
O filho de Dorgelesse Nguessan, Lontchi Jean Oki, segura uma fotografia da mãe na casa da família em Douala, Camarões, a 7 de julho de 2022. Foto © Amnesty International
No Dia da Mãe, a Amnistia Internacional (AI) resolveu homenagear as mães que não podem celebrar este dia com os seus filhos, por estarem presas de forma injusta, impedidas de manter a sua família segura ou por serem mães cujos filhos nunca mais lhes voltarão a casa.
A organização de direitos humanos lembra os casos das mães Narges Mohammadi, Ana Maria Santos Cruz, Dorgelesse Nguessan e, ainda, as “Mães de Sábado”, destacando como é possível qualquer pessoa se juntar ao apelo por justiça, verdade e reparação para estas mulheres. Neste dia, que deveria ser de alegria e festejo em família, uma assinatura pode mostrar a estas mães que a sua história não foi, nem será, esquecida.
Narges Mohammadi é uma mãe e ativista iraniana, vencedora do prémio Nobel da Paz de 2023. “Há mais de 14 anos que enfrenta represálias das autoridades iranianas pelo seu trabalho em prol dos direitos humanos, tendo sido condenada a várias penas de prisão injustas. Na prisão, foi submetida a tortura e a outros maus-tratos pelas autoridades que, repetidamente, lhe têm também dificultado o acesso a cuidados de saúde”, refere a organização em comunicado enviado ao 7MARGENS.
Na cerimónia de entrega do Nobel da Paz, o prémio foi recebido, em Oslo, pelos seus filhos, que Narges não vê há vários anos. Kiana Rahmani, filha de Narges, referiu na altura: “Acho que nunca mais a vou ver”.
Ana Maria Santos Cruz é mãe de três filhos –– David, Pedro Henrique e Mariana. No entanto, Pedro Henrique (ativista brasileiro e defensor da justiça racial e dos direitos humanos) foi morto a 27 de dezembro de 2018, quando três homens encapuzados invadiram a sua casa e o alvejaram oito vezes na dezembro e no pescoço. “Desde então, apesar das contínuas ameaças que lhe são dirigidas, esta mãe não desiste da sua luta por uma investigação e julgamento independentes e rigorosos, capazes de responsabilizar os envolvidos no assassinato do seu filho”, conta a organização.
Dorgelesse Nguessan é uma mãe solteira dos Camarões que há vários anos que passa este Dia da Mãe atrás das grades de “forma injusta”. “Foi presa por participar pacificamente na sua primeira manifestação. A Amnistia Internacional tem apelado continuamente para a sua libertação, para que esta mãe se possa juntar à sua família, que depende dela para sobreviver”, defende a organização.
No dia 22 de setembro de 2020, Dorgelesse participou na sua primeira e única manifestação em Douala. “Sem ser politicamente ativa, as suas preocupações sobre o estado da economia do país motivaram-na a marcar presença. Pouco depois da manifestação começar, as forças de segurança dos Camarões dispararam balas de borracha, gás lacrimogéneo e recorreram a canhões de água para dispersar os os manifestantes. À medida que Dorgelesse e outras pessoas fugiam da polícia, viraram em direção a uma ruela sem saída. A polícia bloqueou a rua e deteve Dorgelesse, que foi levada para a esquadra e ficou numa cela com outras 22 pessoas em condições deploráveis”, contam.
No dia 29 de setembro de 2020, Dorgelesse foi transferida para a Prisão Central de Douala, onde se encontra até hoje. Foi acusada de “insurreição, reunião, encontros e manifestações públicas” e julgada num tribunal militar, numa clara violação ao artigo 14º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos que os Camarões ratificaram.
Há quase 30 anos que as Mães de Sábado têm procurado incansavelmente saber o paradeiro dos seus familiares, vítimas de desaparecimentos forçados na Turquia nas décadas de 80 e 90. Desde maio de 1995, as Mães (e muitos apoiantes) têm organizado vigílias pacíficas semanais na Praça de Galatasaray (em Istambul), exigindo justiça para os familiares e que as autoridades expliquem e sejam responsabilizadas pelo que aconteceu aos seus entes queridos. “Há quase 30 anos que os seus Dias da Mãe são marcados por uma revolta cada vez maior, de quem não sabe se algum dia conhecerá a realidade que enfrentaram os seus filhos e familiares”, acusa a AI.
No site da Aministia Internacional é possível assinar petições para apoiar estas e outras situações de violações dos direitos humanos que sucedem um pouco por todo o mundo.









