“Breve História Mundial da Esquerda”

As esquerdas à procura dos seus caminhos

| 19 Mai 2024

Operários numa obra no México. Foto © Tomas Castelazo, www.tomascastelazo.com / Wikimedia Commons.

Operários numa obra no México. Foto © Tomas Castelazo, www.tomascastelazo.com/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0.

 

A esquerda portuguesa e europeia vive numa encruzilhada, com muitos a insistirem numa certidão de óbito. E talvez, neste caso, parafraseando Mark Twain, a notícia da sua morte seja manifestamente exagerada. Por isso, vale a pena mergulhar nessa encruzilhada a partir desta Breve História Mundial da Esquerda, de Shlomo Sand, historiador israelita nascido na Áustria, para aprofundar as causas que apontam para essa eventual crise, depois de experiências reformistas falhadas — como a Terceira Via, que juntou Bill Clinton, na América, e Tony Blair, no Reino Unido — ou as novas causas identitárias, como as de género e sobre o clima.

A capa da edição portuguesa do livro de Shlomo Sand.

A capa da edição portuguesa do livro de Shlomo Sand. Foto: Livros Zigurate.


Shlomo Sand oferece ele próprio a sua história pessoal para nos situar de forma desapaixonada na forma como a esquerda evoluiu na história, situando-se muito na noção de igualdade. A “matriz original de todas as esquerdas” é a igualdade, e de como essas esquerdas podem sobreviver a um “tempo marcado pelo individualismo e por reivindicações identitárias”, na feliz síntese que nos traz o seu livro em português. Sand nasceu numa família de judeus polacos sobreviventes do Holocausto e bebeu no pai comunista, avesso a rabis, uma atitude política de esquerda, até se desiludir no início da década de 1970 – que é como quem diz, depois da então União Soviética esmagar a Primavera de Praga, em 1968 –, e cortar os laços com o movimento comunista, sem voltar a reaproximar-se. “Todavia, continuo a pensar como um homem de esquerda: uma parte das falhas e, talvez, da qualidade do que escrevo conduz-me às minhas posições iniciais, a que não estou disposto a renunciar. Apesar de todas as decepções geradas, pelos desvios e fracassos das lutas sociais do século XX, continua a existir um abismo entre o universo e valores que anima a esquerda, em toda a sua diversidade, e aquele que alimenta todas as direitas” – apresenta-se o historiador, de forma clara.  

Escrito durante a pandemia, que não foi só uma “questão sanitária”, mas também “socioeconómica”, este livro é quase impiedoso na forma como vai sublinhando as deceções e fracassos das esquerdas no mundo – somos sempre mais críticos com os nossos pares. “A esquerda perdeu a sua força mobilizadora e abriu espaço ao populismo”, argumentava Shlomo Sand em entrevista ao Público, quando do lançamento do seu livro. A decomposição da esquerda enfraqueceu uma visão do mundo de progresso, no qual a igualdade agoniza, quando a esquerda começou pela ideia de igualdade.

O historiador, que se diz pessimista, sem ser fatalista, recusa a repetição da História, preferindo antes a ideia de que esta “fabrica fenómenos sempre desconhecidos e inesperados”. Deixando de lado grandes certezas, numa conclusão melancólica do livro, Sand prevê um possível caminho para as esquerdas, sem saber exatamente como se concretizará. “Quando os assalariados «de cima» se derem conta de que o seu futuro depende dos assalariados «de baixo», em particular dos mais novos, e quando estes últimos estiverem cansados do culto inútil prestado aos ídolos populistas, poderão emergir estratégias que levem a uma política diferente, reformista ou revolucionária. Infelizmente, ainda não é esse o caso.” Até lá, argumenta, a “exausta esquerda” pode resistir como o “vergado Galileu”, que depois de ter renegado as suas teses sobre o movimento da Terra à volta do Sol, perante o tribunal da Inquisição, acrescentou: “E, no entanto, ela move-se!”

Na cabeça de quem está na política

A atenção à atualidade é uma das mais-valias das edições da Livros Zigurate, que se impôs rapidamente num mercado saturado, com uma imagem de marca distintiva, no grafismo dos livros, mas também nos temas que marcam os tempos de hoje, ultrapassando a mera espuma dos dias. Para lá da superficialidade das matérias lidas apressadamente num jornal ou na internet, há quem procure deixar uma reflexão, e isso passa por estas páginas – e pelas páginas de cada um dos livros já publicados pela editora de Carlos Vaz Marques. 

Talvez o atual líder do PS, Pedro Nuno Santos, possa encontrar nesta Breve História Mundial da Esquerda uma leitura fundamental que o ajude a moldar a atuação política dos socialistas portugueses, no quadro de ascensão do populismo de uma extrema-direita que entrou em peso na Assembleia da República. Ou então beber naquilo que tem sido a sua preocupação primeira com uma Europa subjugada a uma “lógica monetarista” e que precisa de ser reformada nas suas políticas económicas.

Na cabeça de Pedro Nuno

Na cabeça de Pedro Nuno, de Ana Sá Lopes. Foto © Livros Zigurate.


Em Na Cabeça de Pedro Nuno, outra edição da Zigurate, lançada a tempo das eleições legislativas de março deste ano, a jornalista do Público Ana Sá Lopes traça esse permanente “esquerdismo”, lembrando a defesa intransigente de uma “nova social-democracia”, na qual o Estado é um mecanismo de redistribuição de rendimento e de proteção social, aliado ao desenvolvimento e à inovação socioeconómica. Sem a melancolia de Shlomo Sand, o socialista português aponta a questão da igualdade como chave.

Esta biografia de Pedro Nuno Santos completa-se também no confronto com outras duas biografias de políticos à direita lançadas em simultâneo (Na Cabeça de Montenegro e Na Cabeça de Ventura, também da Zigurate), que mais do que terem ajudado um eventual eleitor indeciso, proporcionam um retrato do muito que descreve o historiador israelita sobre o estado atual da arte da política do mundo – a esquerda, sim, mas também a direita. Se Ventura é descascado no seu primário populismo e radicalismo inconsequente, por Vítor Matos, jornalista do Expresso, o sensaborão inevitável-derrotado-até-à-última-vitória líder do PSD é descrito, na prosa de Miguel Santos Carrapatoso, jornalista do Observador, como alguém que “não era suposto ter chegado aqui”. Já se sabe: a esquerda espera que a Terra continue a mover-se.

Breve História Mundial da Esquerda, de Shlomo Sand
(trad. Carlos Vaz Marques, a partir da tradução francesa, do hebraico, de Michel Bilis)
Livros Zigurate, 2023
268 pp., 21,20€

Na Cabeça de Pedro Nuno, de Ana Sá Lopes
Livros Zigurate, 2023
160 pp., 14,80€

Na Cabeça de Montenegro, de Miguel Santos Carrapatoso
Livros Zigurate, 2023
200 pp., 14,80€

Na Cabeça de Ventura, de Vítor Matos
Livros Zigurate, 2023
192 pp., 14,80€

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

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Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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