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As cartas de D. António Barroso…

As cartas de D. António Barroso…

by | 17 Nov 19 | Entre Margens, Newsletter diária - título, Últimas

António Barroso e o Vaticano, de Carlos A. Moreira de Azevedo (Edições Alethêia, 2019), revela 400 cartas inéditas, onde encontramos um retrato de corpo inteiro de uma das mais notáveis figuras da nossa história religiosa, que catalisa a rica densidade da sua época.

A figura de D. António Barroso (1854-1918) permite-nos entrar no cerne da ação missionária nos territórios coloniais portugueses, no período da mudança de regime da Monarquia para a República, abrangendo um momento importante de intensificação da vida pastoral das dioceses. Para compreender este percurso, temos de lembrar a história do Real Colégio das Missões Ultramarinas, instituição essencial no longo percurso da missionação católica e do Padroado Português.

Com o Seminário de Cernache do Bonjardim, devem lembrar-se os Seminários de Rachol (Goa) e de S. José (Macau). O Colégio das Missões foi criado em 1791 na regência do Príncipe D. João, que viria a ser D. João VI, tendo tido uma vida difícil em razão da implantação do regime liberal e da República.

Pode dizer-se que a figura de D. António Barroso marca decisivamente a abertura de horizontes novos no campo da missionação. Natural de Remelhe (Barcelos), onde nasceu em 1854, foi bispo prelado de Moçambique, bispo de S. Tomé de Meliapor (na costa Este da Índia, atual cidade de Chennai) – onde está viva a memória das primeiras comunidades cristãs da Índia, muito antes da chegada dos portugueses, sob a invocação do apóstolo S. Tomé.

António Barroso estudou no Seminário de Braga e dali foi transferido em 1873 para o Real Colégio das Missões Ultramarinas. É relevante a presença em Angola e no Congo, entre 1880 e 1888, e em Moçambique (1892-1895) e como ativo evangelizador em S. Tomé de Meliapor. É célebre o seu relatório sobre o Padroado de Portugal e ainda se lhe deve a renovação do Colégio da Missões, sendo precursor da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas, atualmente designada como Sociedade Missionária da Boa Nova.

António Ferreira Gomes não hesitou em designar António Barroso como “modelo de missionários”. Foi assim “continuador dos que acenderam no Oriente a luz do Evangelho e lançaram as sementes de uma civilização universalista”. E não esquecemos o que disse o Padre Américo: “Duro, tenaz, rebelde. Uma só cara. Não torceu nem quebrou. Só ele. Porém, a sua grande loucura está no amor dos pobres”. Enquanto para Raul Brandão: “o Bispo é uma grande figura de bondade. Dá tudo o que tem”.

Desde 1899, como bispo do Porto logo se afirma pelas suas excecionais qualidades humanas. Com a proclamação da República, os momentos iniciais são muito difíceis. Por exemplo, quando em 1911 é dada a conhecer a Pastoral do Episcopado Português em que se afirma o desacordo com alguma legislação da República, anima-se a luta anticlerical. Os governadores civis proíbem a leitura desse documento. O próprio bispo do Porto é detido e levado sob custódia a Lisboa, conhecendo o exílio em Remelhe, de onde regressa em 1914.

A história tem algo que se lhe diga, uma vez que o bispo procura encontrar as bases para a liberdade dos crentes. A evolução da República vai determinar a afirmação clara do exemplo de D. António Barroso, para além da circunstância política. E depressa houve quem compreendesse que o prelado tinha por si a autoridade moral do espírito evangélico. Pode dizer-se, assim, que o bispo do Porto D. António Barroso antecipou o novo tempo. A assistência religiosa durante a Guerra de 1914-18, o reconhecimento pelo Presidente António José de Almeida da necessidade da pacificação, a beatificação de Nuno Álvares Pereira, a orientação de Bento XV no sentido do ralliement (o fim da oposição dos católicos à forma republicana do governo), a progressiva autonomia da Igreja relativamente ao Estado – tudo contribuiu para a atenuação da questão religiosa.

Com a Lei da Separação de 1911, previu-se a reforma do Colégio das Missões Ultramarinas. Em 1913 foram criadas as missões laicas em África e Timor. De 1920 a 1926 foram enviadas dez missões laicas para Angola e quatro para Moçambique, sem os resultados pretendidos pelas autoridades civis. A obra agora publicada demonstra como D. António Barroso, falecido em 1918, foi um defensor ativo do espírito das missões na perspetiva que viria a ser consagrada pelo Papa Bento XV na Carta Apostólica Maximum illud (1919). E o exemplo de D. António permite compreender o sentido e atualidade da Carta de Bento XV: «Sê homem de Deus que anuncia Deus. Eu sou sempre uma missão, tu és sempre uma missão. Quem ama põe-se em movimento.»

O destino universal da salvação oferecido por Deus em Jesus Cristo levou o Papa Bento XV a exigir a superação de todo o fechamento nacionalista e etnocêntrico, de toda a mistura do anúncio do Evangelho com os interesses económicos e militares das potências coloniais. Assim o Papa lembrava que a universalidade divina da missão da Igreja exigia o abandono duma pertença exclusivista à própria pátria, à própria etnia…

Carlos Azevedo afirma, deste modo, que o bispo “era uma personalidade que sabia distinguir o amor à pátria do nacionalismo. (…) Ele não era nacionalista, porque um cristão não pode ser nacionalista, mas tinha amor à pátria e ele demonstrou que podemos ter um grande amor à pátria, mas querer que a pátria esteja ao serviço da humanidade toda e não apenas de nós próprios como está muito na onda, por exemplo, dos nossos dias.”

As cartas ora publicadas permitem entender, na sua plenitude, a importância do prelado, em contacto com a Santa Sé, profundamente consciente das dificuldades do seu tempo e da necessidade de corresponder-lhes com abertura e sentido evangélico, mas também inteligência e diplomacia, sem esquecer o respeito dos princípios e valores éticos fundamentais.

(Neste domingo, 17 de novembro, às 16h, os restos mortais de D. António Barroso serão trasladados do cemitério de Remelhe (Braga) para o interior da igreja paroquial, a fim de guardar a memória integral do venerável missionário.)

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