“As máquinas que servem para não funcionar” no retiro de Tolentino Mendonça aos bispos do Brasil

| 7 Mai 19

(Texto de Rui Jorge Martins/Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura; foto de abertura: Adélia Prado © Wikicommons)

A Bíblia, textos da Tradição da Igreja e autores brasileiros como Clarice Lispector, Manoel de Barros e Adélia Prado constituíram as fontes do arcebispo D. José Tolentino Mendonça para introduzir o retiro aos bispos do Brasil, que decorreu no último sábado e domingo, dias 4 e 5 de Maio, no santuário de Aparecida, concluindo a assembleia plenária da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

“Vamos andar à volta da figura de São Pedro, nos passos das aparições bíblicas. O pastor não nasce de geração espontânea, mas um bispo constrói-se espiritualmente, como Pedro se construiu nos encontros com Jesus. Que a Igreja se assuma dependente da pessoa de Jesus”, tinha dito o bibliotecário do Vaticano aos jornalistas, antes de iniciar o retiro.

O bibliotecário e arquivista do Vaticano evocou Clarice Lispector e a crónica Ato gratuito: “Percebi que estava sedenta. (…) Então minha própria sede guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. ‘Que rua?’, perguntou ele. ‘O senhor não está entendendo’, expliquei-lhe, ‘não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.’ Não sei por que olhou-me um instante com atenção. Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver.”

“Há uma sede em nós que não tornamos oficial, explícita na nossa vida. Pode acontecer que seja difícil praticar esse tempo. Talvez seja mais fácil fugir. Contudo, a sede está lá e não podemos fazer conta de que a sede não existe. Nós, bispos, a sede de Deus existe. Não somos aqueles que temos Deus na mão ou que administramos Deus, mas somos mestres da fé porque somos sedentos de Deus. Ensinamos Deus porque nos sentimos tantas vezes vazios de Deus. Esta é a nossa realidade, a nossa experiência. Da aceitação desta realidade depende a qualificação espiritual de cada um”, observou o poeta.

De Manoel de Barros, o biblista deteve-se na frase “as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo, elas podem um dia milagrar flores”.

“A maior riqueza de um homem é a sua incompletude. Somos uma máquina que temos que funcionar, mas tem uma beleza e um sentido espiritual quando não funcionamos, quando aceitamos a nossa inutilidade, quando rezamos não por esta intenção ou aquela, mas um rezar simplesmente. Na nossa vida episcopal essa é uma falta grande, porque tudo tem que funcionar. É importante perceber que o abandono, o imprestável, o que não funciona, também ativa o milagre”, comentou.

Do poema Casamento, de Adélia Prado, o prelado citou os últimos versos:

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.

“Esse momento despretensioso que aqui estamos não é mais um momento qualquer, mas somos noivo e noiva, Cristo e sua Igreja. É o momento de circular amor. O primado de Pedro outra coisa não é do que o primado do amor. E o primado que o bispo testemunha na sua Igreja outra coisa não é do que o primado do amor de Cristo”, declarou.

Centrando-se, no domingo, no episódio bíblico do pai misericordioso, ou do filho pródigo, José Tolentino Mendonça comentou que “misericórdia não é dar ao outro o que merece, mas oferecer ao outros precisamente o que o outro não merece”.

(Texto adaptado pelo 7MARGENS)

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