O filme de Almodóvar

As dores para dar à luz a verdade

| 11 Jan 22

Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar

 

Fique dito, desde já, que estamos perante um dos melhores e mais amadurecidos filmes de Almodóvar. Intenso como outros, magnificamente construído e filmado como é habitual, talvez mais profundamente moral do que muitos, Mães Paralelas é um filme tecido de segredos íntimos e dolorosos, à volta da maternidade, mas também da Guerra Civil espanhola. No centro, esplendorosa, está Penélope Cruz (Janis), fotógrafa, que se aproxima de Arturo, arqueólogo forense, que pertence a uma associação que investiga os crimes dos desaparecidos do franquismo, de quem ela espera a abertura da vala comum, na sua aldeia natal. Lá, para além do seu bisavô, estarão enterrados outros familiares de amigos daquela aldeia.

Mas ainda mais no centro, se assim se pode dizer, está o dilema moral de Janis que se debate entre a procura dessa verdade histórica e a verdade íntima e pessoal da sua vida. E as duas estão em contradição. Ela, que quer abrir a vala comum e trazer a verdade à luz, dá-se conta de que está a cavar ela mesma uma vala de mentira. Está aqui a grandeza e a beleza do filme: a verdade, que fará com que tudo acabe bem.

A unir e tecer este caminho está a maternidade. Quer dizer, estão duas mulheres que vão ser mães e que se encontram, conhecem e tornam confidentes na Maternidade onde esperam o momento de dar à luz. Uma (Janis), mais velha, já não esperava ser mãe, mas está feliz com o ‘acidente’ que lhe aconteceu: ter engravidado de Arturo, que é casado. Outra (Ana) é quase uma adolescente, assustada e apavorada, praticamente sozinha. A sua mãe, narcisista, tem outras prioridades e a gravidez – sabê-lo-emos apenas bastante mais adiante – resultou de um momento traumático, já de si revelador da sua solidão.

Elas são mães paralelas e ambas as filhas, por razões diferentes, vão ter de permanecer algum tempo em observação. E vão ser trocadas. Mas só meses mais tarde Janis vai saber e confirmar isso, já depois da suspeita de Arturo quando viu a “sua” filha e de ela própria ter feito o teste e ficar a saber que não era a mãe biológica. Mas ela guardou esse segredo. A revelação final acontecerá quase por acaso, quando ela vai reencontrar Ana – de quem se tinha afastado, como de Arturo, mudando o número de telemóvel –, a trabalhar num café, e ficar a saber que a filha desta já tinha morrido subitamente. Janis vai então propor a Ana que venha para a sua casa, para cuidar da sua bebé e do resto da vida familiar. Começa aqui um trabalho lento e difícil de revelação e de descoberta, de contradições, de aprendizagem, de luta com a verdade, que acabará com Ana a sair de casa, com a sua filha. A cena em que Janis ensina Ana a fazer uma tortilha resume bem todo este processo. Custou muito, mas Janis percebeu que não podia ser de outra maneira. E também Ana tinha de fazer o seu caminho e crescer como mãe. Está em causa a responsabilidade moral de cada pessoa.

Entretanto, Arturo também reaparece com a boa notícia de que a associação aceitou abrir a vala comum. Começam os trabalhos. A verdade deixa todos reconciliados.

Como se escrevia no La Croix (01-12-2021): “Cedo ou tarde, os diques interiores acabam por ceder. Tal como as sombrias horas de Espanha que Almodóvar exuma para melhor as enfrentar. À volta das valas comuns escondidas, que a nova geração exige reabrir, começa o apaziguamento da memória que as crianças nascidas hoje deverão consolidar.”

E esta não é a questão menor no filme, lado a lado com aquele olhar único de Almodóvar para as mulheres, tão belamente mães imperfeitas neste filme.

 

Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar
Com Penélope Cruz, Rossy de Palma, Aitana Sánchez-Gijón
Género. Drama, animação
Classificação: M/12
Espanha, 2021, cores, 120 minutos

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