As borboletas voam de novo e a Brotéria quer cruzar cultura e fé no Bairro Alto

| 25 Jan 20

O que tem a ver esta colecção de borboletas e outros insectos, cecídeas, musgos e lepidópteros com um novo polo de cultura em Lisboa? E que revista é esta que lhe dá o nome? Os jesuítas abriram um novo centro cultural e já perceberemos porque é que estas borboletas, que não voam há mais de 100 anos, ajudarão agora noutros voos.

Exposição Todas as Coisas, no centro cultural Brotéria. Foto © António Marujo/7Margens

 

Pretendem fazer o que estão a fazer nestes três dias, desde quinta-feira, 23, até sábado, 25: “Abrir portas, receber pessoas, perceber que inquietações elas trazem e que respostas podemos dar.” O padre jesuíta Francisco Mota, 35 anos, director-geral da Brotéria, agora revista e centro cultural, caracteriza deste modo a ideia dos jesuítas para o novo polo dinamizador de cultura em pleno coração da noite e da boémia lisboeta, o Bairro Alto.

O centro está situado no antigo Palácio dos Condes de Tomar, onde funcionou até há poucos anos a Hemeroteca Municipal. Propriedade da Misericórdia de Lisboa, o edifício da Rua São Pedro de Alcântara, junto à Igreja de São Roque, foi totalmente reabilitado para albergar o novo centro, entregue à Companhia de Jesus por um período de 25 anos, com o compromisso de ali manter um programa de animação cultural.

“Como é que as inquietações das pessoas podem ser trabalhadas?” Essa é uma das perguntas e intenções do novo polo, diz ainda Francisco Mota ao 7MARGENS. Por isso, a preocupação dos jesuítas neste centro cultural deve ser “sempre de escuta: só depois é que poderemos ter respostas ou tentativas de resposta, não vale a pena inventar soluções para problemas que não existem”.

 

Todas as coisas que a Brotéria deu

Exposição Todas as Coisas, no centro cultural Brotéria. Foto © Rui Martins/SNPC

 

E o que fazem, então, borboletas e insectos vários, cecídeas e lepidópteros à entrada do novo polo cultural? A exposição “Todas as Coisas” é uma das iniciativas da abertura do centro Brotéria (a mostra é inaugurada neste sábado, às 18h30; o programa das restantes iniciativas está disponível na página da internet do centro cultural Brotéria).

E pretende fazer um pouco da história do significado cultural da Brotéria: fundada em 1902 pelo padre Joaquim da Silva Tavares (1866-1931) como publicação científica dedicada à Botânica e Ciências Naturais, atravessou diferentes fases até chegar à actual revista de “cristianismo e cultura” como define no subtítulo, desde há décadas aliada a uma importante biblioteca que, até Junho, ficará totalmente instalada no novo espaço.

O nome escolhido para a publicação prestava “justa homenagem” ao naturalista Félix de Avelar Brotero (1744-1828), botânico que deixara importante legado nas ciências naturais em Portugal. Joaquim Tavares, ele próprio, especializou-se no estudo das cecídias ou galhas, estruturas que se desenvolvem nas plantas para responder aos ataques de outros seres vivos, como explica Francisco Malta Romeiras, da Universidade de Lisboa, na folha de sala da exposição.

Joaquim Tavares dedicou a esse estudo três décadas da sua vida. Mas a colecção que, entretanto, reunira com espécies coligidas em Portugal, Espanha, Áustria, Brasil, Argentina e Moçambique, foi confiscada pelo Governo provisório da República, em 1910, e só recuperada em 1928.

Cândido de Azevedo Mendes (1874-1943), também padre jesuíta e outro dos fundadores da Brotéria, recolhia, entretanto, exemplares de lepidópteros, a designação da ordem de insectos que inclui borboletas e mariposas. Aconteceu-lhe o mesmo que ao seu colega, mas a colecção do padre Mendes acabou por ir parar à secção de zoologia do museu da Universidade de Coimbra, onde permanece. Em Espanha, onde o jesuíta se exilou após a instauração da República, reuniria nova colecção, também confiscada em 1932 com o advento republicano no país vizinho, mas depois devolvida.

O confisco foi ainda o destino inicial da colecção de musgos reunida pelo padre Afonso Luisier (1872-1957), jesuíta de origem suíça. Graças à intervenção do cônsul suíço em Portugal, parte da colecção foi recuperada em 1913 e o jesuíta publicaria estudos importantes sobre os musgos que juntara.

 

A revolução científica e os livros

Instalação de memória da Biblioteca da “Brotéria”, na exposição “Todas as Coisas”. Foto © Rui Martins/SNPC

 

Esta pequena mostra exemplifica, assim, “as origens da revolução científica” que a Brotéria significou no país, afirma o padre João Sarmento, 32 anos, um dos comissários da exposição e membro da equipa responsável pela galeria do centro cultural. Este bloco faz também “uma clara referência ao Credo cristão”, acrescenta, na alusão indirecta à figura de um “Deus criador de todas as coisas – seja a natureza, sejam os livros”.

E a segunda parte da mostra é dedicada aos livros: uma instalação de restos de estantes traz a memória da biblioteca da Brotéria, até aqui situada num palacete do bairro da Lapa, em Lisboa, mas cuja localização e condições de instalação não permitiam um acesso fácil a eventuais investigadores. Esse facto altera-se com a mudança de sítio e a instalação construída para esta mostra, bem como as fotos do antigo espaço nas salas contíguas da galeria de entrada abrem também para esse horizonte.

