As mulheres no cristianismo primitivo (3)

As “Madres da Igreja” do século IV

| 11 Mai 2024

 

A vida religiosa como a conhecemos hoje, tanto contemplativa quanto ativa, evoluiu ao longo de dois milénios. Neste terceiro artigo da série de quatro, Christine Schenk analisa a contribuição de eminentes mulheres cristãs no século IV, que, ao fundarem mosteiros, lançaram as bases para a vida das religiosas de hoje.

A Catedral Santa Sofia (dedicada à Sabedoria de Deus) na moderna Istambul. As antigas fundações da catedral parecem datar do século IV. Foto © Christine Schenk.

A Catedral Santa Sofia (dedicada à Sabedoria de Deus) na moderna Istambul. As antigas fundações da catedral parecem datar do século IV. Foto © Christine Schenk.

O século IV começou com uma dura perseguição contra os cristãos, sobretudo no Oriente. Depois de ter abraçado o Deus cristão e após uma longa luta pelo poder, Constantino tornou-se imperador em 324 d. C. Nessa época a Igreja ascendeu a níveis de poder e influência terrena sem precedentes, graças ao favor imperial de Constantino, dos seus filhos e da sua mãe, Helena. Os homens da Igreja recebem generosos benefícios de mulheres cristãs aristocráticas, como Olímpia, Melânia a Velha, Melânia a Jovem e Paula. As comunidades cristãs que até então se reuniam em grandes casas passam a encontrar-se em luxuosos locais públicos. Estas mudanças exacerbam as tensões sobre o ministério público das mulheres cristãs.

O século IV viu também surgir uma perigosa tendência para assimilar, ainda que simbolicamente, o género feminino à heresia, apesar de tanto os homens como as mulheres cristãos estarem envolvidos nas mais diversas interpretações do cristianismo, chegando até a ser definidas como hereges. Mas sobretudo as mulheres correm o risco de serem qualificadas de hereges e suspeitas de impudência quando assumem o papel de mestras. É neste contexto eclesial que as “Madres da Igreja” do século IV vivem e dão testemunho da sua fé. Segue-se uma breve mas significativa cronologia das suas vidas e do modo como elas – e as suas comunidades – exerceram a autoridade eclesial na Igreja primitiva.

Textos escritos por mulheres

A informação literária sobre mulheres do século IV, como Marcela, Paula, Macrina, Melânia a Velha e Olímpia, chega-nos sobretudo através de homens de Igreja eruditos como Jerónimo, Gregório de Nissa, Paládio e João Crisóstomo. Temos dois textos escritos por mulheres: Proba e Egéria. Proba adapta em prosa um centão de Virgílio, muito apreciado em Roma, para contar a história do cristianismo com o objetivo de evangelizar jovens aristocráticas, criando um instrumento culturalmente transversal que influenciará homens e mulheres cristãos durante gerações. Egéria, por seu lado, escreve um diário de viagem para as suas irmãs, ilustrando o seu itinerário pelos lugares santos do Oriente. Durante esta viagem, escreve Egéria, numa certa altura encontra a sua “querida amiga, a santa diaconisa Marthana”, que governa um mosteiro duplo perto do santuário de Santa Tecla (na Turquia). Marthana é um exemplo raro de mulher diácono que exerce autoridade sobre homens e mulheres cristãos.

Embora o nascimento do monaquismo seja frequentemente atribuído a Basílio no Oriente, e a Jerónimo no Ocidente, duas mulheres – Macrina e Marcela – começaram a praticar este estilo de vida cristão muito antes dos homens.

Santa Macrina na colunata da Praça São Pedro. Foto © AlfvanBeem, CC0, via Wikimedia Commons. 

Santa Macrina na colunata da Praça São Pedro. Foto © AlfvanBeem, CC0, via Wikimedia Commons.

Macrina (327-379) fundou um mosteiro em Anisa, na Ásia Menor, que se tornou o protótipo da regra monástica escrita pelo seu irmão Basílio. Se Basílio é mais tarde chamado o “pai do monaquismo”, Macrina é certamente a sua mãe. A sua autoridade como guia espiritual influenciou profundamente os seus irmãos Basílio e Gregório, ambos teólogos, que viriam a elaborar a doutrina da Trindade.

 

 

 

Diodore Rahoult (Itália), Marcela de Roma (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons. 

Diodore Rahoult (Itália), Marcela de Roma (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcela (325-410) reúne mulheres que estudam as Escrituras e rezam na sua vivenda aristocrática do monte Aventino, 40 anos antes da chegada de Jerónimo a Roma. Quando Jerónimo regressa a Jerusalém, os sacerdotes de Roma consultam Marcela para esclarecer certas passagens dos textos bíblicos. Marcela intervém também nos debates públicos sobre a controvérsia origenista.

Paula Romana (347-404) funda dois mosteiros em Belém: um feminino e outro masculino. Confiou o mosteiro masculino aos monges e foi aí que, graças ao seu apoio, Jerónimo completou a tradução da Bíblia do grego para o latim. Jerónimo diz-nos que os conhecimentos de Paula sobre a língua hebraica excediam os seus.

São Jerónimo com os seus discípulos, Santa Paula e Santo Eustáquio. Domínio público, via Wikimedia Commons.

São Jerónimo com os seus discípulos, Santa Paula e Santo Eustáquio. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Melânia a Velha (350-410), consegue que um importante homem da Igreja (Evágrio) retome o seu voto de celibato; ensina e converte muitos homens. É fundamental na resolução de um cisma que envolve 400 monges em Antioquia, “conquistando todos os hereges que negam o Espírito Santo”. Financia e cofunda um mosteiro duplo no Monte das Oliveiras, onde as suas comunidades se dedicam ao estudo das Escrituras, à oração e a obras de caridade.

Olímpia (368-408). Ordenada diácono em Constantinopla pelo bispo Nectário, Olímpia utilizou a imensa fortuna da sua família para apoiar a Igreja e servir os pobres. Fundou um grande mosteiro perto da Basílica de Santa Sofia, onde três das suas familiares foram também ordenadas diáconos. Em breve, as mulheres das famílias do Senado romano também se uniram a ela, e o número de monjas aumentou para 250.

Estes são apenas alguns exemplos de mulheres do século IV cujas comunidades são precursoras da vida religiosa atual. O seu testemunho e a sua autoridade eclesial influenciaram fortemente as comunidades cristãs do seu tempo, mas também dos tempos que se seguiram. Numa época em que alguns homens da Igreja proibiam as mulheres de falar ou ensinar publicamente e preferiam que elas ficassem em casa, há provas de que, no século IV, algumas mulheres cristãs exerciam autoridade, falavam sobre questões eclesiais importantes, ensinavam mulheres e homens e davam livremente testemunho do Cristo ao qual tinham escolhido unir-se.

Christine Schenk é religiosa da Congregação de São José (CSJ) nos Estados Unidos e foi fundadora e directora da FutureChurch, grupo internacional de católicos afiliados a paróquias que se centra na plena participação dos leigos na vida da Igreja. Entre outros livros, é autora de Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity (Fortress, 2017), que o jesuíta Brian McDermott, na America: The Jesuit Review, descreveu como um amplo material para “transformar radicalmente a nossa compreensão das mulheres cristãs como figuras de autoridade nos primeiros séculos…” Este texto foi publicado inicialmente no Vatican News e é aqui reproduzido por cedência da autora e daquela publicação. 

Textos anteriores: 

A mulher e a autoridade como representadas nos sarcófagos do séc. IV

Autoridade missionária e ação profética das mulheres

 

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