Exposição nos 50 anos do 25 de Abril

As Fotografias de Maria Lamas na Fundação Gulbenkian

| 1 Mar 2024

A mulher sábia edifica a sua casa (…)
A mulher sábia reveste-se de força e dignidade;
sorri diante do futuro.
Fala com sabedoria
E ensina com amor.
(Livro dos Provérbios, 31)

Maria Lamas. Gulbenkian

“Maria Lamas escolheu as mulheres que fotografou: mulheres trabalhadoras no campo (não as mulheres de classe média, como ela própria), trabalhadoras na faina piscatória ou nas obras de construção que exigiam mãos fortes: mulheres tecedeiras, rendilheiras  ou bordadeiras nas horas “ditas” livres”  Foto: Chegada das redes, Furadouro. Data: [1948-1950]. © Maria Lamas

 

Mais uma exposição comemorando os 50 anos do 25 de Abril: na Fundação Gulbenkian As Mulheres de Maria Lamas mostra Maria Lamas (1893-1983) no seu esplendor: como fotógrafa-antropóloga, como tradutora, jornalista e articulista, investigadora, bem como outras dimensões do trabalho e ação desta mulher exemplar. Sob curadoria de Jorge Calado a exposição incide sobretudo sobre as fotografias, soberbamente legendadas, que deram origem ao conhecido livro publicado inicialmente em fascículos nos anos 40 do século passado, intitulado “As Mulheres do meu País”[1]

Gosto do título escolhido para a exposição. Não se trata de mostrar e descrever as mulheres do nosso país. A exposição evidencia as mulheres de Maria Lamas. Ela não fotografou e descreveu [todas] as mulheres do seu país, nem todas as fotografias que foram emergindo nos fascículos  publicados entre 1948-50 são de Maria Lamas. Maria Lamas escolheu as mulheres que fotografou: mulheres trabalhadoras no campo (não as mulheres de classe média, como ela própria), trabalhadoras na faina piscatória ou nas obras de construção que exigiam mãos fortes: mulheres tecedeiras, rendilheiras  ou bordadeiras nas horas “ditas” livres (https://www.youtube.com/watch?v=rtvZIWeX9qw ) . Mulheres analfabetas. Mulheres de sua casa e mães, sim, mas bem mais do que cuidar dos filhos… mulheres do trabalho ininterrupto. Mulheres inferiorizadas pelos pais, pelos companheiros, pela igreja, pelo regime político. Mulheres de um tempo salazarento que se arrastou até ao raiar da democracia.

De um certo modo as mulheres fotografadas deixaram que Maria Lamas entrasse nas suas vidas. Por isso a beleza do livro (bem como a mostra de fotografias patente na exposição) apontando para um diálogo entre a as mulheres fotografadas e os apontamentos escritos de Maria Lamas que deram vida e autoria a essas fotografias: de um modo verdadeiramente antropológico e sensível sob o ponto de vista sociológico e psicológico, Maria Lamas descreve o contexto, explica, por vezes cita palavras das próprias mulheres, tornando evidente que escutou e tomou nota dos seus relatos: uma profunda atitude de investigação antropológica, situada, mas presente e sensível à vida daquelas mulheres. Diria que se situa no âmbito da sociologia crítica antes de se falar nesse campo da sociologia. Não sendo uma profissional da fotografia, Maria Lamas, em virtude de uma certa forma de olhar e escutar a voz daquelas mulheres, permite que elas se tornem “autoras de si próprias”. A qualidade das fotografias é surpreendentemente boa para uma fotógrafa amadora. Mas Maria Lamas é simplesmente um canal, o meio pelo qual as mulheres podem dizer de si. Não retiro mérito a Maria Lamas: o seu mérito é ainda maior porque soube ampliar estas vozes, evidenciá-las, trazê-las a descoberto. Maria Lamas soube trabalhar numa atenção profunda: daí que se tenha tornado, simultaneamente e de modo cúmplice, “autora de si própria”.

Ao elaborar sobre a palavra autor a Wikipédia afirma: “autor (do latim auctor, derivado do verbo augeo, ‘aumentar’) é aquele que cria, causa ou dá origem a alguma coisa, especialmente obra literária, artística ou científica. É diferente de narrador. Na narratologia, o autor é uma das entidades da história”. Maria Lamas, solidária, representa, cria e aumenta as vozes das mulheres observadas. Jorge Calado apelida Maria Lamas de “a mais ilustre portuguesa do século XX”. Uma das mais ilustres, sim. Mulher-Cidadã, sim. “Inteligentemente Mulher” (?) afirma Jorge Calado no catálogo… pela minha parte preferia que tivesse usado o coletivo “inteligentemente mulheres”. Imagino que Maria Lamas,  juntamente com mulheres fotografadas – autoras de si próprias, também -, se afirmaria no plural.

