla nacionalidade suíça e americana, devido à origem do seu pai e da sua mãe –, no último ano da década de 1970 mudou-se para Portugal definitivamente, onde passou mais de três décadas da sua vida. Casado com Ana Nobre de Gusmão, viveu no Penedo em Sintra e no Alandroal, no Alentejo. Preocupou-se sobretudo com espaços sagrados, com a sua arquitetura e com a paisagística. Provocava através da contemplação. Desenvolveu gigantescas obras abstratas em tons negros e cinzas. O espacial interessava-lhe, sobretudo. Tomou parte em exposições, primeiro na Galeria Módulo, em 1979, posteriormente no Museu Nacional de Arte Antiga e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.
Fica-nos na memória mais recente a obra especial que deixou inacabada na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa. Já tinha pintado outro teto de um pequeno castelo na Suíça, mas a paisagem do teto desta igreja tornou-se no trabalho da sua vida, depois do artista ter apresentado a exposição Works on Paper na Appleton Square. Projetou o céu de Campo de Ourique, cuja maquete desenhada pelo artista ainda vibra. A abóbada de 800 m2 foi pintada a várias mãos que deram corpo ao seu manifesto. O artista dizia-se em profunda relação com o espiritual, agnóstico. Os movimentos são pura dança. Os tons azuis lembram gotas de água a cair de nuvens passageiras, os tons ocres aquecem o espaço deixando entrar a luz da estrela solar, e os remoinhos a negro impõem respeito, abrem uma fissura que deixa em aberto um céu que se abre a uma comunidade.
Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.









