
“Os iates e os jatos, os carrões e as piscinas, as mesas de snooker e os restaurantes Michelin, as Maldivas e as Bahamas, os solários e os personal trainers. A felicidade apresenta-se-nos como a maçã do pecado capital.” Foto: Frimufilms / Freepik
O Artur olhou para o iate e sonhou alto. Sonhar alto tem tanto de cenoura à frente do burro como de absurdo. Sonho e imaginação serão a mesma coisa?
É importante dizer que o Artur é um rapaz de apenas 18 anos, detesta a escola (e por isso desistiu dela tão cedo). Ama a pesca e percebe do mar, dos barcos e dos peixes. Vínhamos na lancha do trabalho a entrar pela barra da marina, quando as luzes embutidas do iate – um azul contínuo, esvoaçante e degradê – nos chamaram a atenção. Foi então que ele não se conteve e saiu-lhe, pela boca imatura, a frase feita: ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade.
– Artur, como é que sabes que aquela malta é mais feliz do que tu? – Provoquei-o.
– Então não se vê logo?! Olha p’aquilo. Até piscina e mesa de snooker os gajos têm ali.
– A felicidade, para ti, é uma piscina e uma mesa de snooker?
– Ah, ‘tá bem, Sofia. ‘Tá bem. Tu e as tuas teorias.
Rimo-nos. Conhecemo-nos o suficiente.
No dia seguinte eu levei uma mesinha de snooker, daquelas que os miúdos ganham no Natal e cabem dentro de uma caixa de papelão, quase do tamanho de um tabuleiro de xadrez, e assim que entrámos na lancha para ir trabalhar, abri-a.
– Vá, Artur… ´Bora lá ser felizes.
Arrumei a mesinha nos bancos do barco e, à primeira vaga, esta voou para o chão.
– Estás a ver que a felicidade dos pobres dura pouco? – Disse o Artur com a altivez dos vencedores. O último a provocar, provoca melhor.
Aninhámo-nos como sempre e todos os dias: casaco corta-vento, capuz e colete de salvação. A meia hora entre a marina e a praia deserta onde trabalhamos é sem palavras, só o sopro do vento em mar alto nos chega aos ouvidos. Encolhemo-nos, cada um para seu lado, a ver quem se molha menos. O frio. Os baques da lancha na água ao ritmo das vagas, por muito pequenos que sejam, exigem que nos concentremos no corpo para que nenhuma vértebra nos saia do lugar. Foi nesse silêncio assobiado, nesse frio molhado, nesse balançar de ossos que eu, enquanto olhava o mestre ao leme e o Artur a seu lado, de contramestre, ia pensando nas fórmulas da felicidade em que se acredita na juventude. Aliás, em que se acredita pela vida fora seja em que fase for.
Os iates e os jatos, os carrões e as piscinas, as mesas de snooker e os restaurantes Michelin, as Maldivas e as Bahamas, os solários e os personal trainers. A felicidade apresenta-se-nos como a maçã do pecado capital. É o desejo que se confunde. Uma conta recheada é igual a felicidade incontornável. Ser rico é ser feliz e vice-versa.
Volto ao meu pensamento para tentar encontrar o plano B. Tem de haver um plano B para a possibilidade de momentos felizes, eu nunca vou ter uma conta recheada e sei-o desde cedo. Não priorizo o trabalho nem o material. Trabalho menos do que 98% das pessoas no mundo. Não tenho, nem nunca tive, um salário fixo. Nunca passei um cheque. Nunca fiz um empréstimo. Nunca paguei nada a prestações. Nunca serei rica. Na lista dos meus objetivos pessoais, ser rica está lá para o vigésimo lugar, não dá tempo de lá chegar. Estou nos quarentas, já.
A lancha batia feroz contra a ondulação, quatro/cinco nós são velocidade suficiente para desmanchar a coluna, os salpicos batem-nos com mais força do que chuva zangada e o vento gela-nos tudo o que é corpo em mar-alto por muito calor que faça em terra.
E eu virada para dentro, a viajar na resposta que daria ao Artur, se daria, porque o Artur é o mundo inteiro e o mundo inteiro quer ser feliz e a felicidade é a matéria inalcançável.
E eu a perguntar-me: para que serve a imaginação? E eu a responder-me: para ser rico. Eheh…Eureka!!
Se imaginarmos que somos felizes, então somos felizes.
Cheguei à praia, desembarcámos. Enquanto a tripulação descarregava a lancha, eu tirei o corta-vento, o colete e o capuz, fiquei de biquíni a aproveitar o sol que irradiava uns esplêndidos 37º; imaginei que estava nas Maldivas, numa ilha deserta com três ou quatro amigos que preparavam a nossa festa privada – bebidas, churrasco, música com DJ.
Depois, quando o catamarã chegou com os 120 clientes, imaginei que eram os nossos convidados VIP e recebi-os sorrindo e distribuindo bebida.
A noite foi escurecendo a praia para dar protagonismo às velas espalhadas pelo areal e imaginei o mais romântico dos jantares, para todos.
De seguida preparei o meu show – que, na verdade, é a minha única função real, ali – e imaginei que me estava a apresentar no Cirque Du Soleil, com orquestra ao vivo e tudo (é fácil, fecha-se os olhos e vê-se para dentro), e aquelas 120 pessoas eram a plateia esgotada do Soleil (morta de entusiasmo para me ver e aplaudir de pé).
Terminados os aplausos, mergulhei nas águas salgadas a imaginar temperaturas excepcionais. Fingi que o meu biquíni da Primark era Chanel (a Chanel também tem biquínis??).
Quando regressámos à marina, novamente a lancha surda, fria e bruta a magoar os corpos, e eu a fingir que estava na sacada de um Iate, por opção própria mesmo, só para sentir o vento nos olhos e meditar; melhor dizendo, imaginar. Ao fim de três meses a trabalhar na tripulação da lancha, já sei de cor as estrelas. Saber de cor as estrelas é ser rico, faz de conta que as comprámos por encomenda só para o nosso céu (quanto custará uma estrela? E uma constelação permanente?).
Já na marina, subi pelo elevador rumo ao estacionamento a imaginar que era um teleférico no resort das Maldivas. Entrei no meu Ford Escort de 1990 a imaginar que era um Ferrari vintage (há Ferraris Vintage? ou será melhor imaginar um Lamborghini?) herdado do meu avô, que havia sido príncipe (Ou um galã dos inícios de Hollywood?).
Quando cheguei a casa – que é como quem diz, à roulotte – imaginei que era a minha habitação rural de fins de semana.
É como diz o Chico Buarque em Construção. O importante é comer feijão com arroz como se se fosse príncipe.
De tanto imaginar, nessa noite sonhei que me tinha tornado a realidade do que imaginara. À minha volta, todos os amores eram falsos e eu percebi que não podia pagar esse preço. O preço a pagar para se ser rico é a felicidade. Digo eu, que já não sei nada; pois não sou rica nem feliz.
(Acho que o Artur sabe da vida bem mais do que eu, afinal sabe navegar ao leme, apanha robalos de 20 quilos – palavra de honra, sou testemunha – e sabe para que lado o vento há de soprar logo à noite – sem ir ao windguru, palavra de honra).
Palavra de honra que acordei com espasmos de alívio, e agradeci a realidade. A imaginação é como o jogo do Super Mário, a gente pode morrer que ainda nos sobram vidas. Imaginar é melhor que viver, a gente pode fugir dela – da imaginação – sempre que não puder pagar o seu preço.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.








