As bolachas de água e sal da Vizinha Rita

| 6 Jan 2024

 

A Vizinha Rita morreu e recebi a notícia nessa mesma noite quando estava já deitada. Por essa hora eu lia um texto genial do Três-Setes, livro de Eduardo Duarte, onde o protagonista é abordado pelos seus mortos numa noite assombrada.

Fiquei triste com a morte da Vizinha Rita, mas orgulhosa por ela ter resistido até aos seus 101 anos. Lembro-me de ser pequenina e ela me dar bolachas de água e sal às escondidas da minha avó. Quando éramos apanhadas no tráfico de bolachas de água e sal – as minhas preferidas até hoje – a Vizinha Rita piscava-me o olho e dizia à minha avó: “Oh mulher, deixa lá, é só uma”; mas não era, ela colava várias e dava-mas na mão, ao alto, para que não se notasse a pilha.

Lembro-me dos bolinhos que a Vizinha Rita fazia e que toda a gente adorava menos eu, eu gostava mesmo era das bolachas de água e sal; o problema não eram os bolos, eram – como sempre são – os meus gostos.

Lembro-me da Vizinha Rita à janela a olhar o mar como quem olha a mais comum das infinitudes.

Lembro-me de quando ia, muito cedo, à praia com a minha avó e ela vinha connosco; o termo a cheirar ao café que eu não podia beber, o pão e a manteiga na cesta de empreita pousada na rocha, a areia ainda gelada da noite que havia virado dia há pouco e o mar ao fundo, a maré vaza como quem ainda não despertou para se espreguiçar.

A Vizinha Rita traz-me à memória tempos de alegria, de humanidade – parece-me. O afecto que era respeitado, e sentido em jeito de orgulho, entre gerações distantes e distintas. A beleza de lhe apitar à campainha para entregar a roupa que a avó costurara, ela no postigo a trazer os bolinhos e as bolachas de água e sal.

Não nos despedimos, nunca nos despedimos uns dos outros porque a morte aparece sempre de surpresa.

Pousei o telemóvel na mesa de cabeceira depois da notificação que me deu a triste notícia, li o texto do Eduardo até ao final e depois voltei à página inicial para o ler de novo em seguida. Ouvia o Eduardo dentro da minha cabeça – tenho essa mania, ouvir as vozes dos autores quando leio os seus textos – e imaginava que a Vizinha Rita era um dos mortos daquele cenário. Apeteceu-me o medronho que a personagem bebia sem reservas, mas não costumo ter medronho em casa.

Daí a dias foi Natal, muito poucos dias – talvez três –, e fui levar uma torta à Teresa. Passei pela janela da Vizinha Rita e se ela ainda lá estivesse, seriam duas tortas por entregar e bolachas de água e sal para receber. Depois da morte da minha avó, a minha mãe continua a fazer as tortas que ela fazia para entregar às amigas em vésperas de Natal.

Nesse dia – não da entrega da torta à Teresa, mas no da morte da Vizinha Rita – não dormi até ser muito tarde. Andei pela casa com o texto do Eduardo a ecoar-me na alma e a imagem da Vizinha Rita na janela a olhar o mar com indiferença. O ano havia de virar em breve e eu fazia promessas sinceras para este 2024 que entra.

Não é dos outros que a gente se esquece, é de nós mesmos. Dei-me conta de que os últimos anos foram uma corrida para metas descabidas. Andei tão distraída com metas, compromissos e obrigações que me esqueci de comer bolachas de água e sal e olhar o mar com indiferença, que é como quem diz, que me esqueci de sentir a liberdade enraizada da infância.

Depois o relógio começava a aproximar-se dos números que haviam de trazer a manhã e sentei-me na secretária antes que a noite se esgotasse, peguei no caderno de apontamentos e rascunhei uma lista de coisas a fazer em 2024 que não queria esquecer no dia seguinte:

  • viver como as crianças
  • comer bolachas de água e sal
  • olhar o mar com indiferença
  • recusar tudo o que aceito por dinheiro ou pena
  • olhar para as pessoas, mas vê-las para além de apenas as olhar
  • etc

Nos eteceteras da lista que não vale a pena deixar aqui completa, está o item de escrever estas crónicas.

Não se pense que as escrevo porque me acho merecedora de ser lida, por me achar exemplo para qualquer coisa descabida, não há nada que abomine mais do que as pretensões humanas de se chegar a exemplo ou, como agora se diz, a coach.

Escrevo-as porque são a minha forma de me comunicar. Há dias, um outro jornal propôs-me escrever para lá, crónicas também. Quando lhes perguntei que temas queriam, responderam-me apenas que queriam coisas que me viessem do coração. E falando em pretensões, essa é a minha única, escrever coisas que me venham do coração e mais nada. As minhas bolachas de água e sal da atualidade são as mensagens dos leitores a dizer que gostam de as ler – as crónicas, não as bolachas, entenda-se.

Estes textos são para mim o que eram os bolinhos da Vizinha Rita, a torta da avó, o café no termo da Teresa às sete da manhã dos verões da infância que vivi com deleite.

Quanto às crónicas, mesmo que a minha filha não as perpetue depois da minha morte, elas aí permanecerão na memória de quem as lê.

Resta-me terminar dizendo que o coração que as escreve só sobrevive porque vocês as leem e porque há este jornal, o 7MARGENS, que as publica com a maior das generosidades.

Desejo-vos um ano cheio de coisas vindas do coração, cheio de livros como o Três-Setes, de memórias que valham a pena, de mortos que são nossos em salas escuras à noite e, já agora, de bolachas de água e sal com sabor a delitos ingénuos, humanos e carinhosos.

Bom ano a todos.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros Em Breve, Meu Amor e O Homem do Trator.

 

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