As estrelas boas que Deus coloca na nossa vida

| 27 Jan 2022

Cristãos no Médio Oriente. foto 2 © ACN Portugal

“A luz da estrela não foi apenas uma iluminação em um momento histórico particular, mas continua a brilhar e a mudar a face da história.” Foto: Cristãos no Médio Oriente. © ACN Portugal

 

No contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2022 [entre 18 e 25 de janeiro] prestamos tributo a um homem bom, um fiel seguidor de Cristo e um cristão verdadeiramente ecuménico e aberto ao diálogo inter-religioso. Um cristão também com profundo sentido de humor e de alegria, que é sempre um sinal de uma boa espiritualidade. Refiro-me ao arcebispo anglicano Desmond Tutu, prémio Nobel da Paz em 1984 e recentemente falecido, a 26 de dezembro passado. A sua vida, a sua luta, a sua fé em Jesus Cristo é exemplar para nós hoje. É uma estrela boa que Deus coloca no nosso caminhar de vida. A fé do arcebispo Tutu foi forjada num contexto pessoal e eclesial de grande exigência e provação provocada pelo opressor sistema racista na Africa do Sul conhecido como apartheid.

Enquanto cristãos, não podemos esquecer que o sistema do apartheid de segregação racial foi também promovido por Igrejas cristãs que procuraram justificação bíblica e teológica para o racismo. A Igreja Reformada Holandesa (país de onde provinham os primeiros colonizadores da Africa Austral) chegou a afirmar o apartheid como “uma legítima política eclesial” desenvolvendo uma teologia do apartheid sustentada no relato da divisão do género humano em Babel e referindo que a unidade pela qual Jesus orou ao Pai não requer a unidade numa instituição. Criaram-se então e convenientemente Igrejas separadas; igrejas para brancos, igrejas para negros e igrejas para mestiços.

Deste modo as igrejas e os cristãos que ao longo de décadas lutaram pelo fim do apartheid na Africa do Sul, não só tiveram que lutar contra o Estado opressor, como tiveram também a árdua tarefa de desmontar os argumentos bíblicos e teológicos que justificavam a descriminação racial. Quase sempre a luta pela modificação das estruturas políticas e sociais injustas é acompanhada também, pela necessidade de libertar as Igrejas e as religiões, de sistemas, de ideologias e práticas internas, que não só as afastam de Deus como ajudam ainda a sustentar sistemas opressores. Verdadeiramente as Igrejas devem reexaminar-se continuamente para manter a sua pureza de doutrina e prática.

Em 1996 o arcebispo Tutu liderou a Comissão de Reconciliação e Verdade criada após o fim do apartheid para promover de forma pacífica a reconciliação entre as vítimas e os opressores. O conceito básico que norteava a Comissão era de uma justiça restauradora e não criminal. Uma justiça social baseada na necessidade de ouvir, compensar e dignificar as vítimas, mas também ouvir os acusados, facilitando a sua posterior integração na sociedade.

A prática e a vivência da reconciliação têm sido uma das áreas determinantes do movimento ecuménico. Para o ecumenismo, e como muito bem sublinhou a II Assembleia Ecuménica Europeia, em Graz [Áustria, 1997], a “reconciliação é um dom de Deus e uma fonte de vida nova”. Partilhamos uma mesma confissão de fé de que “toda a reconciliação neste mundo está fundamentada na reconciliação que Cristo trouxe às relações entre Deus e o mundo”. Assim, para nós cristãos das diversas Igrejas, a reconciliação traduz-se na reconciliação da pessoa com Deus, com os outros, consigo própria e com a Criação. Os desafios que enfrentamos a nível global só poderão ser superados se os cristãos estiverem unidos e promoverem essa unidade e reconciliação nas diferentes áreas da sociedade. Unidade e reconciliação caminham a par e uma não prescinde da outra.

Esse foi o propósito de vida não só do arcebispo Desmond Tutu mas também daquilo que poderíamos chamar como a “constelação de estrelas ecuménicas” das diferentes tradições cristãs cujo legado e vida continua hoje a inspirar-nos enquanto Igrejas e cristãos. Assim é com homens e mulheres como Desmond Tutu, Martin Luther King, Charles de Foucauld, Dietrich Bonhoeffer, Madre Teresa de Calcutá, Chiara Lubich, o irmão Roger de Taizé, o Papa Francisco, entre muitos outros e outras.

