As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

| 7 Fev 21

Francisco de Zurbarán, Santa Paula e Eustóquia com São Jerónimo

Francisco de Zurbarán, As Mães do Deserto Santa Paula e sua filha Eustóquia, com São Jerônimo.

 

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas. Eram mulheres “embriagadas de Deus”[1] que, tal como os padres da Igreja, viviam em permanente metanoia e radicalidade cristã, escolhendo vidas reduzidas ao essencial e aproximando-se das fontes da “sabedoria perene”[2].

Porque as silenciou a Igreja, sendo elas também “discípulas” que seguiram Cristo? Neste mês de fevereiro, e em antecipação da Quaresma, o Papa Francisco convida-nos a pensar e rezar sobre o delicado problema da violência contra as mulheres que, durante esta pandemia, se tem tornado ainda mais evidente, dada a situação de stress e confinamento em que vivem as famílias. Francisco exorta a que “os seus sofrimentos sejam considerados e escutados”. Afirma o Papa: “Onde as mulheres são marginalizadas é um mundo estéril, porque as mulheres não só dão vida, mas transmitem-nos a capacidade de olhar além, de sentir as coisas com o coração mais criativo (…)”.

Sem ser investigadora na área e sem ter grande acesso a documentação que é muito esparsa – poucos livros estão publicados em língua portuguesa – este primeiro trabalho é apenas uma chamada de atenção para a ignorância a que foram votadas as Madres da Igreja, prometendo continuar a estudar logo que tenha acesso a mais informação, nomeadamente ao livro The Mothers of the Church: The Witness of Early Christian Women, de Mike Aquilina e Christopher Bailey.

A minha estranheza quanto a esta problemática é de longa data, mas tornou-se bem clara aquando da publicação da Pequena Filocalia (Paulinas, 2017), sobre o “encantamento pelo mistério de Deus”. Dos doze autores da tradição oriental cristã (incluindo ortodoxa) publicados nesta colectânea – reunida no século XVII e com textos dos séculos IV a XIV, começando em Santo Antão e indo até São Gregório de Palamas –, não aparece nenhuma mulher.

O antigo monaquismo cristão apresenta-se sob uma dupla modalidade, correspondente a distintas vocações: a eremítica (a dos/as que viviam sós) e a cenobítica – dos/as que escolhiam a vida comunitária. As Mães do Deserto também eram conhecidas pelo nome de ammas (mães espirituais), termo correspondente aos Padres do Deserto que eram os abbas, devido ao respeito que eles e elas ganharam como professores e diretores espirituais.

 

“Só a humildade pode salvar”
Syncletica (Sinclética) de Alexandria, manuscrito Menológio de Basílio II)

Sinclética de Alexandria (iluminura no manuscrito Menológio, de Basílio II): “A humildade é vitoriosa sobre os demónios.”

 

Os padres e as madres do deserto eram conhecidos por escrever sentenças ou pensamentos espirituais. Usava-se o termo “apotegma” (apophthegma) para designar as sentenças dos Padres do Deserto (apophthegmata Patrum). Também se usava o vocábulo rhêma (relato, acontecimento significativo, palavra extraordinária de uma pessoa, ou a vida e o testemunho de alguém importante). As recolhas dos rhêmata dos Padres do Deserto eram recolhidas nos Gerontika, isto é, o conjunto das palavras dos anciãos.  Recolhas feitas por homens.

E as Ammas? Uma das Mães do Deserto foi amma Sinclética de Alexandria (250-350). Nascida na Macedónia de uma família proeminente, Sinclética emigrou para o Egito, cuidando de uma sua irmã cega após a morte dos pais e irmãos. Deu aos pobres toda a sua fortuna e entrou numa vida solitária com a irmã. Ensinou que na vida nascemos três vezes: para a vida, para o batismo e, à medida que progredimos na vida espiritual, para a disciplina, porque estamos a preparar a vida no céu. Teve 22 provérbios atribuídos a ela no conjunto dos Provérbios dos Padres do Deserto reunidos em Historia Lausiaca [3] ou no Apophthegmata Patrum, isto é os Provérbios dos Padres do Deserto. Este inclui 47 provérbios que são atualmente atribuídos às Mães do Deserto.

