As circunstâncias fazem os grandes líderes. Cá estão elas.

| 31 Mar 20

Europa. Instituições da União Europeia

Foto © João Catarino Campos

Faço parte de uma geração que reclama grandes líderes. Não tenho muitas dúvidas que esta reclamação é de quem vive num certo conforto. Não tive um Churchill porque não passei por uma grande guerra. Não tive um Schuman porque não era vivo quando a Europa esteve em cacos. Não tive um Sá Carneiro, Freitas do Amaral ou Mário Soares porque não era vivo quando Portugal ainda só sonhava com uma Democracia plena e funcional.

Todas estas figuras que hoje são relativamente unânimes na sociedade são porque a distância temporal engradeceu justamente o legado, mas, sobretudo, porque a história encarregou-se de colocar decisões geracionais nas mãos daquelas pessoas. Não quero com isto dizer, como é óbvio, que qualquer pessoa podia ter estado naquelas posições e que hoje o mundo seria igual; de todo. Mas não só não há termo de comparação como a própria história de hoje é altamente condicionada pelos eventos de rutura como os que enumerei acima. Pensar sobre um outro mundo com outros protagonistas ou outras circunstâncias passadas é um exercício estéril.

Hoje, em 2020, o cenário mundial não parece dar azo a otimismos. Se, no passado, Obama foi peça-chave no xadrez global para a resolução da crise, hoje não parece que possamos contar com Donald Trump. Aliás, não só não podemos contar como temos de ter um olhar atento e suspeito sobre a Administração americana, como ficou demonstrado com a sua tentativa de monopolizar a potencial vacina que um laboratório alemão estaria a desenvolver. A sul, Bolsonaro alerta para o seu historial de atleta num comunicado oficial ao país que parece ter sido retirado de um vídeo de sátira humorística. Da China, chega-nos a visão de que há a oportunidade para Xi Jiping, agora, vir salvar o mundo. Depois da forma errática com que lidou com o início da pandemia, com o abafamento de informações e repressão a especialistas que denunciaram a tragédia que aí vinha.

Seja do ponto de vista das relações multilaterais, seja do ponto de vista económico, neste momento decisivo vem mais ao de cima a simbiose entre ambos e a Europa tem de dizer presente. Temos a melhor ciência, o melhor estado social, um peso comercial brutal e a visão mais desempoeirada do mundo livre, sem medo do futuro. Isto não é uma vantagem apenas para os romancistas ou para quem vive de discursos bonitos, é uma vantagem competitiva objetiva. Há muito tempo que a temos – hoje é mais notória pelo desleixo de outros blocos regionais – e quase nunca conseguimos “vender” a nossa narrativa que se suporta em factos.

No famoso discurso de Schuman em 1950, o ministro francês dizia-nos: “A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Far-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto.”

Hoje, numa realidade que chama por uma Europa que fale e aja a uma só voz, ela não se pode limitar a uma resposta económica coordenada para enfrentar uma crise que se avizinha. Isso parece-me o mínimo. Caso assim não seja, talvez percamos definitivamente a batalha para os nacionalistas ou outros senhores especialistas em respostas simples. É essencial discutirmos o tamanho da “bazuca”, as formas de apoio ao emprego e às pequenas e médias empresas, os instrumentos financeiros a utilizar e sob que moldes. E, no caminho, conseguir mostrar aos italianos, aos espanhóis e a todos os europeus que é a Europa que não só nos pode tirar da crise em que estamos, como é ela que pode colocar o Velho Continente numa liderança global nos mais diversos níveis.

Porque nesta disputa intergovernamental interna, que tantas vezes fez avançar a região como também, por vezes, a empatou, tem de haver a certeza de que todos os 27 ganham com a existência da União Europeia. Hoje, a margem de erro é menor do que aquela que existia em 2010.

Aprendamos com os erros do passado e percebamos que não há União Europeia sem o suporte popular. Aguardo o rasgo dos líderes de hoje. As circunstâncias chegaram. Para que daqui a uns anos possa contar aos meus netos como os líderes europeus responderam à crise de 2020 da mesma forma que ouvi dos meus pais os sucessos do 25 de abril ou da entrada na CEE.

 

João Catarino Campos é estudante de Economia no ISEG – Lisbon School of Economics and Management e vice-presidente da comissão executiva do Conselho Nacional de Debates Universitários. joaopccampos24@gmail.com

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