No mundo fragmentado de hoje, as línguas “são pontes que constroem a humanidade” e, para o cardeal José Tolentino Mendonça, os artistas destacam-se: o prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, no Vaticano, afirmou que os “artistas são ótimos condutores da linguagem” e “aliados na procura que todos fazem pelo significado da vida”. Como exemplo Tolentino Mendonça apontou o mais recente disco pop da cantora catalã Rosalía.
“Quando Rosalía fala de espiritualidade, significa que capta uma profunda necessidade na cultura de se aproximar de razões espirituais”, afirmou o cardeal português sobre o acontecimento da pop que é Lux”, disco de Rosalía, editado no passado dia 7 de novembro.
Falando na Conferência Internacional sobre Línguas Portuguesa e Espanhola, na Universidade de Cabo Verde, Tolentino defendeu que “os artistas são sensores”. E, citado pelas agências, num artigo do Jornal de Notícias, completou a ideia: “Quando uma criadora como a Rosalía fala de espiritualidade, significa que ela capta uma profunda necessidade na cultura contemporânea de se aproximar de razões espirituais, de cultivar uma vida interior, de valorizar a experiência religiosa como uma experiência fundamental, um ingrediente fundamental na construção do ser humano.”
Borges, Llosa, Márquez e Mia Couto
Poeta, sempre atento a fenómenos da música pop, Tolentino mergulhou ainda em referências do mundo das letras nas línguas portuguesa e espanhola, citando Miguel de Cervantes, Garcilaso de la Vega, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges, Federico García Lorca ou Mia Couto.

Rosalía, numa imagem de promoção do novo álbum Lux. Foto: Direitos reservados.
“Eles oferecem aos não falantes a possibilidade de conhecer a língua para que a possam cantar ou ler no idioma original”, refletindo que, ao longo de vários anos, várias pessoas procuraram aprender para poder ler, por exemplo, Miguel de Cervantes. Notou ainda que, no futuro, as pessoas vão continuar a aprender a língua espanhola ou a língua portuguesa para ler “grandes” escritores, poetas ou compositores.
O cardeal, que é natural de Machico, na Madeira, recordou também o Papa Francisco, salientando a sua consciência para a “importância da cultura”. Algo que é também partilhado por Leão XIV, garantiu. “As religiões devem dialogar com a cultura. Num mundo pluralista, nas nossas sociedades democráticas, o diálogo é fundamental e o diálogo entre religiões e cultura é uma mais-valia, um enriquecimento para todos”, afirmou, citado pela agência EFE.
O fado de Carminho e a voz de Rosalía
Lux, o novo álbum de Rosalía, é uma obra maior da obra da cantora e compositora espanhola: contém 15 novas canções, objeto quase inclassificável no contexto da pop, em que Rosalía, 33 anos, canta em 13 línguas, incluindo o português, num dueto com Carminho. A fadista portuguesa escreveu a letra de Memória, para um fado lisboeta de Armando Machado, que vê a sua composição redesenhada pela espanhola, por Carminho e o americano produtor e multinstrumentista Dylan Wiggins.
O primeiro cartão de visita de Lux foi o single Berghain, um opus espantoso que junta as vozes de Björk e Yves Tumor a Rosalía, num cenário que cruza orquestra e sonoridades contemporâneas, que rasga convenções. Mal adivinhávamos que Lux seria tão superlativo como Berghain.