Sinclética afirmou ainda que nem o ascetismo, nem vigílias, nem qualquer tipo de sofrimento são capazes de salvar. Apenas a verdadeira humildade pode fazer isso. Usa um pensamento metafórico:

Havia quem fosse capaz de banir os demónios. Perguntou-lhes: ‘O que é que faz com que vocês se vão embora? é o jejum?’ Os demónios responderam: ‘Nós não comemos ou bebemos.’ ‘São as vigílias?’. Eles responderam: ‘Nós não dormimos.’ ‘Então que poder vos manda embora?’. Eles responderam: ‘Nada nos pode vencer a não ser a humildade’.” Amma Sinclética conclui então: “Vêm como a humildade é vitoriosa sobre os demónios.

A profundidade do seu pensamento e dos escritos sobre espiritualidade era famosa no seu tempo, exatamente porque muitas mulheres não eram letradas, sem acesso ao universo escrito, apesar de se terem tornado mães espirituais de muitos seguidores de Cristo.

 

“Muitos vivem na montanha como na cidade”

Sta Irene assiste ao martírio das irmãs - miniatura do manuscrito Menológio de Basilio II

“No começo há uma boa dose de sofrimento para aqueles que estão avançando em direção a Deus.” (Ilustração: Santa Irene assiste ao martírio das irmãs. Miniatura do manuscrito Menológio de Basilio II

 

Sabe-se de uma outra Amma, Teodora de Alexandria, que foi amma de uma comunidade monástica de mulheres próxima de Alexandria. Antes disso, ela tinha fugido para o deserto disfarçada de homem e juntou-se a uma comunidade de monges. Foi procurada por muitos Padres do Deserto para conselho. Era portanto “uma mulher sábia. Eis algumas das suas palavras:

  • No começo há um grande número de batalhas e uma boa dose de sofrimento para aqueles que estão avançando em direção a Deus e, depois, a alegria é inefável. É como aqueles que desejam acender o fogo; no início eles são sufocados pela fumaça e choram, e por este meio obtêm o que procuram […] portanto, nós devemos acender o fogo divino em nós mesmos através das lágrimas e muito trabalho.
  • Há muitos que vivem nas montanhas e se comportam como se estivessem na cidade; eles estão esperando o seu tempo. É possível serem solitários em sua mente enquanto vivem em uma multidão; e é possível para aqueles que são solitários viver no meio da multidão de seus próprios pensamentos.

Que propostas tão importantes para a vida ascética! Era uma vida ao alcance de cada um/a desde que “chamados” e desejando essa radicalidade.

 

“Sou uma mulher, mas…”
Melânia, a Jovem. Manuscrito Menológio de Basílio II

Melânia, a Jovem: aos 20 anos, ela e o marido renunciaram ao mundo e fundaram conventos e mosteiros. Manuscrito Menológio de Basílio II.

 

Melânia, a Velha, era filha de um oficial romano. Ficou viúva muito jovem e mudou-se para Alexandria, e depois para o deserto de Nítria. Aí encontrou vários Padres do Deserto, seguindo-os em inúmeras viagens e ajudando-os, recorrendo ao seu próprio dinheiro. Chegou a ir para a prisão por apoiá-los, depois de vários Padres terem sido perseguidos por oficiais na Palestina. Mais tarde fundou um convento em Jerusalém, que tinha cerca de 50 mulheres.

A sua neta, Melânia, a Jovem, casou-se aos treze anos e teve dois filhos que morreram na juventude. Quando tinha apenas 20 anos ela e o seu marido Piniano renunciaram ao mundo, fundando conventos e mosteiros. Substituiu a sua avó quando está morreu.

De Sara do Deserto, outra Amma, ouvimos: Se eu orei a Deus todas as pessoas deveriam aprovar a minha conduta, eu deveria encontrar em mim mesma uma penitente na porta de cada um, mas eu devo sim rezar para que o meu coração possa ser puro para todos.

