As ignoradas Mães (Madres) do Deserto (II)

| 2 Abr 21

madres igreja 1

Houve pelo menos 50 ammas dispersas pelo Egito, Terra Santa, Capadócia mas, também, em França e na Irlanda. 

 

Para a Xexão,
que soube criar o deserto na sua cidade.

 

Uma mestre-guia tem de ser estranha ao desejo de domínio, vanglória e orgulho. A mestre não se deve deixar levar pela lisonja, nem tornada cega pelos presentes, conquistada pelo seu estômago, ou dominada pela zanga. Não é parcelar. A mestre deve ser paciente, gentil e humilde tanto quanto possível; cheia de preocupação e cuidado com as almas. (Amma Theodora)

 

Como afirmei no artigo anterior sobre este tema, não temos dúvida de que houve mulheres que – nos séculos IV e V – fizeram vida solitária nos desertos do Egito, Antioquia e Capadócia, ou mesmo na Terra Santa. S. João Crisóstomo afirma: “Não só entre os homens triunfa esta vida solitária, senão também entre as mulheres e, não menos do que aqueles, filosofam estas.” Inúmeros abbas (Pais do deserto) procuravam os conselhos de ammas (Mães do deserto). Era pois reconhecida às mulheres a sua missão de “mestres pregadoras”, que as tornava aptas a transmitir doutrinas espirituais.

Amma Sinclética escrevia que “manter nos lábios as doces palavras das Escrituras é, de facto, um remédio eficaz contra qualquer tribulação, não apenas pelo poder intrínseco da Palavra, mas também pelo alento e apoio que já conferiu a outros”. Saborear as escrituras tornava-se essencial para as ammas.

“Sucede o mesmo com as árvores: se não passam através dos invernos e das chuvas, não podem dar fruto”, diz amma Theodora, ao falar das dificuldades da vida no deserto.

Sinclética declara ainda, com uma profunda sabedoria:

Nem todos os caminhos são adequados para toda a gente. Cada pessoa deve ter confiança no seu próprio temperamento, porque para muitas é mais útil viver numa comunidade. E, com outras, é útil um afastamento. Tal como algumas plantas florescem melhor se estão num lugar húmido, outras tornam-se mais estáveis em condições mais secas, assim os humanos podem florescer em lugares mais altos, enquanto outros alcançam a salvação em lugares mais baixos.

Sabemos hoje que, para além das mais conhecidas ammas do deserto – Sinclética, Theodora, Sarah, Matrona, aquelas que deixaram escritos – houve pelo menos 50 ammas dispersas pelo Egito, Terra Santa, Capadócia mas, também, em França e na Irlanda. Dessas há menos documentação escrita e, em consequência, menos informação.

Segundo Laura Swan (2001), todas eram mulheres letradas e, em geral, de alta estirpe e de famílias financeiramente afluentes. Mas houve o caso de mulheres antigas prostitutas (por exemplo, Maria, a egípcia) que se tornarem ammas. Existe também informação sobre 16 mulheres diaconisas. Uma delas, Egéria, chamada “a turista”, manteve diários das suas peregrinações: acompanhada de um criado viajou pela Terra Santa, subindo ao íngreme monte Sinai; mas também viajou pela Capadócia e Calcedónia, chegando a Constantinopla e a Éfeso.  Sobre a subida ao monte Sinai, escreve Egéria: “a ascensão destes montes faz-se com um esforço imenso, já que não se sobem pouco a pouco, em espiral, senão que se sobe tudo direito, como ao longo de uma parede!”

O testemunho das Mães do deserto centrava-se na oração, na solidão e no silêncio; no desprendimento e no equilíbrio entre os diversos aspetos da vida; na compaixão; na liberdade profética; e, claro, na sabedoria que lhes permitia tornarem-se ammas.

Mary Earle (2007) afirma que havia mais mulheres do que homens neste caminho da espiritualidade do deserto. Como é possível terem sido ignoradas ao longo de tantos séculos?

 

Oração na solidão e no silêncio
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As ammas ensinam-nos a não temer o deserto, antes a vê-lo como um dom. Esta atitude pressupõe não ter medo do vazio.

O ensino das ammas do deserto é, portanto, fruto de uma mestria viva, nascida da experiência de uma vida anacorética ascética em extrema solidão, de onde a Palavra que rompe o silêncio tem um enorme poder de cura, de redenção e expiação e só se dá a quem verdadeiramente a busca e a vai por em prática.
(Burton-Christie 2007 in: P. Rabaneda 2015)

As ammas ensinam-nos a não temer o deserto, antes a vê-lo como um dom. Esta atitude pressupõe não ter medo do vazio. Porque é no vazio que podemos encontrar a imensa presença de Deus. As ammas convidam-nos a sentarmo-nos no deserto e a deixarmos que o deserto nos fale, nos ensine. É um caminho de muito trabalho, perseverança e tenacidade. O deserto passa a ser “nossa casa”, o lugar onde se sente maior qualidade de vida. No vazio encontra-se a vastidão da presença de Deus.