Maria Lamas. Gulbenkian

“As mulheres eram oprimidas e esquecidas no tempo em que Maria Lamas realizou o seu percurso de dois anos pelo país.” Foto: Duas mulheres à janela. Data: [1948-1950]. © Maria Lamas

 

As mulheres eram oprimidas e esquecidas no tempo em que Maria Lamas realizou o seu percurso de dois anos pelo país. Celso Martins no Expresso chama-lhe uma “peregrinação cívica”[2]. Maria Lamas fotografou mulheres sem os direitos mais básicos garantidos, trazendo-as à luz.  Apesar de tantos passos dados, sobretudo desde o 25 de Abril, temos consciência de que as mulheres ainda são oprimidas: lutamos, mas estamos longe da nossa libertação e da nossa redenção – e aqui utilizo o pronome plural “nós”  (nada majestático, por sinal… apenas solidário…). Mal estamos se não nos reconhecemos umas às outras nesta luta permanente pela paridade e pelo direito a existir tal como somos. Inteligentes. E somos tantas e tão diversas! Esta é uma exposição “redentora”. Maria Lamas deixou um legado inigualável, sabendo ligar a sua reflexão teórica, problematizando a situação das mulheres, e uma intervenção prática e cívica com mulheres

De seu nome próprio Maria da Conceição Vassalo Silva, Maria Lamas nasce em Torres Novas (Santarém), de uma família burguesa. Casou prematuramente (17 anos) com um jovem militar de quem teve duas filhas, acompanhando-o a Angola. Ainda grávida da segunda filha pediu o divórcio e regressou a Lisboa. Do seu segundo casamento com Alfredo Lamas (de quem assumiu o apelido), nasce a sua terceira filha. Separada do segundo marido, Maria Lamas dedica-se ao jornalismo, trabalhando em diversos jornais, nomeadamente no Diário de Notícias, escrevendo ainda contos, romances, novelas, sem esquecer poesia e livros para crianças: traduziu alguns livros da célebre “Coleção Azul” que todas lemos em crianças. Pude revisitar esse mundo literário para adultos e crianças numa secção da Exposição. Lá pousava a sua máquina de escrever.

Inicialmente publicada em fascículos entre 1940-1950, “Mulheres do meu País” foi reeditada em livro em 2002 (Editorial Caminho). No antigo  jornal O Século introduziu uma rúbrica intitulada De Mulher para Mulher que fez aumentar significativamente as vendas do jornal. Ajudou a fundar o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Durante a ditadura, perseguida pela polícia política, viveu na Madeira (dedicando-se apenas à escrita) e mais tarde em Paris onde se dedicou aos portugueses refugiados. Nessa época conheceu Marguerite Yourcenar, outra grande mulher da literatura.  Por duas vezes condecorada (1934 e 1982) continuou a dedicar-se, no pós 25 de Abril de 1974, e já com 80 anos, à atividade política e em prol das mulheres, filiando-se no Partido Comunista Português. Bem mais tarde, em 2023, Susana Moreira Marques publicou “Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro”, um interessante livro que se baseia na obra “As Mulheres do meu País”, trazendo-a para o presente.

Antecipando Paulo Freire (1921 – 1997) – antes deste ser conhecido em Portugal -, Maria Lamas soube o que era um “levantamento temático”, descobriu “palavras e imagens geradoras” através das suas anotações, soube fazer “análise crítica” e desenvolver uma abordagem pedagógica “problematizadora e dialógica”. A visita a esta exposição relembrou-me o trabalho do Graal de alfabetização segundo o método Paulo Freire com mulheres em meio rural, nos arredores de Coimbra, Porto e Viana do Castelo. Nos anos 75 do século passado não eram muito diferentes das mulheres retratadas por Maria Lamas. Foi uma ação, na maior parte dos casos, realizada em completo voluntariado, depois das horas de trabalho. No meu caso situei-me na zona da Abelheira, perto de Viana do Castelo e, mais tarde, em Castelo do Neiva. Essas mulheres não eram muito diferentes das fotografias de Maria Lamas. A ditadura tinha-as mantido no apagamento total. Saíamos todas as noites: três professoras do 1º ciclo, eu e estudantes do curso de educadoras de infância onde eu lecionava. Usando a pedagogia de Paulo Freire também fazíamos cursos de esclarecimento sobre a Constituição de 1976, o novo Código Civil, sobre alimentação e cuidados primários de saúde, círculos de leitura, educação das crianças. Em resultado da alfabetização as mulheres no Lobão, Vila da Feira, iniciaram-se, por iniciativa das mulheres, os “Programas Não-formais de Animação Infantil em Meio Rural”. Organizaram-nos com o argumento de que não havia educação pré-escolar em meios rurais e não queriam que “os nossos filhos passem pelo que passamos na escola primária”… Durante quatro anos fui destacada pelo Ministério da Educação para estes programas tendo “animado” doze aldeias em redor do Porto. Foi uma experiência inigualável, bem mais importante do que a minha atividade profissional.

