“As desculpas não se pedem, evitam-se!” A expressão não tem um autor conhecido. Trata-se de património oral de uma sociedade historicamente focada na disciplina e no cumprimento do dever. A lógica é muito simples: mais vale prevenir do que remediar. Contudo, sob uma aparente sabedoria popular, encontramos um ditado rígido que revela mais sobre a recusa em lidar com o erro do que sobre responsabilidade, funcionando esta expressão, em momentos de tensão, como um ponto final para qualquer tentativa de retratação.
Quem recorre a esta frase raramente o faz por má intenção, pretendendo apenas transmitir a ideia de que a prevenção é a forma máxima de consideração pelo outro. O princípio é nobre, o problema surge quando o erro, inerente à condição humana, acaba inevitavelmente por acontecer.
A ideia de que “as desculpas não se pedem” assenta num pressuposto perigoso: o de que é possível atravessar a vida sem falhar. Mas exigir a ausência total de erros promove a ansiedade e o perfecionismo tóxico, levando-nos a acreditar que pedir desculpa é inútil. E a reação natural deixa de ser um exercício de humildade para passar a ser o de esconder o erro ou o de culpabilizar os outros.
Vivemos numa era dominada pela cultura do hiperindividualismo e de uma autoimagem irrepreensível, e estes dois fatores remetem a vulnerabilidade de um pedido de desculpas a um estatuto de inaceitável fraqueza, conduzindo à proliferação de uma cegueira moral e de um analfabetismo relacional.
Deixamos de pedir desculpa porque, genuinamente, já assumimos que nunca erramos. Pior ainda, porque já nem sequer percebemos que erramos. E quando assim é, quando nos percecionamos como seres perfeitos, a empatia começa a atrofiar-se e, com ela, desaparece a noção de que um pedido de desculpa exige, efetivamente, coragem e maturidade emocional. O pedido de desculpa vai desaparecendo do vocabulário, e o reconhecimento do impacto das nossas ações no outro vai sendo apagado pela ilusão de uma infalibilidade pessoal.
As desculpas pedem-se, sim. Pedem-se porque somos imperfeitos, porque viver em sociedade exige saber reestruturar laços e porque reconhecer um erro é o primeiro passo para não o repetir.
Evitar danos desnecessários continuará a ser uma virtude essencial no convívio social. Sempre que for possível agir com cuidado, prevenção e respeito antecipado, devemos fazê-lo. No entanto, quando o erro ocorre — e vai ocorrer — não podemos ignorar que a frase feita, o lugar-comum, falha redondamente na resposta.
Talvez esteja na altura de jubilar este cliché do nosso vocabulário, pois a verdadeira maturidade não reside na ilusão de nunca errar, mas na capacidade de erguer a cabeça, olhar nos olhos e dizer: “Errei, peço desculpa”.
Para pensar
Enquanto adultos, mesmo sem percebermos, estamos constantemente a ser observados pelos mais novos, pelas crianças. Então, que testemunho estaremos a passar-lhes se lhes dissermos que não podem errar, para que não tenham de pedir desculpa? Como irão eles saber reagir se não lhes transmitirmos como o dano de um erro pode ser reparado? Não estaremos a educar para a culpa e para a vergonha? Não estaremos a inibir o seu espírito de iniciativa pelo medo de falhar e a estimular a mentira ou a culpabilização dos outros para esconder as próprias imperfeições?
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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