As finas flores do entulho

| 16 Set 2020

O campo religioso evangélico atravessa talvez a sua pior fase na história do mundo ocidental. Depois da prostituição com o poder político, os escândalos sucedem-se. Era de esperar.

 

Quem por estes dias tenha acompanhado as notícias dos Estados Unidos, Brasil e América Latina em geral, deve ter ficado estarrecido.

Como já se esperava, rebentou a bronca com uma senadora evangélica do Brasil, Flordelis dos Santos de Souza, que é acusada de ter sido mandante do assassinato do marido, executado a tiro por alguns dos filhos duma família artificial de que era matriarca, constituída por cerca de 50 filhos adoptivos, numa casa que parecia um bordel e onde quase todos dormiam com quase todos.

Flordelis representa o pior do evangelicalismo brasileiro, onde qualquer pessoa sem escrúpulos pode ascender facilmente a posições de destaque em virtude de o meio ser altamente conservador e pouco instruído. Veja-se o caso de Edir Macedo e outros tantos figurões do denominado neopentecostalismo, de resto uma designação imprecisa e que deixa muito a desejar.

Flordelis é uma construção desenvolvida nas últimas décadas e feita em cima da visibilidade mediática. Criada numa favela do Rio, fundou uma das milhares de igrejas independentes do segmento pentecostal que anuncia um avivamento recorrente, mas sempre de olho posto em programas de carácter musical para atrair público. Foi assim que alguns elementos se tornaram celebridades e ganharam estatuto e poder, sempre fiéis à filosofia do sucesso, da conquista, da saúde, da rejeição de todo e qualquer sofrimento e da guerra contra os inimigos.

A alegada autora moral do crime chorou compulsivamente no velório do marido, Anderson do Carmo, mas consta que “por trás da aparência de mãe e mulher modelo, frequentava casas de swing e oferecia filhas como objectos sexuais a outras autoridades evangélicas”. O facto de ser amiga da ministra Damares Alves, de Michelle Bolsonaro e apaparicada pelas lideranças neopentecostais é sintomático do moralismo hipócrita prevalecente.

Talvez não seja por acaso que o nome da figura (flor-de-lis) tenha sido adaptado da heráldica associada à monarquia absolutista francesa.

Poderíamos falar também do pastor Everaldo, tornado famoso por ter baptizado Bolsonaro no rio Jordão, em Israel (outra tara do meio!), ele que se diz católico… Pois Everaldo foi apanhado na teia da corrupção e está a contas com a justiça. De acordo com a imprensa o quinto classificado na eleição presidencial de 2014, líder do ultraconservador Partido Social Cristão (PSC), faz parte, segundo o Ministério Público, “de um grupo criminoso que desviou e lavou recursos em plena pandemia, sacrificando a saúde e a vida de milhares de pessoas num total desprezo com o senso mínimo de humanidade e dignidade”.

Mas se formos para os países sul-americanos de língua castelhana, o panorama não é melhor. Os escândalos sucedem-se em catadupa.

Nos Estados Unidos acabou de rebentar outro escândalo pela mão de Jerry Falwell Jr, líder evangélico e presidente duma universidade cristã conservadora, apoiante próximo de Donald Trump. Há dois anos, quando foi confrontado com a estranheza provocada pelo seu apoio fervoroso ao candidato presidencial com uma vida tão imoral, terá afirmado: “Todo ser humano é um pecador. Somos todos imperfeitos, todos temos falhas e somos redimidos pelo sangue de Jesus Cristo.” Pois bem, perdeu agora as suas mordomias, ao ter de se demitir e abdicar de um salário anual de um milhão de dólares e do uso de jacto particular, ao ser apanhado num escândalo sexual centrado no alegado adultério da mulher, consentido e incentivado por ele.

Os analistas políticos perguntam-se até que ponto o escândalo pode prejudicar o voto em Donald Trump, em especial por parte do eleitorado branco conservador e religioso.

Estes são apenas alguns sinais de um certo evangelicalismo extremista, alimentado por décadas de doutrinação distorcida do Evangelho de Cristo e do significado genuíno da cruz, que na sua pureza fala de tolerância, despojamento e compaixão. Esta nova doutrina substituiu o ensino de Jesus pela luta por notoriedade, poder, e por um discurso agressivo, triunfalista e hipócrita, montado numa moralidade duvidosa, mas onde não resta espaço para amar o que é diferente ou aquele que pensa de forma diversa.

Flordelis justificou-se dizendo que não se queria divorciar do marido para não “desagradar a Deus”. Pelos vistos envenená-lo e mandar matá-lo já agrada… Segundo um comentador brasileiro, “atualmente a relação entre religião e governo é praticada em bases abertamente oportunistas e sem qualquer pudor de natureza ética”.

Mas os escândalos com os segmentos católicos (os alegados crimes do padre Robson) e espíritas (os do médium João de Deus) também compõem o quadro religioso.

Os abcessos precisam de ser lancetados. Embora incomode os sectores religiosos, torna-se necessário, do ponto de vista higiénico, denunciar firmemente estes falsos cristãos e mercadores da fé, em nome da esmagadora maioria dos que se gastam e desgastam em privações, sob perseguição, em sacrifícios, que muitas vezes são presos e mortos em nome da sua fé, em regiões inóspitas, mas com vidas dignas e íntegras ao serviço do próximo. Sobre esses, disse Jesus: “Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mateus 25:21). Mas sobre os outros dirá: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Papa Francisco no Congo: A ousadia de mostrar ao mundo o que o mundo não quer ver

40ª viagem apostólica

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O Papa acaba de embarcar naquela que tem sido descrita como uma das viagens mais ousadas do seu pontificado, mas cujos riscos associados não foram motivo suficiente para que abdicasse de a fazer. Apesar dos problemas de saúde que o obrigaram a adiá-la, Francisco insistiu sempre que queria ir à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. Mais do que uma viagem, esta é uma missão de paz. E no Congo, em particular, onde os conflitos já custaram a vida de mais de seis milhões de pessoas e cuja região leste tem sido atingida por uma violência sem precedentes, a presença do Papa será determinante para mostrar a toda a comunidade internacional aquilo que ela parece não querer ver.

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Quando ambos falamos de realização humana, talvez estejamos a referir-nos a coisas diferentes. Decerto que uma pessoa com deficiência pode ser feliz, se for amada e tiver ao seu alcance um ambiente propício à atribuição de sentido para a sua existência. No entanto, isso não exclui o facto da deficiência ser uma inegável limitação a algumas capacidades que se espera que todos os seres humanos tenham (e aqui não falo de deficiência no sentido da nossa imperfeição geral).

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