Maria Lamas. Gulbenkian

Foto: Vendedeiras de tremoços à entrada do mercado, em Peniche. Data: [1948-1950]. © Maria Lamas

Daí que reconheça bem as fotografias de Maria Lamas: mulheres da Areosa, Castelo do Neiva, Anha ou Afife (Viana do Castelo). Também me cruzei com elas: olhei-as e falei com elas.  Pude verificar o trabalho infantil (pesado) de muitas meninas, meninos e crianças mais pequenas, e dos idosos: todas as mãos eram necessárias para aquele “trabalho sujo”, como afirmava o Sr. Germano do grupo de alfabetização da Abelheira e que “levámos”, juntamente com a mulher, a Sra. Angelina, ao exame da então 4a classe…

Infelizmente o catálogo da exposição sobre “As Mulheres de Maria Lamas” esgotou-se rapidamente, pelo que já não tive acesso a ele. Mas quero apenas salientar a vivacidade  e familiaridade das fotografias: “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras mulheres”, dizia Maria Lamas. Com o Graal também aprendi a olhar e a escutar tantas mulheres do meio rural. Um privilégio que Abril me trouxe.  Deixo, finalmente, algumas das palavras de Maria Lamas ilustrando o que fotografava:

  • Transporte de vagonetas carregadas de carvão. Este esforço reveste-se dezenas de vezes por dia, sempre esmagador.
  • Nesta casa com balcão na Serra da Estrela esta mulher nasceu, vive e espera morrer; aqui também nasceram os seus filhos.
  • Vendedeiras do mercado do Bolhão, no Porto. Vêm diariamente fazer o seu negócio, com os produtos agrícolas que elas próprias cultivam ou compraram aos lavradores vizinhos.
  • Ceifeira de um arrozal. Para este trabalho, as meias e os sapatos são substituídos pelos canos, de algodão grosso ou lã, com que protegem as pernas contra os mosquitos, sanguessugas e viscosidades da água estagnada onde andam metidas até meio da perna.
  • Duas camponesas de 17 anos, de Covão da Ponte (Manteigas) levam palha de centeio da eira para a ‘corte’, depois da malha.
  • A ‘apanhadela’ do arroz é uma tarefa extremamente fatigante. Nesta ‘marinha’, próxima de Salreu (Estarreja), o terreno, quase enxuto, torna o trabalho menos penoso e idêntico à ceifa do trigo ou do centeio.
  • Duas vendedeiras de peixe de Castelo do Neiva. Andam léguas por dia, de Verão e Inverno, levando sardinha e outro peixe miúdo aos lugarejos mais isolados.
  • Afamada rendilheira de Castro Marim compõe e adapta os modelos das suas rendas. A manta, castanha e branca, é também tecida na serra do Caldeirão, com lã de ovelha ali criada.
  • Jovens aldeãs do Azinhal, a aldeia algarvia de cenário agreste e das mimosas rendas de bilros.
  • Estas duas mulheres passavam na estrada de Salreu (Estarreja) e Canelas (Vila Nova de Gaia) quando lhes foi pedido que se deixassem fotografar. “Quer que a gente tire o avental para se ver a cinta?”, perguntaram. Vendem peixe nas aldeias e trabalham no campo.
  • Na praia do Castelo do Neiva, entre Viana do Castelo e Esposende, as mulheres ajudam a puxar os barcos para terra, quando não fazem sozinhas essa pesada tarefa.
  • Jornaleiras afifenses. Para cavar calçam fortes botas de cano. Usam enxadas pesadas e de cabos compridos.
  • Os ‘caminhos da água’ que fertilizam as ‘marinhas de arroz’ na região de Aveiro, obrigam as camponesas a recorrer a vários expedientes quando precisam de os transpor. Um dos recursos mais utilizados é um barco, atravessado, fazendo de ponte.
  • No vasto areal do Furadouro reúnem-se mulheres de vários pontos para comprar o peixe que depois levam, terra adentro, nas canastras que transportam à cabeça.
  • Ao domingo , no verão, as raparigas da serra gostam de espairecer. Juntam-se em pequenos grupos nalgum casal onde haja um rapaz que toque harmónio ou concertina e ‘armam um bailarico’.

Em homenagem às Mulheres de Maria Lamas e pensando nas Mulheres de Castelo do Neiva (Viana do Castelo) com quem, em 1975-76 conversei sobre a nova Constituição da República Portuguesa e sobre o novo Código Civil– mulheres vestidas de negro porque os seus homens tinham emigrado e elas ficaram “senhoras” de suas casas, de seus filhos, da lavra, da apanha do sargaço – termino com este magnífico poema de Sophia de Mello Breyner:

 

Mulheres à Beira-Mar

Confundindo os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa-
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.

 

[1] Lamas, M.   As Mulheres do meu País
[2] Expresso Revista, 2 de Fevereiro de 2024, pp.  68-70.

 

Teresa Vasconcelos é Professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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