Aos 12 anos, Fernanda deixou a sua aldeia e foi trabalhar como empregada doméstica numa casa em Lisboa. Era gente rica, conhecida na terra, e ela teve sorte: o patrão foi sempre muito correcto, nunca tentou abusar. Outras raparigas tiveram outras histórias – ela não. Casou naquela casa, quando estava a fazer vinte anos. Para começar a vida a dois, o casal alugou um apartamento e comprou móveis a crédito. Fernanda começou a trabalhar numa loja, o marido tinha emprego numa bomba de gasolina, mas nem mesmo com os dois salários conseguiam enfrentar todas as despesas.
Decidiram emigrar. Fernanda estava grávida, o marido partiu sozinho para Berlim. Meio ano mais tarde, Fernanda deixou a bebé com a avó, e partiu ao encontro do marido – era o ano de 1974. Ao entrar na casa que a empresa lhes arranjara para morar, teve um momento de desalento: “Minha rica casinha que deixei em Portugal!”, pensou ela, “Que estou eu aqui a fazer?”
Os emigrantes instalavam-se em casas das empresas que os contratavam. Viviam em apartamentos comunitários, três ou quatro casais por apartamento, um casal por quarto, com cozinha comum e a sanita nos patamares intermédios das escadas do edifício. Por sorte, não morava mais ninguém no apartamento que deram a Fernanda e ao marido. Mas tinha um aspecto miserável, com os cabos eléctricos pendurados pelas paredes, sem casa de banho, sem tanque para lavar a roupa. Fernanda sentia-se assustada naquele ambiente. Muita gente, muita promiscuidade. Comprou um balde, para não ter de sair do apartamento durante a noite.
Ao fim de uns meses, a empresa onde o marido trabalhava arranjou-lhes outro apartamento. Já lá morava outro casal, mas ao menos tinha quarto de banho. Trouxeram a filha para a Alemanha – tinha oito meses. Via-se aflita para lavar a roupa. Na Alemanha não havia tanques da roupa como em Portugal, só havia bacias grandes com tábuas. Ela lavava a roupa de joelhos, na banheira. Sabia lá que havia lavandarias e máquinas a funcionar com moedas!
À noite, quando os vizinhos alemães punham os seus móveis velhos no passeio, para o camião do lixo vir buscar, os portugueses saíam para a rua com lanternas na mão, e tentavam apanhar as melhores peças para a sua casa. Os estrangeiros mobilavam a casa com o lixo dos vizinhos.
O marido arranjou novo emprego, como auxiliar técnico num prédio em Wedding, e ela limpava as escadas. Por azar, esse bairro estava vedado a mais emigrantes. Fernanda passava o tempo a fugir à polícia, porque, para além de ainda não ter visto de trabalho, ela e a filha estavam proibidas de morar no bairro onde o marido agora vivia. Um alemão residente nesse prédio ajudou-os, inscrevendo-a como residente na casa dele. E o padre da missão católica ocupou-se pessoalmente do caso, e foi com ela à Polícia de Estrangeiros, alegando que era preciso reunir a família. Finalmente regularizaram a situação, e receberam autorização para toda a família viver na mesma casa.
Um encontro que mudou a vida

Salsichas e sardinhas, lado a lado: há encontros que mudam as vidas. Foto © Helena Araújo
Tinham pensado vir por cinco anos, e regressar depois a Portugal. Ao fim desse período ainda não tinham conseguido pagar os móveis que estavam em Portugal, não tinham conseguido ganhar o dinheiro necessário para regressar à pátria com desafogo. “Ou vamos agora, ou ficamos para sempre”, disseram – e ficaram.
Fernanda conseguiu finalmente um contrato de trabalho, um emprego a meio tempo na cantina da Siemens. Mas queria trabalhar mais. Uma alemã, que conhecera na creche da filha, arranjou-lhe um emprego de oito horas numa fábrica de óculos. Foram bons tempos. Entre 500 pessoas, ela era a única portuguesa, sentia-se muito bem no meio daqueles colegas, e aprendeu a falar alemão. Mas o muro caiu, e a fábrica foi encerrada. Começou um novo emprego, a fazer a limpeza nocturna de um banco, das 3 às 8 da manhã. Um trabalho duro. Uma amiga portuguesa arranjou-lhe algo mais leve: limpar o apartamento berlinense dos donos da empresa, que moravam noutra cidade. Nunca via os patrões, porque estes usavam a casa apenas aos fins-de-semana. Mas a senhora ficou curiosa, e mandou dizer que queria conhecer a pessoa que lhe andava a cuidar tão bem a casa, e que limpava até o interior dos armários.
