Alejandro Casona escreveu e levou à cena, pela primeira vez, no dia 1 de Abril de 1949, em Buenos Aires, uma célebre peça de teatro sobre a ilusão e a realidade, Em As Árvores Morrem de Pé, considerada por muitos um hino à esperança e à resistência humana diante das adversidades, mostrou o poder da mentira que se diz por bem e por amor; o disfarce para a preservação da dignidade; a escolha entre manter uma quimera ou enfrentar uma verdade insuportável e tremendamente perturbadora.

Há pouco mais de duas semanas, inundada de notícias sobre a imprevisibilidade e a dureza da intempérie, lembrei-me desta obra e pensei que a resiliência humana é capaz de superar enormes contrariedades e obstáculos.
Percorri a autoestrada do Norte, passando por muitos lugares parcialmente destruídos; por muitas árvores tombadas sobre outras, vergadas pelo vento, mas ainda sem caírem; por muitas casas e armazéns sem telhados; por muitos corações aos quais não tive acesso, mas que, posso imaginar, que se encontram profundamente feridos. Trabalho de uma vida toda, perdido em algumas horas; impotência diante da natureza zangada ou apenas a reagir de uma forma que, para nós, portugueses, é nova ou, no mínimo, muito rara.
Nunca tinha visto algo assim e pus-me a pensar.
Quando as tempestades assolam um país ou uma região, deixando marcas profundas nas vidas de todos, é natural sentir medo, insegurança e desespero. A perda de bens materiais, a luta para proteger o que é importante, pode ser avassaladora, mas é precisamente nestes momentos que nos devemos lembrar que a nossa salutar perspetiva do amanhã, mais próximo ou mais distante, é fundamental para a estabilidade emocional que nos faz bem ter.
A esperança, muitas vezes confundida com expectativa, é a chave para uma relação saudável com esse tempo do tempo que ainda está por vir. Não se trata de esperar que as coisas voltem a ser como antes, mas sim de confiar que algo melhor pode surgir dos escombros e das cinzas. É a capacidade de ver as rachas e as fendas, nos edifícios e nas próprias almas, como oportunidades para criar algo novo e valioso, inspirando-nos na técnica japonesa que transforma os vasos partidos em obras de arte, evidenciando as feridas da peça, coladas por uma rezina feita com metal precioso, maioritariamente ouro, prata ou platina – o kintsuji.

“Quando as tempestades assolam um país ou uma região, deixando marcas profundas nas vidas de todos, é natural sentir medo, insegurança e desespero.” Foto © Margarida Cordo (através da janela da viatura)
Transformar as adversidades em oportunidades é quase um lugar comum que custa escutar, sobretudo por aqueles que se encontram ainda, ou encontraram, em situações que podemos considerar limite.
Isto de continuar a avançar, mesmo quando tudo parece perdido, é algo que se impõe, mas que não tem uma unidade de medida que lhe seja justa.
Independentemente do que sabemos teoricamente sobre intervenção neste tipo de crises, o coração de cada um tem uma linguagem própria para viver os sentimentos e as emoções que o atravessam diante de realidades similares.
É inegável a ajuda que se pode dar e a ajuda que se pode receber, mas, no fim de tudo, o que mais conta é a qualidade da saúde mental que se consegue preservar.
O ansiolitico chamado esperança, de que falo acima, não é a ausência de medo, mas sim a coragem de enfrentar o desconhecido. É a confiança de que, mesmo nas piores situações, há sempre uma saída, uma oportunidade para recomeçar. E é esta esperança que nos permite continuar a avançar, mesmo quando tudo parece perdido. É ela que mobiliza o melhor de cada um. Se o amanhã parece promissor, radica em nós o desejo de que chegue rapidamente, pois confiamos que nos trará coisas boas.
Escrever sobre a resiliência em momentos de catástrofe exige um equilíbrio delicado entre a crueza da perda e a insistência na confiança. O termo “resiliência” não é apenas “aguentar”, mas sim a capacidade de nos reorganizarmos enquanto o chão ainda treme.
Sem querer sair do texto literário, creio poder ser útil entrar um pouco no pedagógico, sintetizando algumas estratégias de intervenção na crise, neste caso, pós-Intempérie:
Começo pela aplicação de primeiros socorros psicológicos (PSP), já que, antes de qualquer terapia profunda, a prioridade é a estabilização:
- Escuta ativa, não intrusiva: Estar presente sem pressionar a pessoa a falar. Às vezes, o silêncio partilhado é mais curativo do que mil perguntas, observações, conselhos ou propostas de soluções mágicas;
- Validação de sentimentos: Evidenciar que o choque, a raiva e a dormência emocional são respostas normais a uma situação anormal e imprevista que deixa qualquer um sem se conseguir proteger.
O restabelecimento da autonomia (através de pequenas vitórias) é também fundamental, considerando que, quem perdeu tudo, sente que perdeu o controlo sobre a própria vida. É verdade que o fazemos erradamente, mas a nossa tendência é sentirmo-nos seguros porque (julgamos que) controlamos e não porque confiamos, que seria certo:
- Envolvimento nas decisões: Mesmo em abrigos temporários, é importante permitir que a pessoa escolha pequenas coisas (o que vestir ou como organizar o seu espaço provisório, por exemplo, ajuda a recuperar o sentido e a perspetivar-se como agente do seu existir nestas horas tão incómodas);
- Divisão de tarefas: Integrar os sobreviventes na organização da ajuda comunitária pode transformar o sentimento de “vítima” em “agente” de reconstrução e de cuidado, ativando a perceção de solidariedade, tão inspiradora e espontânea no ser humano.

O médico António Silva Graça, da comissão promotora da Jornada da Memória e da Esperança, e o reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira, plantam a Árvore da Esperança (uma oliveira) no Estádio Universitário de Lisboa. 24 de Outubro de 2021. Foto © Miguel Veiga
O foco nas necessidades instrumentais e na informação constitui outra pedra basilar, pois a ansiedade alimenta-se da incerteza:
- Informação clara e honesta: Combater rumores com dados reais sobre apoios, prazos e passos concretos a dar;
- Auxílio burocrático: Muitas vezes, a capacidade de resiliência é travada também pela perda de documentos de identificação. Apoiar na recuperação daqueles é um passo prático fundamental para a imprescindível (re)construção do sentimento de dignidade e de cidadania plena.
O fortalecimento da identidade e da memória ajuda a que, apesar do roubo de bens que a intempérie não poupou, a história de cada um permaneça:
- Espaços de partilha: Criar círculos de conversa ou uma espécie de grupos de entreajuda, onde as perdas podem integrar o luto coletivo, evitando o isolamento e a insuportabilidade da dor;
- Rituais de despedida: Se casas ou locais simbólicos foram destruídos, podem ser criados pequenos marcos ou rituais, o que, em alguns casos, ajuda a encerrar o capítulo do trauma e a direcionar a vida para um futuro mais promissor.
Quando as forças que não controlamos atravessam de forma impiedosa um quotidiano que parece dominado pela calma, podemos contribuir para que, enquanto humanos vergados, evidenciemos a capacidade de tratar as nossas raízes e de voltar a florescer. O exercício da resiliência é, pois, a única saída de um cenário em que a fragilidade pode ser punida com o silêncio que ensurdece e com o esquecimento que confirma o abandono.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt
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