A nova biblioteca terá 95 mil livros e mais 65 mil volumes de publicações periódicas de áreas como Filosofia, Teologia, Ciências Sociais, História e Literatura. Agora, ao contrário do que acontecia há 100 anos, as ciências naturais estão em menor peso, embora haja obras importantes no catálogo.

Para lá da biblioteca e da galeria de exposições temporárias, o novo espaço conta com salas de consulta e de trabalho, um auditório e uma cafetaria com esplanada exterior. Cada uma das salas foi baptizada com nomes de memórias de casas ou lugares jesuítas da cultura – Aula da Esfera, Casa de Escritores, Sala Homem Espuma, Brotéria-Genética…

 

Uma história diversa e a ruptura do novo modelo

Paisagem para Desaparecidos II (2018), obra de Rui Calçada Bastos no novo centro Brotéria. Foto © António Marujo/7Margens

 

Sendo, possivelmente, a mais antiga revista em Portugal editada com regularidade, a Brotéria foi sempre um dos meios privilegiados no debate cultural promovido pela Companhia de Jesus. Depois dos anos iniciais, a publicação afirmou-se no panorama cultural e científico português e chegou a ter séries diferentes dedicadas a temáticas como zoologia, botânica, genética, divulgação científica ou cultura.

Sofreu depois vicissitudes várias e teve de novo uma época de apogeu, quando foi dirigida pelo padre Manuel Antunes, entre 1965 e 1982. Nos primeiros nove anos da sua liderança, ainda sob a ditadura do Estado Novo, a Brotéria foi, a par de publicações como O Tempo e o Modo e Seara Nova, dos poucos lugares que proporcionava textos de análise cultural, filosófica, política e social com qualidade e olhares plurais.

Nessa década e meia da direcção antunesiana, o espaço de intervenção da revista alargou-se também a sectores intelectuais católicos contestatários do regime ou mesmo outros que estavam longe do catolicismo.

Há 20 anos, e depois da quebra pós-Manuel Antunes, a Brotéria renovou-se de novo, com a direcção entregue a Luís Archer, outro jesuíta cientista, desta vez da área da genética. Paulatinamente, a revista foi readquirindo um espaço no debate cultural, a que agora tenta dar novo impulso, com nova reformulação gráfica e editorial da revista e a criação do centro cultural que lhe fica associado.

Com uma apresentação gráfica que ao mesmo tempo lhe confere um tom mais clássico e mais legível, com uma capa de cor única (vermelho forte neste número), a nova Brotéria rompe com os modelos anteriores e passa a publicar fotos e a ter uma versão digital. Neste primeiro número de 2020, há textos sobre a questão premente da crise ambiental (da autoria de Viriato Soromenho-Marques), Luiz Pacheco e o “querer ser livre em português” (Nuno Malheiro Sarmento), uma leitura feminina do livro bíblico de Rute (Maria Luísa Ribeiro Ferreira, colaborada regular do 7MARGENS) as séries televisivas (Manuel Lencastre Cardoso), o descanso (Vasco Pinto de Magalhães), a descentralização (Cristina de Azevedo) ou o impasse na reforma do sistema eleitoral (Manuel Braga da Cruz).

 

“Aumentar os cabedais dos conhecimentos”

Centro cultural Brotéria, em Lisboa. Foto © António Marujo/7Margens

 

Num dos editoriais dos primeiros números, lia-se na Brotéria que esta nunca seria “uma revista popular no sentido rigoroso da palavra”, por se dirigir “às camadas sociais mais cultas”. Mas também acrescentava que “os intelectuais são hoje uma legião que, mais que nunca, investigam a verdade no campo religioso, procuram aumentar os cabedais dos seus conhecimentos científicos e literários, e se dedicam apaixonadamente à leitura”.

Mais de um século depois, o padre Francisco Mota admite que o contributo para o conhecimento deve continuar a ser um horizonte para a Brotéria na sua nova casa e nas diferentes roupagens. “É isso precisamente que queremos: que a discussão que se gera, por via da profundidade, contribua para o conhecimento.”

Já presentes naquela zona da cidade – a paróquia da Encarnação e a capelania da Igreja de São Roque estão entregues aos jesuítas – o que muda agora é “a escala e a visibilidade” dessa presença. Um horizonte tornado possível, além da parceria de várias entidades, com o protocolo estabelecido com a Misericórdia de Lisboa, que foi quem convidou os jesuítas para a animação do espaço, ainda no mandato do provedor Rui Cunha. A Santa Casa, diz o padre Francisco, está interessada em desenvolver uma dinâmica cultural na zona, que passa pelos polos da Igreja e Museu de São Roque, a colecção Capelo na Casa Ásia, os concertos e exposições e, agora, o polo Brotéria.

Neste sentido, a programação a desenvolver no centro será “dinâmica e permanente”, diz Francisco Mota. Entre a publicação da revista, a galeria de exposições, a biblioteca, os debates, concertos e outras propostas, o centro promete agitar o Bairro Alto e Lisboa. Para aumentar os cabedais dos conhecimentos e para que muitas borboletas possam voar.

Centro cultural Brotéria, em Lisboa. Foto © António Marujo/7Margens

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