Ensaio

As armas vistas através do poliedro da guerra

| 9 Abr 2022

A explosão atómica Baker, no quadro da Operação Crossroads, série de ensaios nucleares organizados pelos EUA nas Ilhas Marshall, em 25 de Julho de 1946. Foto: United States Department of Defense, tratada digitalmente. Public domain, via Wikimedia Commons

A explosão atómica Baker, no quadro da Operação Crossroads, série de ensaios nucleares organizados pelos EUA nas Ilhas Marshall, em 25 de Julho de 1946. Foto: United States Department of Defense, tratada digitalmente. Public domain, via Wikimedia Commons

 

Vem esta reflexão no contexto do desenvolvimento da Guerra da Ucrânia, mas não seria errado dizer que ela poderia e deveria ser feita a todo o tempo, uma vez que a situação de guerra tem vindo a ser uma permanência mundial. Se por vezes dizemos que estamos há várias décadas sem guerra isso só pode ser uma consequência da nossa inconsciente miopia ou/e astigmatismo, que nos impedem de ver para além do horizonte imediato. Por exemplo, depois da II Grande Guerra, uma guerra mundial, raros foram os anos em que não existiram situações de guerra em um ou outro ponto do globo.

A falta de visão é promovida e dá jeito aos que incendeiam e lucram com as guerras. Perguntar-nos-emos porque é que causando a guerra tanto sofrimento, tanta destruição, tantos traumas, tanta infelicidade, tanta destruição de vidas humanas, mesmo assim os seus responsáveis são cada vez mais corpulentos, multiplicando-se com a capa protectora dos estados e de múltiplas organizações nacionais e internacionais? A resposta é mais simples do que se poderia pensar: as guerras são fonte de benefícios e de apropriação de recursos infindáveis e fáceis por um número muito reduzido dos seus encapotados actores; são, também, por isso, mecanismos geradores de desigualdades e de pobreza.

Tentemos compreender algumas das razões que justificam porque é que, sob a forma de fogo declarado ou de lume brando, a guerra permanece sempre activa. Para as compreender, um bom método pode ser o de identificar os ingredientes que lhe andam associados e que permitem que, através de um ou vários deles, se desencadeie uma guerra. Como em qualquer boa receita de culinária são múltiplos os ingredientes que permitem fazer a guerra, mas podemos identificar como mais comuns: os recursos presentes ou futuros de um território, as acessibilidades que o território disponibiliza ou potencia, a concepção de áreas de influência que territórios vizinhos pretendem manter, o imenso mercado de reconstrução que se cria após o fim da guerra, o domínio e tensões religiosas entre igrejas, a necessidade permanente que os complexos militar-industriais têm de alimentar clientelas, produzindo armas, etc, etc. São ingredientes que mantêm forte interdependência e que se potenciam mutuamente. Nenhum deles é suficiente só por si.

Procurando introduzir uma maior clareza na compreensão das interdependências dos ingredientes introduzirei, seguidamente, a imagem de um poliedro não regular, em que cada uma das faces representa um dos ingredientes.

poliedro, geometria

No poliedro existem polígonos (ingredientes) com formatos variados (porque os ingredientes também se diferenciam uns dos outros), mas fortemente ligados entre si, formando um sólido compacto que designaremos por bloco da guerra. Em cada caso, a guerra inicia-se porque se incendeia um ou vários blocos que arrastam a mobilização de alguns dos outros. Sempre que tal acontece, o poliedro como que se densifica na sua estrutura interna dando, desse modo, maior vitalidade à guerra e à sua capacidade de produzir os resultados desejados. Bem sabemos que em todas as guerras há os vencedores e os vencidos, mas sabemos, também, que há alguns, poucos, que ganham sempre. E esses são os donos da indústria das armas.

Em cada território escolhido para poder acolher uma guerra potencial, os ingredientes não se apresentam com idêntica importância ganham com a guerra procuram manter em lume brando os que consideram como mais rentáveis, para acenderem o fósforo quando e onde se lhes oferecer mais adequado.

Não é fácil, nem porventura vantajoso, para a compreensão do fenómeno da guerra, analisar uma situação em que se admite que todos os ingredientes se movem simultaneamente. Como é comum em muitas outras áreas de análise vamos supor que, inicialmente, apenas um dos ingredientes se altera procurando avaliar, seguidamente, como arrasta os restantes.

