No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo.
Os pensamentos divagaram. Seguiram outro curso. Entro no carro todos os dias depois de enviar a minha filha para a escola. E é a minha cápsula de privacidade. Sozinha outra vez, depois do trabalho, no regresso a casa. Sozinha alguns minutos por dia. Só alguns minutos. No radio não dá nada. Um silêncio maravilhoso. O silêncio é muito pouco valorizado, até temido, acho. Ou então dá a minha música de estar sozinha. Os muitos CD’s que vou colecionando. Um dia o radio vai avariar (anda a prometer) e fico sem um. Ficarei chateada, mas vale a pena o risco. Ney Matogrosso, Sigur Ros, Florence and the Machine, Cassia Eller, The Smashing Pumpkins, Franz Ferdinand, The Cure, Pixies, a garota não.
É a minha cápsula. E tenho direito a ela.
Se ando de transportes públicos não entro nessa cápsula. E aí gosto de estar profundamente presente. O meu olhar vai pousando nas pessoas. Observo sobretudo como se movimentam, como se aquietam ou se entretêm. As marcas no rosto e nas mãos. Faço, muitas vezes, o esforço de encontrar um traço belo. Penso nas histórias que essas pessoas possam trazer consigo. Tenho pena de ver tantas pessoas de cabeça baixa ao telemóvel. As pessoas de headphones completamente noutro mundo. Pode chegar, quem for, a precisar de um lugar ou de ajuda, que ninguém vê ou ouve. Cada um na sua cápsula.
E fico a pensar, qual será o razoável das nossas cápsulas. Qual o razoável lugar do nosso próprio espaço no mundo, que tem tantos outros? E os outros são variados, interessantes ou não, vale a pena ver, vale a pena conhecer. Quem sabe reconhecer-nos, no que é bom, no que é mau. Conversar, ouvir os pontos de vista de quem é tão diferente de nós. Mas também apenas estar. Voltamos ao silencio. Corpos sentados ou em pé. Quase encostados. Cansados? Esperançados? Corpos de gente, que é uma palavra que gosto, que nos torna todos mais simples e mais próximos.
Talvez seja bom abrir um pouco a cápsula, deixar entrar o vento, deixar sair o (nosso) som.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










