As Lídias e os Pichardos desta vida

| 18 Ago 2021

Temos que escolher entre viver acantonados num território, agarrados a um passado longínquo, por mais glorioso que tenha sido, de modo saudosista e deprimido, ou darmo-nos ao mundo. De resto, apenas se optarmos pela segunda hipótese estaremos a ser fiéis à vocação histórica universal dos nossos antepassados.

Rapariga negra. Alegria. Libertação

“A primeira conversão ao cristianismo verificada na Europa apresenta características curiosas: era uma mulher, estrangeira, imigrante, e estava ligada à indústria da moda”. Foto © Joshua Duneebon / Unsplash

 

Durante a segunda grande viagem missionária do apóstolo Paulo, acompanhado por Silas, a ideia era rumar a Oriente. Todavia Lucas diz em Actos dos Apóstolos que o Espírito Santo impediu a equipa missionária de seguir nessa direcção, embora não saibamos no concreto como isso terá acontecido.

Entretanto Paulo teve uma espécie de epifania durante a noite, onde viu um indivíduo vestido à maneira dos macedónios e que lhe pedia “Passa à Macedónia e ajuda-nos!” Perante este quadro, o apóstolo decide navegar para Norte, a caminho da região macedónia. Chegam então à colónia romana de Filipos e dão início ao seu processo de evangelização, de tal modo que imediatamente surgem as primeiras conversões à fé cristã naquela parte do império.

A primeira de todas foi uma mulher conhecia como Lídia, que podia ser nome próprio ou uma alcunha, visto que era natural da cidade de Tiatira, situada na região denominada Lídia, na Ásia Menor. Era “vendedora de púrpura”, diz-nos Lucas. Temos então, de acordo com o relato lucano, que a primeira conversão ao cristianismo verificada na Europa apresenta características curiosas: era uma mulher, estrangeira, imigrante, e estava ligada à indústria da moda, já que a púrpura era utilizada para tingir tecidos dos nobres e altos dignitários. Nenhum pé rapado vestia tecidos tingidos dessa tonalidade especial.

Mais do que interessante, hoje é talvez mesmo dramático pensar a forma como alguns sectores cristãos tratariam Lídia. Veja-se como as mulheres são tratadas em tais segmentos religiosos por uma Igreja feita no masculino, onde as mulheres são frequentemente alvo de violência doméstica por parte dos maridos, com o apoio tácito dos líderes religiosos.

Veja-se também como esta cultura cristã lida frequentemente com os migrantes com base em atitudes discriminatórias baseadas em nacionalismos balofos em tempo de globalização, quando já no século XVIII John Wesley proclamava: “A minha paróquia é o mundo.” Olhe-se ainda para a forma como outros segmentos cristãos conservadores diabolizam a indústria da moda, ligando-a ao mundanismo, à vaidade e portanto ao pecado.

 

Pedro Pablo Pichardo é um português, por naturalização, de origem cubana e ganhou a medalha de ouro na disciplina do triplo salto masculino nos Jogos Olímpicos de Tóquio, recentemente realizados. No regresso foi recebido com honras no aeroporto de Lisboa, mas também em Setúbal, região onde treina e reside e no estádio do Benfica, clube que integra. Todavia não deixou de ser criticado por ser de origem forasteira, apesar da naturalização de atletas estrangeiros para poderem competir com as cores nacionais ser hoje uma prática comum aqui e em toda a parte.

 

Torna-se cada vez mais importante que a mentalidade dos cidadãos se abra ao mundo em que vivemos para decidirem se querem viver à maneira da pequena aldeia de Asterix no Norte da Gália ou se se dispõem a ser cidadãos do mundo. Os nacionalismos radicais do século XIX há muito que foram ultrapassados pela História. Os países hoje são interdependentes, partilham informação, conhecimento e comércio, e nunca como hoje houve tanta circulação de pessoas entre diferentes regiões do mundo.

Temos que escolher entre viver acantonados num território, agarrados a um passado longínquo, por mais glorioso que tenha sido, de modo saudosista e deprimido, ou darmo-nos ao mundo. De resto, apenas se optarmos pela segunda hipótese estaremos a ser fiéis à vocação histórica e universal dos nossos antepassados. Só que desta vez não o faremos numa lógica de conquista militar, de ocupação soberana de novos territórios nem de missionação à força da espada, mas pela afirmação de competências próprias e pela qualidade do nosso trabalho, ideias e produtos.

O que podem ter em comum uma mulher do I século a trabalhar longe da sua terra e um jovem nascido em Cuba a viver em Portugal no século XXI? Muito, se atendermos à forma como são vistos. Apesar do pioneirismo de Lídia as mulheres vieram a ser persistentemente desconsideradas no seio da fé cristã ao longo da história. Apesar de a naturalização de estrangeiros ser hoje coisa vulgar em Portugal (ou de migrantes portugueses nos países de acolhimento), Pichardo teve que suportar a pulsão xenófoba de uns quantos. De facto parece que não aprendemos nada com o desenrolar da história.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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