Foi nesse encontro que a sua vida mudou. A patroa agradeceu a sua dedicação, e pediu-lhe para ser a responsável das limpezas na casa nova que iam comprar em Berlim-Spandau. Um palacete, com porteiro, jardineiro, cozinheira – e a Fernanda dedicada a manter a casa impecavelmente limpa. Os colegas são todos estrangeiros, e entendem-se em alemão. Se aprenderam com ela a cuidar bem da casa? “Não”, responde. “Se uma pessoa não tem o brio dentro de si, não há como lhe ensinar. Nem pelo exemplo.”
O patrão, bastante idoso, adoeceu. Cuidaram sempre dele, com toda a dedicação. Quando morreu, foi como se lhe morresse alguém da família.
Sente-se bem neste país, apesar de dizer que os alemães são muito frios. Se pede ajuda, ajudam, e tratam-na sempre bem. Se os convida para virem jantar a casa dela, vêm – mas não retribuem, não se aproximam muito. Fala com muitos, mas não conseguiu fazer amizade com nenhum. “Nós viemos viver para aqui”, diz ela, com alguma tristeza, “ajudámos, fizemos tudo o que foi preciso, mas não nos querem como amigos”.
Portuguesa em quase tudo, alemã na pontualidade

Um segmento do Muro de Berlim, fotografado em janeiro de 1990, dois meses depois do seu fim, com cruzes que registavam os nomes de pessoas mortas quando o tentavam atravessar: Fernanda ficou chocada com a divisão da Alemanha. Foto © Departamento de Defesa dos EUA/Wikimedia Commons
Também a chocou muito descobrir uma Alemanha dividida. Quando chegou a Berlim, em 1974, não fazia ideia nenhuma de como se vivia nesta cidade. Demorou muito tempo até ir visitar Berlim Leste. Foram os trabalhadores portugueses temporários, que a empresa deslocava de Frankfurt para trabalharem uns meses em Berlim, que lhes ensinaram. Ao fim-de-semana eles atravessavam a fronteira para “ir ver as raparigas do outro lado”. Compravam os bilhetes de comboio, e abalavam. Em finais dos anos 1970, Fernanda e o marido decidiram ir com uns amigos espreitar a Torre da Televisão, na Alexanderplatz. Alugaram um carro na República Federal da Alemanha e passaram a fronteira. O problema foi terem jornais ocidentais no carro. Foram interrogados durante duas horas, revistados da cabeça aos pés. A situação ficou ainda pior quando descobriram que eles tinham trocado dinheiro no Zoo, em vez de o fazer em Berlim Leste. Confiscaram os marcos de Leste que eles tinham, e deixaram-nos sair. Trocaram mais dinheiro, comeram uma salsicha que lhes soube mal e uma cerveja que lhes cheirava a urina – o almoço pior e mais caro da vida deles. Nunca mais voltaram a atravessar aquela fronteira.
Entretanto os dois filhos cresceram, e arranjaram um bom emprego. Tenciona reformar-se em breve, mas continuar a trabalhar algumas horas por semana – não se imagina a viver sem trabalhar. Ajuda outros portugueses que não falam bem alemão, vai com eles a médicos e a repartições. Ralha com eles, diz-lhes que têm de aprender alemão. Alguns respondem que vieram para a Alemanha para trabalhar e não para falar.
Fernanda e o marido não pensam voltar a Portugal. Para quê, afinal? Aqui têm melhores condições, os filhos e os amigos vivem aqui. A família em Portugal está a desaparecer, os amigos da aldeia há muito que se perderam de vista. Mesmo em Lisboa, não consegue ficar muito tempo. Ao fim de duas semanas, já está com saudades de Berlim. Mas quando está em Berlim continua a fazer tudo à maneira de Portugal. Excepto na pontualidade – aí, é alemã.
Helena Araújo vive e trabalha em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa.