Os apotegmas de Sara do Deserto indicam que ela teve uma vida eremítica de cerca de 60 anos. As suas respostas incisivas e oportunas para alguns dos homens velhos que a desafiaram mostram uma personalidade bem forte e autónoma. De acordo com uma história, dois homens anacoretas (monges e eremitas cristãos) visitaram-na no deserto e decidiram: “Vamos humilhar esta velha mulher.” Disseram-lhe: “Tenha cuidado para não se tornar vaidoso pensando em si mesmo”, dizendo implicitamente que aquela não era uma via para as mulheres. Ela respondeu-lhes: “De acordo com a natureza, sou uma mulher, mas não de acordo com meus pensamentos.”[4]

 

Uma “mestra” dos Padres do Deserto
Domnina da Síria, Manuscrito Menológio de Basílio II

Domnina da Síria, outra das “Madres do deserto: “Ps primeiros tempos do cristianismo provocaram um reconhecimento revolucionário da dignidade das mulheres.” Ilustração: manuscrito Menológio de Basílio II.

 

Num livro escrito com Christopher Bailey, sobre as Madres da Igreja, Mike Aquilina descreve como os primeiros tempos do cristianismo provocaram um reconhecimento revolucionário da dignidade das mulheres[5]. Na Antiguidade Greco-Romana muitas meninas eram submetidas a infanticídio por serem consideradas “um peso” para a sociedade.  Como surge então esta aversão às mulheres? Mike Aquilina escreve: “Mas quão bom era ter uma menina? Se os pais tivessem sorte, a sua filha poderia casar-se com um homem poderoso e fazer uma aliança útil para eles. Mais o mais certo era que eles teriam que a alimentar e cuidar durante quinze anos ou mais e depois teriam que pagar a algum esbanjador inútil um dote ruinoso para tirá-la das suas mãos. Não admira que um dos adjetivos favoritos para indicar ‘filhas’ era ‘odiosas'”.

As meninas resgatadas do infanticídio eram criadas frequentemente para se tornarem escravas sexuais e para trabalhar em bordéis. Sabemos que na época de Constantino uma parte considerável da população romana era cristã. Muitos cristãos dessa época responderam a essa situação salvando as meninas da morte e da escravatura sexual.

Mike Aquilina destaca ainda a incrível contribuição de cristãs primitivas, como Macrina – a mulher que um dos Padres da Igreja da Capadócia descreveu como “a Mestra”. Refere-se ainda a outras mulheres tais como: Blandina, Perpétua, Felicidade, Helena, Olímpia, Tecla, Inês, Macrina, Proba, Marcela, Paula, Eustóquia, Mónica e Egéria. Foram muitas e por isso deixo aqui os seus nomes.

Segundo o cardeal Gianfranco Ravasi (in: Páteo dos Gentios), S. João Crisóstomo, um dos mais conhecidos Padres da Igreja afirmava que “estas mulheres lutaram melhor do que os homens e receberam troféus mais esplêndidos”. Porque foi então silenciada pela Igreja a voz destas mulheres até aos dias de hoje? Será que os séculos e séculos da Igreja de Pedro se fixaram nos modos de viver da Antiguidade Greco-Romana, esquecendo o tempo revolucionário das mulheres nos primeiros anos do Cristianismo?

Proponho que pensemos nesta questão ao longo do mês de fevereiro, correspondendo ao apelo do Papa Francisco: todos sabemos que existe violência física e violência psicológica ou emocional sobre as mulheres. A negação e o esquecimento da palavra e da voz das mulheres não será também uma forma de violência?

 

Notas
[1]  Isidro Lamelas. Padres do Deserto – Palavras de Silêncio. Universidade Católica Portuguesa.
[2] Idem.
[3]  A Historia Lausiaca é um trabalho de arquivo dos escritos dos Padres do deserto feito em 419-420 por Palladius da Galácia no tempo do imperador bizantino Teodósio.
[4] Apotegma é uma sentença breve, de caráter aforístico. Tem como objetivo enunciar um conteúdo de natureza moral de maneira extremamente sintética e eficaz. O apotegma tem traços comuns com a anedota e com o provérbio, embora não sendo completamente redutível a essas formas. (in Wikipédia). Ver também a entrada Mães do deserto.
[5] The Mothers of the Church: The Witness of Early Christian Women (Huntington: Our Sunday Visitor, 2012) traduzido no Brasil pela Edições Loyola, com o título Madres da Igreja: O testemunho das cristãs primitivas. 

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participa no Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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