Um dos perigos do deserto é a acédia. Assim fala Theodora sobre este mal tão comum no deserto que afeta as pessoas a nível psicológico, corporal e espiritual:

É boa coisa procurar a união com Deus no sossego, o homem sábio persegue esta quietude (…). Mas deves saber que, mal a buscamos, o Maligno vem em seguida deixando alastrar na nossa alma a preguiça, o desalento. Alastra também pelo corpo com a doença da debilidade, do afrouxamento dos joelhos e de todos os membros e, quem sabe, a força da alma e do corpo.

A acédia é caracterizada pela incapacidade de fazer o compromisso com a jornada espiritual. Manifesta-se na preguiça, no descuido, na indiferença e incapacidade de escuta. Consiste num dos perigos da solidão no deserto e as ammas consideram importante ter consciência de que ela pode interferir no caminho espiritual de cada um/a.

 

Desprendimento e humildade

Sinclética de Alexandria: “Só a verdadeira humildade salva”. Ilustração do manuscrito Menológio de Basílio II.

 

Nem o ascetismo, nem as vigílias, nem qualquer tipo de sofrimento podem salvar, só a verdadeira humildade pode fazer isso. (Amma Sinclética)

O deserto implicava condições de vida muito duras: por exemplo, uma extrema aridez, uma precária subsistência ou o perigo de ataques de animais selvagens, bandidos e proscritos. Viver no deserto implicava também uma vida de solidão e isolamento, assim como uma renúncia absoluta aos bens materiais e aos laços familiares.

O deserto é o lugar onde somos forçados a viver com as nossas questões e ambiguidades. Por isso é vital a experiência da humildade, da redução da vida ao essencial, de uma vida frugal. Tudo isto se torna uma forma de criar espaço para que Deus nos inunde. A sexualidade e a espiritualidade expressam um imenso desejo do divino. Como crescer conscientes das nossas paixões? As ammas ensinam-nos que a santidade era baseada na integridade da totalidade. Diziam termos de abandonar o nosso falso ego para que o nosso verdadeiro “eu” possa emergir.

Amma Sarah nunca procurou qualquer reconhecimento: “Se eu rezasse a Deus pedindo que todas as pessoas aprovassem a minha conduta, seria uma penitente à porta de cada um. Prefiro rezar para que o meu coração seja puro para com todos.” Conta ainda que um dia ofereceu um cesto de fruta a uns monges. Eles deixaram a melhor fruta e comeram a que estava menos boa. Sarah disse-lhes então: “Vós sois verdadeiros monges.”

Perguntaram um dia a Sinclética se a pobreza era o bem mais perfeito. Ela respondeu: “Para aqueles que forem capazes dela, é um bem perfeito. Aqueles que a conseguem sustentar recebem sofrimento no corpo, mas a alma forte (…) mantém-se tão mais estável através da pobreza voluntária.”

Theodora afirma: “Assim como te sentas à mesa e há muitos alimentos deliciosos, tens certamente de os comer, mas não voluntariamente, assim também, apesar de chegarem aos teus ouvidos discursos mundanos, mantém o coração dirigido para Deus e, nesta disposição, não os escutarás e não te incomodarão.”

 

Compaixão
Sta Irene assiste ao martírio das irmãs - miniatura do manuscrito Menológio de Basilio II

Sta Irene assiste ao martírio das irmãs – miniatura do manuscrito Menológio de Basilio II

 

As ammas, em geral, recusavam emitir julgamentos sobre as ações de outras pessoas. Limitavam-se a ouvi-las porque acreditavam que a compaixão de Deus se estende a todas as fraquezas, por isso Ele é misericordioso.

O caminho das ammas implicava a compaixão pelas penas do nosso mundo, individuais e coletivas. A compaixão tem o poder imenso de curar, de reconciliar, de dar esperança. Reconhece a sacralidade da vida e da criação e, também, dos seres humanos. A compaixão é recriadora. Implica ternura de coração. Está apoiada na fortaleza. As ammas ensinam-nos a compadecermo-nos com as penas dos outros e apoiar o caminho para fora da dor. Arriscavam ser vulneráveis para acolher a vulnerabilidade.

