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As igrejas e os novos paradigmas dos jovens com a religião

| 07/11/2020

Anúncio da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, no Panamá, em Janeiro de 2019: os jovens “sem religião” continuam a acreditar em Deus mas divergem de pontos de doutrina, ética e atitudes dos ministros de culto. Foto © Ecclesia

 

A propósito de uma recente reportagem emitida por um canal de televisão [SIC] acerca das relações dos jovens com a religião, muito ficou por ser dito sobre as novas realidades que têm vindo a permear o espectro religioso nas últimas décadas, fruto da crescente secularização no seio das nossas sociedades ocidentais e que têm levado ao afastamento dos jovens das igrejas. Embora, como vaticinavam alguns, não se tenha, nos dias de hoje, assistido ao desaparecimento da religião, ou mesmo das diversas igrejas enquanto instituições religiosas, observa-se, no entanto, um certo repensar da religião como tal e que vai alterando muito dos antigos paradigmas de ser religioso.

Quando os sociólogos nos seus inquéritos começaram a questionar as pessoas acerca da sua religião, ficou evidente a existência de uma terceira categoria de indivíduos, tão grande como as outras duas e que se auto classificavam como não tendo fé religiosa. O nones são, pois, os indivíduos que se enquadram dentro deste tipo de resposta e que afirmam não terem religião, nenhuma religião em particular, nenhuma preferência religiosa ou algo semelhante. No entanto, como já foi dito, a ausência de uma afiliação religiosa não indica necessariamente uma ausência de crenças ou práticas religiosas. Pelo contrário, em recentes inquéritos efetuados pela conceituada Pew Reserch Center, percebe-se que a maioria dos nones afirma acreditar em Deus, descrevendo-se como religiosa, espiritual ou ambas.

Outros recentes inquéritos realizados verificam que a mais recente geração das pessoas nascidas entre os anos de 1995 e 2010 e designada por diversos sociólogos como a Geração Z, ao contrário das anteriores gerações, é aquela que tem sido caracterizada por muitos como a mais irreligiosa.

Um outro relatório entregue na XV assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos (católicos) sobre os Jovens, em 2018 , feito em conjunto pelo Instituto Católico de Paris e pela Universidade Católica St. Mary e no qual explora a afiliação e prática religiosa entre os jovens adultos dos 16 aos 29 anos em 22 países europeus, revela que uma grande percentagem desses jovens se identifica como “sem religião”. Alguns países, como o Reino Unido, obtiveram percentagens bastante altas atingindo os dois terços dos jovens inquiridos.

O surgimento do fenómeno dos jovens “sem religião” que tem vindo a aumentar nestes últimos tempos, tem suscitando algumas interrogações quanto aos motivos que levam esses jovens a desfiliar-se das igrejas e a optarem por não se identificar com uma religião em particular. Também recentes estudos sociográficos coordenados por Alfredo Teixeira na área Metropolitana de Lisboa, revelam que as causas que mais contribuem para a não pertença religiosa entre os crentes “sem religião” são a discordância da doutrina, da ética e das atitudes dos oficiantes.

Entre as várias razões que são apontadas para o crescente fenómeno de desfiliação religiosa destes jovens contam-se, entre outras questões relacionadas com a difícil coexistência do mal e do sofrimento com a crença num Deus bom e amoroso, o choque entre ciência e dogma religioso e o facto de acharem que a igreja enquanto instituição é irrelevante para a sua prática religiosa. No mundo ocidental europeu, o aumento gradual das condições económicas e de segurança aliadas a uma crescente secularização e democratização das sociedades, têm igualmente potenciado o êxodo voluntário das igrejas destas últimas gerações.

O Barna Research Group, empresa norte-americana líder em pesquisa de marketing focado na interseção entre fé e cultura, indica que entre as várias razões pelas quais os jovens abandonam as igrejas, está a rigidez com que as mesmas lidam com a sexualidade. Sujeitos a exposição massiva de informação e quase praticamente sem restrições acerca da temática do sexo, os jovens questionam cada vez mais as posições das igrejas relativas à ética sexual.

A grande maioria das igrejas não tem conseguido enfrentar o grande choque cultural a que estão sujeitas, em que grande parte dos jovens tolera ou aceita com normalidade o sexo pré-matrimonial, a troca de parceiros, o divórcio e a homossexualidade. O estudo nota, por exemplo, que embora as questões sexuais sejam especialmente importantes entre os jovens católicos, nesse segmento, dois quintos (40%) concordam que os “ensinamentos da Igreja Católica sobre sexualidade e controle de natalidade estão desatualizados”.

Perante este horizonte negro, novos desafios se têm apresentado às igrejas nas sociedades pós-modernas sob risco de serem elas próprias desconstruídas e repensadas. O cardeal Carlo Maria Martini, em entrevista publicada pouco depois de ter falecido, em 2012, falava acerca de uma Igreja na Europa com casas vazias, com um clero mergulhado em burocracia e, consequentemente, catapultada 200 anos para trás no tempo. Num mundo em transformação, defendia a necessidade de adequar a rigidez de algumas regras, adaptando-as à nova realidade do mundo em que vivemos e essa seria a melhor forma de reaproximar os jovens da Igreja.

Temos visto nos últimos tempos que o atual Papa Francisco vai dando mostras, embora de uma maneira subtil, prudente e sábia, de tentar alterar muito daquele de tipo discurso religioso associado a uma igreja conservadora enclausurada muitas vezes em ritos e tradições e costumes, intransigente no diálogo em questões éticas como a sexualidade, a fidelidade conjugal, o aborto, a eutanásia, o divorcio, a homossexualidade,  etc. Recordo as palavras do Papa dirigidas aos jovens em 2018, alertando a igreja de que “que hoje a operação mais urgente é a de escutar ‘ao vivo’ as suas vozes: muitas vezes críticas e preocupantes, outras simplesmente iluminadoras. A Igreja, e eu em primeiro lugar, juntamente com os bispos e os educadores, optámos por nos colocar em atitude de máximo acolhimento das suas opiniões porque acreditamos que têm de se tornar cada vez mais sujeitos ativos e protagonistas não só da própria vida, mas também da Igreja”.

Somente um verdadeiro diálogo aberto, salutar e de proximidade entre as igrejas e as novas gerações, poderá estancar esse êxodo cada vez mais significativo de jovens que estão quebrando os seus laços com a Igreja, enquanto religião institucionalizada. Se esse diálogo for infrutífero, a vida espiritual destas novas gerações, encontrará significado noutras formas de religiosidade, muitas delas de cariz pessoal, individual, algo completamente estranho à unidade e comunhão que o Senhor da Igreja deseja que os seus filhos tenham consigo e uns com os outros.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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