
Massimo Faggioli: “As reações turbulentas de bispos representam uma estreia na história moderna”. Foto: Direitos reservados
“As reações turbulentas de bispos, individualmente, e de conferências episcopais à [Declaração] Fiducia Supplicans representam uma estreia na história moderna” do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) e suscitam várias questões sobre o desenrolar do Sínodo, sobre o pontificado de Francisco e sobre a Cúria Romana.
A leitura crítica é do historiador e teólogo Massimo Faggioli, um italiano que é docente e investigador na Universidade de Villanova, nos Estados Unidos da América, num artigo há dias publicado na revista Commonweal e no La Croix International.
Sobre as implicações da Declaração na vida da Cúria Romana, Faggioli recorda que um ponto central da reforma destes departamentos centrais da Igreja Católica, aprovada em março de 2022, depois de um longo processo de maturação, era torná-los “mais colaborativos e recetivos à Igreja global”. No entanto, pelo que é público, a Fiducia Supplicans apenas foi apreciada por especialistas, debatida na secção doutrinal do Dicastério e analisada e aprovada pelo Papa. “Não parece que outros dicastérios tenham sido trazidos para o processo”, observa o autor do artigo.
E, no entanto, para ele, justificava-se que isso acontecesse. Um caso óbvio é o Dicastério para a Liturgia, dado que a Declaração é, no fundo, sobre “a pastoral das bênçãos”, como refere o seu subtítulo. Por outro lado, se as diretrizes do Vaticano se dirigem aos ministros com responsabilidades no ministério pastoral, justificar-se-ia também a auscultação e contributo dos dicastérios para os Bispos e o para o Clero. Mais óbvio ainda é o Dicastério para a Evangelização, que é dirigido pelo próprio Papa, e que este pretende que tenha proeminência, atendendo a que evangelizar é a missão mais importante da Igreja.
Daqui tira Massimo Faggioli três conclusões: a) aparentemente, o conselho de cardeais, com o qual Francisco reúne com regularidade, não debateu esta matéria (debruçou-se, na última reunião, sobre o lugar das mulheres na vida da Igreja); b) apesar da vontade do Papa, continua a ser a Doutrina da Fé “o número um” da Cúria; c) quem conduziu o processo da publicação da Fiducia Supplicans não cuidou de antecipar e prevenir a reação “por parte das chamadas periferias”, esquecendo que isso poderia evitar ter de se “fazer um controlo de danos mais tarde”, como tem vindo a acontecer.
Sobre o Sínodo, a Declaração vaticana levanta uma questão fundamental, na análise do historiador e teólogo: “saber se e como a Fiducia Supplicans e a sua receção afetam a possibilidade de consenso sobre questões sensíveis, na segunda assembleia de outubro”.
A reflexão que propõe aponta em duas direções. Uma poderia exprimir a vontade do Papa de recordar que apenas ele pode “tomar medidas”, em particular “quando não há consenso sobre as questões mais sensíveis”. Neste âmbito, Faggioli chama a atenção para a declaração feita pelo gabinete da Secretaria Geral do Sínodo, em 11 de dezembro último, acerca da gestão de “assuntos de grande importância” da agenda sinodal. Por outro lado, porém, esse controlo papal “também pode proteger e ajudar o Sínodo”, como aconteceu com documentos papais durante o último Concílio (a Pacem in Terris do Papa João XXIII, de abril de 1963, e a Ecclesia Suam de Paulo VI, de agosto de 1964), que, afirma o articulista, “ajudaram significativamente” os trabalhos dos padres conciliares.

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Contudo, no caso presente, as reações tão díspares à Fiducia Supplicans – que vão da oposição e resistência, passando pelo silêncio até ao apoio e mesmo entusiasmo, em zonas específicas do planeta – “não deixarão de afetar também o Sínodo e a sua receção”, faz notar.
Finalmente, o que sugere a Declaração sobre o papado de Francisco (a terceira e última dimensão da análise do autor)? Para o autor do artigo, ela “reflete a sua vontade de cimentar o seu legado de uma forma estratégica e definidora – isto é, para além da simples nomeação de bispos e cardeais”.
O sinal vê-o Faggioli no facto de Francisco ter ido buscar para prefeito do Dicastério alguém – Víctor Manuel Fernández – que poderia ser considerado um “plebeu” (um teólogo pastoral argentino), ao contrário do que fez João Paulo II, quando escolheu Ratzinger, um insider “sangue azul” do Vaticano, que “restabeleceu a ordem doutrinal que tinha sido perturbada no período pós-Vaticano II” (mantida, em ritmo mais suave, nos mandatos seguintes, dos cardeais Levada, Müller e Ladaria).
“A julgar pelos últimos meses, com uma série de respostas a dubia e as declarações sobre as bênçãos, este poderia ser o início de uma nova fase de ativismo, para um tipo diferente de ordem (apesar das garantias de que Fiducia Supplicans não muda a doutrina) moldada pelo antigo Santo Ofício”, explica o historiador.
Nesta linha, a recente Declaração da polémica sobre as bênçãos não seria apenas um teste ao novo titular do DDF, mas ao projeto que para esse Dicastério o Papa Francisco definiu, na carta pública ao novo prefeito, de 1 de julho de 2022. Na síntese de Massimo Faggioli, esse projeto passa por “encerrar uma era tridentina de quase quinhentos anos na história do departamento doutrinal e abrir uma nova”: “guardar o ensinamento que brota da fé, a fim de ‘dar razões para a nossa esperança, mas não como um inimigo que critica e condena’”.
A avaliar pelo caráter inédito da turbulência gerada, neste último mês pela Fiducia Supplicans, “a transição de um dicastério romano da era tridentina para uma forma mais global e pastoral de promover a doutrina será um processo longo e complicado”, conclui o autor do artigo.