Todos eles e elas são estrelas boas cuja luz continua a brilhar e que nos conduzem não para si mesmas, mas orientam-nos para o encontro e vivência com Jesus Cristo. Neles está Cristo e por eles também nós vamos a Cristo. Para cada época da história e do caminhar da humanidade, Deus, na sua bondade, suscita sempre estrelas boas que iluminam o nosso caminhar. A este propósito, os cristãos do Médio Oriente que prepararam a liturgia desta Semana de Oração referiam: “A luz da estrela não foi apenas uma iluminação em um momento histórico particular, mas continua a brilhar e a mudar a face da história.” Ou seja, a narrativa bíblica dos Magos e da estrela como que se atualiza, ganhando novos intérpretes, novas estrelas e propondo novos caminhos.

É desta fidelidade, de um Deus que providencia sempre estrelas para nos guiar, que nasce a nossa esperança e confiança num contexto tão sofrido como aquele que estamos a viver atualmente. O exercício espiritual que se nos coloca é o de não desistir de olhar o céu na busca de orientação. Quando muitos caminham já desesperançados, vergados pela cruz da vida e incapazes de olhar para cima, deveremos saber propor a arte e a sensibilidade da contemplação, da espera e de nos deixar surpreender e tocar pelo inusitado de Deus. Assim foi com os Magos que ousaram não só olhar para cima como colocar-se a caminho não se deixando desviar por falsas estrelas e sinais. A adoração que nos é pedida é a adoração somente ao menino, que é Deus encarnado, Jesus Cristo. Temos que estar atentos às falsas estrelas e não nos deixarmos seduzir por elas. Deus não nos pede ouro, incenso ou mirra, mas antes a prenda do nosso compromisso e fidelidade ao seu caminho, verdade e vida.

Dizem-nos os astrónomos que estudam as maravilhas do Universo que quando olhamos para as estrelas no céu estamos a olhar para o seu passado. Mesmo depois da sua morte, a luz das estrelas e o seu brilho continuam durante muito tempo a poder ser vistas e a guiar o nosso caminhar. Assim é também com o legado que muitos homens e mulheres nos deixam pela sua santidade de vida cristã. É um legado e uma luz que perdura após a sua partida para Deus. São caminhos abertos à espera que os possamos percorrer dadas as verdades e princípios intemporais que os marcam e que dizem sempre respeito a cada geração.

Como nos é referido pelos nossos irmãos do Médio Oriente, a “comunhão que compartilhamos na nossa oração deve inspirar-nos a voltar para as nossas vidas, as nossas Igrejas e o nosso mundo através de novos caminhos”, tal como os Magos fizeram avisados por Deus.

Somos chamados pois, agora e uma vez mais, a percorrer novos caminhos ecuménicos e de reconciliação na nossa realidade eclesial e social em Portugal. Não para nossa satisfação própria, antes para que a Epifania de nosso Senhor Jesus Cristo continue a acontecer para as gentes do nosso tempo e renasça a luz da esperança de que tanto necessitamos.

Termino com as palavras vindas do Médio Oriente: “Um novo começo é sempre possível quando estamos dispostos e abertos à obra do Espírito. Como Igrejas, olhamos para o passado e encontramos iluminação, e olhamos para o futuro em busca de novos caminhos para que possamos continuar a viver o brilho da luz do Evangelho com fervor renovado e acolher uns aos outros como Cristo nos acolheu para glória de Deus.”

 

Jorge Pina Cabral é bispo da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana)

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“A grande substituição”

[Os dias da semana]

“A grande substituição” novidade

Outras teorias da conspiração não têm um balanço igualmente inócuo para apresentar. Uma delas defende que estamos perante uma “grande substituição”; não ornitológica, mas humana. No Ocidente, sustentam, a raça branca, cristã, está a ser substituída por asiáticos, hispânicos, negros ou muçulmanos e judeus. A ideia é velha.

Humanizar não é isolar

Humanizar não é isolar novidade

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,…

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This