As 79 regras de limpeza e distância para voltar a haver missa (e outra ministra a contrariar os bispos)

| 9 Mai 20

O patriarca de Lisboa, sozinho, na Sé de Lisboa, momentos antes da celebração da Vigília Pascal deste ano, em Abril: as missas regressam, mas as igrejas continuarão muito vazias. Foto © Patriarcado de Lisboa.

 

Máscara obrigatória, higienização, distância entre as pessoas, substituição de gestos que poderiam provocar contágio. Os bispos publicaram as orientações para o regresso das celebrações comunitárias. Dizem que as romarias continuam suspensas até nova decisão, mas a ministra da Cultura afirmou que pode haver algumas a realizar-se. No Funchal, as missas voltam já neste sábado, 9, decidiu o bispo.

 

São 79 regras para 13 diferentes tipos de actos de culto, celebrações, rituais ou actividades eclesiais. A Conferência Episcopal Portuguesa publicou nesta sexta-feira um documento com orientações “para a celebração do culto público católico no contexto da pandemia” de covid-19, tendo em conta a possibilidade anunciada do regresso das celebrações comunitárias no próximo dia 30.

A celebração da eucaristia é a parte mais importante do documento, com 32 itens. Máscara obrigatória para toda a gente, desinfecção de espaços, pessoas e objectos de culto, distanciamento entre os participantes com quatro metros quadrados para cada pessoa são algumas das condicionantes mais importantes referidas no texto.

Vários rituais litúrgicos não só da missa mas também de outros sacramentos como o baptismo ou a ordenação de padres são também alterados, de modo a evitar os gestos que implicavam contacto físico (bênção, unção com óleo sagrado, abraço da paz, etc…)

“Na parte que lhe cabe, a Igreja tem a grave responsabilidade de prevenir o contágio da enfermidade, em coordenação com as legítimas autoridades governativas e de saúde”, diz o documento, justificando a necessidade destas medidas e a adesão da liderança da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ao essencial das recomendações do Governo e das autoridades sanitárias.

A CEP coloca também a responsabilidade em cada uma das pessoas, convidando “todos os fiéis a fazerem por si próprios todos os possíveis para limitar esta pandemia”, em nome “da caridade fraterna”.

Da leitura das regras, infere-se que cada paróquia ou lugar de culto terá de ter uma organização eficaz e cuidada, exigindo equipas de acolhimento, disponibilização de produtos desinfectante, o eventual desdobramento das missas ou celebrações, a criação de percursos diferenciados para entrada e saída ou, ainda, a possibilidade de celebrações ao ar livre.

Uma das primeiras recomendações é que quem esteja doente ou pertença a grupos de risco não vá à missa. Não se devem distribuir folhas de cânticos ou qualquer outro objecto ou papel. A recolha das ofertas será feita não no momento do ofertório, a meio da missa, mas à saída. Mantém-se a suspensão do gesto da paz, mas a comunhão sofre alterações: ela será distribuída por ministros que têm de usar máscara, em silêncio e apenas na mão.

No final da missa, as pessoas não se devem aglomerar diante da igreja, esta deve ser arejada durante meia hora e todos os objectos e pontos de contacto “devem ser cuidadosamente desinfectados”.

 

Bispos contrariam (outra) ministra

A lista inclui ainda orientações específicas para os restantes sacramentos: baptismo, (primeira) comunhão, confirmação ou crisma, reconciliação (ou confissão), unção dos doentes, ordenações e matrimónios. Também a celebração das exéquias, as visitas às igrejas para rezar e ainda os rituais de iniciação cristã de adultos (preparação de pessoas maiores de idade para o baptismo) ou as acções formativas ou encontros ficam sujeitos a limitações de gestos, rituais, medidas de protecção e distanciamento.

No geral, as regras que se aplicam à celebração da eucaristia são também aplicadas nestes casos, acrescentado depois a alteração de gestos ou rituais próprios de cada uma dessas celebrações ou iniciativas.

Já no capítulo das peregrinações e romarias, a orientação dos bispos promete voltara trazer polémica ou debate público, com a aproximação do Verão. O documento afirma: “Peregrinações, procissões, festas, romarias, concentrações religiosas, acampamentos e outras atividades similares em grandes grupos, passíveis de forte propagação da epidemia, continuam suspensas até novas orientações.”

Horas antes da divulgação documento dos bispos, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, admitiu a possibilidade de algumas festas e romarias se poderem realizar, dependendo do cumprimento de determinadas regras.

Em entrevista ao programa Você na TV, da TVI., Graça Fonseca afirmou, citada pelo Expresso: “Nós vamos definir com a DGS [Direcção-Geral da Saúde] quais são as regras que podem ser definidas. E se cumprirem essas regras quais [festas e romarias] é que se podem realizar.”

Já no sábado à noite, em entrevista à SIC, a ministra da Saúde, Marta Temido, provocou uma pequena-grande confusão quando admitiu a possibilidade da realização da peregrinação de 13 de Maio, em Fátima, desde que salvaguardadas medidas de segurança e distanciamento. O cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, teve de vir, no domingo, confirmar que se mantinha a realização da peregrinação sem fiéis, como tinha sido antes anunciado.

Já na quinta à noite, um despacho conjunto da própria ministra da Saúde e do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, “confirmou” a realização da peregrinação da peregrinação na forma que tinha sido anunciada pelo bispo.

Com a quantidade de festas e romarias que se realizam habitualmente no Verão, é de prever que muitos aproveitem a abertura da ministra da Cultura para tentar concretizar aquilo que os bispos dizem que continua suspenso até novas orientações.

 

Funchal avança já neste fim-de-semana

Funchal. Sé. Madeira

Sé do Funchal. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Quem não esperou pelo dia 30 foi o bispo do Funchal, Nuno Brás, e já neste sábado, 9 de Maio, a celebração das missas regressa à região autónoma da Madeira. Depois de ter dialogado com o Governo Regional, a decisão foi anunciada na sexta-feira para entrar em vigor no dia seguinte.

A Madeira registou, até esta sexta-feira, 8 de Maio, 90 casos de covid-19, mas não há registo de qualquer óbito.

Numa nota publicada na página da diocese na internet, o bispo do Funchal diz que as condicionantes que entram em vigor são “o possível” para os tempos mais próximos.

Entre as indicações específicas que dá, Nuno Brás sugere que as missas não ultrapassem os 40 minutos e que apenas um terço dos lugares disponíveis em cada espaço sejam ocupados. A infracção das regras, adverte, pode ser razão para regressar à “proibição de todas as celebrações públicas”.

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