As Crianças de Gaza: Brincar nas Nuvens?

| 16 Dez 2023

Quem me dera que as crianças não morressem.
Desejo que elas pudessem ser temporariamente
erguidas nos céus
até que a guerra acabe.
Então regressariam a casa em segurança.
E quando os pais lhes perguntassem:
Onde é que vocês estiveram?

Elas respondessem:
Estivemos a brincar nas nuvens
[1]
(Ghassan Kanafani, poeta palestiniano, 1936-1972)

‘O poeta palestiniano Ghassan Kanafani, ao constatar o sofrimento das crianças, deseja que elas possam subir temporariamente ao céu para poderem sossegadamente “brincar nas nuvens”.’ Gravura: Freepik

 

No passado dia 20 de novembro festejou-se mais uma vez o Dia dos Direitos da Criança.  Em 20 de novembro de 1989, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança. Anteriormente as Nações Unidas haviam votado a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Em 1990, Portugal adoptou a Convenção sobre os Direitos da Criança. Entre nós, desde 1990, ambas – Declaração e Convenção – são comemoradas nesta data. Ao longo deste ano de 2023, o tema é “Para cada criança, todos os direitos”.

Infelizmente tantos direitos têm sido atropelados! O direito a brincar aparece como vital nesta Convenção. No entanto a guerra – qualquer guerra – impede as crianças de “brincar nas nuvens”, usando a metáfora de Ghassan Kanafani.  Para Miguel Torga o convite interpelador é:

Brinca instintivamente como um bicho!
Fura os olhos do tempo!
A saltar e a correr…
Desafronta o adulto que hás-de ser.

Winnicott afirmava que, quando uma criança está em situação de luto ou desprotegida, deixa de brincar. Deixar de brincar é um dos sintomas do seu sofrimento e depressão: em South Bronx, o pior gueto de Nova Iorque onde trabalhei, assisti e acompanhei a situação de uma criança de cinco anos de idade, cuja irmã tinha morrido depois de tratada violentamente por uma pessoa da sua família. Willie (nome fictício) deixou de conseguir brincar… Apenas guinchos e violência, expressão do seu medo.

Nas minhas funções de especialista em educação de infância e sob a orientação de uma terapeuta, ajudei a criança a voltar a brincar. Simulámos o enterro da sua irmãzinha de pouco mais de dois anos, as brincadeiras que faziam juntos… como ele a tinha ajudado a dar os primeiros passos, como ele a protegia… A certa altura, Willie segredou-me que tinha sido o pai a matar a irmã. Logo o tranquilizei. No entanto eu sabia que tinha sido um tio, acabado de chegar de Porto Rico e que consumira crack. Através de figuras simbólicas trabalhámos a constelação familiar. E os medos. Lentamente, Willie voltou a brincar.  E a rir sem guinchar. A consentir que eu o sentasse no meu colo.

O poeta palestiniano Ghassan Kanafani, ao constatar o sofrimento das crianças, deseja que elas possam subir temporariamente ao céu para poderem sossegadamente “brincar nas nuvens”. No entanto é cá em baixo, bem rente ao solo que pisamos, que as crianças têm o direito a brincar. De modo cruel esse direito é-lhes tirado. Quantas crianças na Palestina ou em Israel terão perdido a faculdade de brincar? Basta vermos as suas carinhas destroçadas nos ecrãs da televisão.

O número de crianças mortas em três semanas na Faixa de Gaza supera os valores anuais de todos os conflitos desde 2019, avançou a organização Save The Children. Desde 7 de outubro, mais de 3257 crianças morreram, incluindo 3195 em Gaza, 33 na Cisjordânia e 29 em Israel. O número de crianças mortas em apenas três semanas em Gaza é superior ao número de crianças mortas em zonas de conflito a nível mundial, em mais de 20 países, ao longo de um ano inteiro, nos últimos três anos.

“Nós não fizemos mal nenhum!” dizia, literalmente indignada, uma criança em Gaza (teria os seus 8 anos…): uma criança destruída pela guerra num lamento assertivo a que assisti praticamente em direto na televisão. Em pano de fundo todo um território em ruínas. Não vi ninguém a abraçar aquela criança, era uma criança sem proteção, uma criança experimentando o sofrimento mais absoluto. Um apelo desesperado: de partir o coração.

É a partir desta imagem televisiva que escrevo o meu texto, mesmo que não traga informação nova que acrescente alguma coisa ao que se tem dito. “Nós não fizemos mal nenhum!” Pungente.