Amma Sarah dizia: “É bom dar esmolas para o bem das pessoas. Mesmo que tal seja feito apenas para agradar a outros, talvez que através da esmola uma pessoa apenas pretenda agradar a Deus.”

 

Liberdade profética

Aqueles que são grandes atletas têm de competir com fortes inimigos.

(Amma Sinclética)

As ammas encontraram no Evangelho a liberdade de responder ao chamamento de Deus a serem diferentes e autênticas. Por isso foram subversivas. Compreendiam que a vida espiritual é sempre física, corpórea. Eram contra falsos dualismos corpo/alma. As ammas ensinam-nos a liberdade. Rejeitam os papéis tradicionais reservados às mulheres. Anunciam os sinais dos tempos. Lembram a carta de Paulo aos Gálatas (3:28): “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus”.

Amma Sinclética considerava que um “ascetismo moderado” devia estar enraizado num “discernimento reflexivo”.

Dizia Amma Theodora: “Deixemo-nos entrar pela porta estreita.” “Manter nos lábios as doces palavras das Escrituras é, de facto, um remédio contra qualquer tribulação”, lembra finalmente Sinclética.

 

Sabedoria
Santa Sinclética

Santa Sinclética

Na verdade, a falta de proporção sempre corrompe.
(Amma Sinclética)

Amma Sinclética aconselhava moderação e equilíbrio. Afirma com profunda sabedoria: “No início há grandes lutas e muito sofrimento para aqueles que estão avançando no caminho para Deus. Depois chega uma inefável alegria. É como aqueles que desejam acender um fogo: primeiro tossem com o fumo e choram, mas este é um meio para obter aquilo que procuram – ‘Deus é um fogo que consome’ (da Carta aos Hebreus). Assim temos que acender o fogo divino em nós através de lágrimas e muito trabalho.”

O grande objetivo de Amma Sarah era a pureza de coração que nos levava ao amor puro em Jesus Cristo. A profunda sabedoria de Amma Sinclética demonstra uma variedade de formas de se buscar a Deus, competindo a cada um/a encontrar a sua via. Amma Matrona dizia ainda: “É preferível viver numa comunidade do que viver só e estar todo o tempo desejando companhia.”

Amma Theodora insiste na oração constante: “É bom viverem em paz, a pessoa sensata deve praticar a oração constante. Isso é mesmo fundamental para uma vida ascética, sobretudo para os mais jovens.”

Sinclética lembra: “Não é bom encolerizarmo-nos, mas se tal suceder, o Apóstolo não nos permite estar o dia inteiro dominadas por esta paixão, pois diz: Que não se ponha o sol… (Efésios 4,26). Quereis esperar que o vosso tempo tenha terminado?”  

Muitos abbas consideraram as ammas do deserto habilitadas para transmitir doutrinas espirituais. Assim, elas tiveram uma verdadeira maternidade espiritual, semelhante à paternidade espiritual própria dos grandes monges. Quando foram publicados os apotegmas[1] das Mães, eles foram admitidos entre os apotegmas dos Pais.

Estas são algumas reflexões sobre o património imenso constituído pela vida das ammas do deserto, estas exemplares mulheres de oração e de vida radical. Mulheres apaixonadas por Deus. Que possamos seguir o nosso percurso espiritual na companhia destas ammas e, inspirado/as por elas, construamos o nosso deserto, estejamos aonde estivermos. Aí habita Deus.

 

Nota
[1] Usa-se o termo apotegma (apophthegma) para designar as sentenças dos Padres do Deserto (apophthegmata Patrum). Também se usava o vocábulo rhêma (relato, acontecimento significativo, palavra extraordinária de uma pessoa, ou a vida e o testemunho de alguém importante). As recolhas dos rhêmata dos Padres do Deserto foram feitas nos Gerontika, isto é, o conjunto das palavras dos anciãos.

Bibliografia
Aquilina, M. e C. Bailey (2012). Mothers of the Church: The witness of early christian women.  Indiana: Our Sunday Visitor Publishing.

Colombás, Garcia (1974). El Monacato Primitivo.  Madrid: Biblioteca de Autores Cristãos.

Earle, M.C. (2007). The Desert Mothers: Spiritual Practices from the Women of Wilderness.  New York: Morehouse Publishing.

Rabaneda, P. (2015), “Ammas, as Mães do Deserto: Mestras espirituais com voz própria?” In: Eduardo Albelda y Alvaro Delgado. Hijas de Eva: Mujeres y religión en la Anteguidad. (pp. 175 em diante). Editora da Universidade de Sevilha.

Swan, L. (2001). The Forgotten Desert Mothers: Sayings, lives, and stories of early christian women. New York: Paulist Press.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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