Um dos ingredientes presentes em todas as áreas de potencial conflito é o do complexo militar industrial. De que se trata? A conceptualização do complexo militar industrial deve-se a Eisenhower durante ao seu discurso de despedida como Presidente dos EUA. Trata-se de uma construção estratégica que envolve os governos, as forças armadas e a indústria de produção de armamento em que a intervenção de cada um destes actores tem como resultado a produção de estrondosos benefícios para os acionistas da indústria. Uma construção gráfica simples (também designada como triângulo de ferro) ajuda a compreender do que é que estamos a falar.

O objectivo final da existência do complexo militar industrial é o da produção de armas que funcionem eficientemente, isto é, que no campo de batalha, permitam obter benefícios superiores aos custos envolvidos com a sua produção e distribuição. A indústria produz, as forças armadas utilizam e os governos tutelam e têm necessidade de tutelar porque no campo de batalha está em jogo o prestígio nacional de cada um dos países envolvidos. A interdependência entre os vários actores é total.

Importa colocar, agora, a questão de saber quem paga os custos da produção de armamento pela indústria. Não são, certa e exclusivamente, os acionistas da indústria, porque estes são apenas os organizadores da produção, embora participem na arquitectura dos processos de financiamento. Os governos (i.e., os cidadãos) são os grandes financiadores, embora se possam vir a ressarcir junto de estados cujos territórios constituem o teatro da guerra.

Os financiamentos que mantêm o funcionamento do complexo são permanentes, mas são objecto de linhas de financiamento extraordinário quando se perspectiva um conflito. Nestas circunstâncias é necessário realizar fortes investimentos, nomeadamente em investigação cujos resultados são, à partida, incertos.

No entanto, o processo de decisão do investimento é completamente diferente do que se verifica nos restantes sectores da indústria. Qualquer processo de investimento na indústria não militar é objecto de maturação aturada e só depois se tomam decisões. Na indústria militar o custo do investimento não tem a mesma relevância porque, face à perspectiva da guerra, importa avançar depressa e com força.

Argumenta-se, com frequência, com a importância da indústria militar e de produção de armamentos como fonte de progresso económico e social, uma vez que se diz serem numerosas as inovações que tendo surgido no âmbito militar, vêm trazer benefícios substanciais para as populações em vários domínios: saúde, aeronáutica, comunicações, aeroespacial, electrónica ou equipamentos quer sejam da indústria, dos serviços ou domésticos, etc.

Este argumento é fortemente falacioso. Em primeiro lugar, quando se invoca o benefício das populações ignora-se toda a espécie de flagelos provocados nas populações dos territórios da guerra. Depois, esquece-se que se a facilidade com que realizam financiamentos na indústria militar fosse transferida para a indústria civil, os benefícios para a população em geral seriam muito mais abrangentes, do que quando são feitos na indústria militar.

Voltemos ao nosso poliedro para, de novo, focarmos a dimensão das interdependências. Partindo das necessidades do complexo militar industrial estes só podem manter-se em actividade se possuírem clientes. Para que tal possa acontecer todos os serviços secretos e de inteligência se mobilizam para manterem em lume brando potenciais territórios de guerra. Por isso e porque as exportações de armamento não podem ter descontinuidades frequentes, o que constatamos é que quando termina uma guerra não há um tempo demasiado longo entre esse fim e o desencadear de outra.

Basta que se transforme o lume brando em lume vivo, através do espicaçar de tensões religiosas, tribais, reivindicação de direitos e áreas de influência sobre recursos, etc., etc.

O dual do poliedro são sempre as populações, os seres humanos. Os que deveriam ser os destinatários activos e imediatos de toda a actividade económica e social são, afinal, remetidos para o papel de última instância, de carne para canhão, de instrumento desprezível.

Com esta argumentação em torno do poliedro quer-se dizer que as forças que no seu interior se desenvolvem são impenetráveis? Estou longe de o pensar. O poliedro está rodeado de múltiplas circunstâncias em que pode ser perfurado. Basta para isso que se mantenha activa e mobilizada a força da cidadania que, como sabemos através de múltiplos exemplos do passado, é o principal sustentáculo de todas as grandes conquistas da humanidade.

 

Manuel Brandão Alves é professor catedrático (aposentado) do ISEG, Universidade de Lisboa.

 

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