Tinha esquecido para que serve
a infância.
Não é uma terra protetora
ao contrário do que dizem.
(José Tolentino Mendonça)

Gaza é o “lugar mais perigoso do mundo para se ser criança”, alerta-nos a UNICEF:
uma criança morre em Gaza de 15 em 15 minutos. Há dias assistimos quase em direto ao sofrimento de bebés nas incubadoras e que não resistiram à falta de eletricidade no hospital, morrendo antes de serem transferidas para outra unidade de saúde. Bases terroristas estão instaladas nos túneis dos hospitais. Que desespero conduzirá a uma tal situação? A Faixa de Gaza continua a ser bombardeada pela máquina de guerra israelita: “olho por olho, dente por dente”… As crianças em Gaza precisam desesperadamente de apoio para continuar vivas.

Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor,
Porque padecem assim?
(Augusto Gil)

Por outro lado, soubemos – ainda bem que não vimos diretamente nos ecrãs – que dezenas de crianças foram esquartejadas violentamente nos kibutz por milícias terroristas do Hamas. Uma inocente festa juvenil foi cruelmente interrompida. Tantas famílias à espera de informações! Dos dois lados ainda se não fez uma completa troca de reféns. O acesso a corredores humanitários é precário. Falta tudo: água, luz, alimentos, saneamento, unidades de saúde, medicamentos.

Segundo a UNICEF:
as crianças, os adolescentes e as famílias em Gaza foram privados do acesso a água, alimentos, medicamentos e outros bens essenciais, incluindo o acesso seguro a hospitais, na sequência da escalada das hostilidades. O tempo está a esgotar-se. Meninas e meninos estão morrendo num ritmo alarmante e vendo negados os seus direitos básicos. Mesmo as guerras têm regras. Os civis devem ser protegidos – especialmente as crianças e os adolescentes – e todos os esforços devem ser feitos para poupá-los em todas as circunstâncias.

Trouxe a este texto vários poemas ou fragmentos de poemas. A poesia permite-me exprimir de forma condensada e bela o fluxo de palavras que me vêm à mente. No poema canta-se a vida e a morte, a guerra e a paz. Cantam-se as crianças a brincar nas nuvens.

Em qualquer guerra, são as crianças que sofrem primeiro e aquelas que sofrem mais. Sim, Ghassan Kanafani, apesar de desejares que “elas pudessem ser temporariamente erguidas nos céus”, as crianças morrem, vítimas de guerras infernais: as crianças e jovens da Faixa de Gaza e os bebés e jovens israelitas.

Porque, como afirma o poeta Tolentino Mendonça:

O Mistério está todo na infância

(…) Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
(…)
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura.

Qual de nós é a sombra do outro? Para onde foi a luz que, em geral, emana de qualquer criança? Que fazemos face às suas caritas destroçadas?

Há dias estive numa vigília de oração preparando a COP 28. Uma das coisas que mais me cativou foi ver as crianças presentes – crianças cidadãs – a intervir nas atividades dos adultos. Não eram crianças vítimas, como as da Faixa de Gaza. Eram crianças que brincavam. Que ajudavam a tomar conta das mais novas. Intervinham. Luminosas. Brincavam, mas eram, simultaneamente, crianças-atores sociais.

Diz Manuela Ferreira:
No respeito pelos direitos de cidadania das crianças, reconhecer a sua voz é fundamental, mas ir mais longe obriga, ainda, a envolve-las, informá-las, consultá-las e ouvi-las naquilo que são decisões respeitantes a uma parcela importante das suas vidas, dando assim corpo a concepções das crianças como cidadãs no presente e não como futuros cidadãos.[2]

As crianças não são futuros cidadãos. São cidadãs hoje, aqui e agora. A Unicef insiste que mais de 70% das crianças deste mundo não são ouvidas. Porque não aprendemos a ouvi-las?

Estamos no Advento. Vem aí o Natal. Mais um Natal com guerras. Onde a Luz, “essa pequena luz bruxuleante”? (Jorge de Sena). Onde um futuro seguro para as crianças?

Continua Tolentino:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura.

Subimos uma escada íngreme. Tememos o futuro. Que futuro para as crianças de Gaza? “Tempos sombrios” estes, afirma Hannah Arendt. Que Deus suba connosco e com as crianças a escada íngreme. Que Deus lhes dê a mão:

Então regressariam a casa em segurança.
E quando os pais lhes perguntassem:
Onde é que vocês estiveram?
Elas respondessem:
Estivemos a brincar nas nuvens.

 

[1] I wish children wouldn’t die. / I wish they would be temporarily/elevated to the skies until/ the war ends. / Then they would return home safe,and when/ their parents would ask them: where were you? They would say:/ we were playing in the clouds. (Ghassan Kanafani)
[2] Citada em Vasconcelos, T. (2014). Tecendo tempos e andamentos na Educação de Infância: (Última Lição). Lisboa: Ed. Media XXI (p. 42).

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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