As mesmas pessoas, cargos e decisões

| 2 Mai 2024

“Na Igreja Católica em Portugal continuam as mesmas pessoas, os mesmos cargos e os mesmos métodos e, naturalmente, “as mesmas decisões”. Assim não vamos lá!” Foto © ACN-Portugal

Depois do abanão que sofreu a Igreja Católica Romana portuguesa com a pedofilia de alguns padres (presbíteros), depois de um processo sinodal, ainda a decorrer, depois de uma Jornada Mundial da Juventude, realizada no nosso país, previa-se que alguma coisa mudasse nesta Igreja. Mas não, as pessoas são as mesmas, mantêm os seus cargos e as decisões concernentes à sinodalidade – nesta questão algumas dioceses fizeram auscultação – são mesmo dos escolhidos dos bispos e, finalmente, dos próprios bispos. Ou seja, não há decisão que “passe” sem o senhor bispo dar a sua aprovação. Outras ideias são subversivas e apontam para fora das comunidades (se existirem comunidades). Essas ideias colocam em causa princípios ditos basilares da Igreja Católica. Daqui a uns anos estão a pedir “desculpa” e “perdão”, como acontece em muitos casos de subjugação de povos indígenas, ou da pedofilia, ou mesmo de Galileu Galilei.

Estamos a viver um tempo que necessita de novas mentalidades, ou melhor, da mentalidade próxima de Jesus, e isso continua a não se ver. Exemplo é o último documento sobre “Dignidade Infinita” tão ao gosto da hierarquia, mas destituído da menor referência a essa dignidade. Ainda pensei – pensamento ingénuo –, que o documento estivesse centralizado na “questão da mulher” (que só é questão para a hierarquia), e finalmente concluísse por um pedido de perdão pelos erros cometidos, reconhecesse a dignidade da pessoa humana e admitisse as mulheres às ordens sacras, ou então, que reconhecesse a dignidade dos homens poderem constituir família, nomeadamente os padres e os bispos. Mas não: com perplexidade verificamos um regresso quase total a teses que nada têm da mensagem de Jesus Cristo. Lembremo-nos que ele tinha por confidente Maria Madalena, o que motivou o ciúme de Pedro, ou que este mesmo Pedro tinha sogra.

Será que a pedofilia de alguns padres não é objeto de nenhuma transformação profunda na Igreja em Portugal? A culpa não pode morrer quando o sacerdote falece, fica sempre a dor e essa tem de ser ressarcida. Civilmente podem arquivar, na Igreja não existem arquivos, o amor não se arquiva. E não é por ter morrido a pessoa sobre quem foi cometido o crime que não existe prova. Felizmente que o amor não morre. E existem padres em serviço, suspensos, que voltaram ao serviço porque a pessoa abusada morreu e, consequentemente, não há prova. Isto não deveria levar a pensar numa profunda remodelação da Igreja Católica em Portugal? O que é mais necessário quando há bispos que preferem falar em “gatos e cães” e não nas questões fundamentais?

Depois, temos o sínodo, o caminhar em sinodalidade, que ao que parece alguns bispos já faziam há anos e no quotidiano. Mas até para esta matéria se inventaram uns “peritos”, como se no caminho sinodal os peritos não fossem o povo de Deus. Continua a decidir-se como se o sínodo fosse passageiro, como se não estivesse na génese das primitivas comunidades. Aliás, como bem refere o bispo Carlos Azevedo: “Muitos sínodos realizaram-se nos primeiros séculos. Desde o primeiro, de 49-50, que se chama assembleia de Jerusalém para se chegar a um acordo. E a que acordo chegaram? Os judeus continuam a ser circuncidados, mas os pagãos não precisam ser circuncidados para serem batizados. Os pagãos podem comer carnes sacrificadas e os judeus não. Mas quando os pagãos estiverem a comer, não devem ir lá os judeus dizer: ‘nós estamos aqui a comer e vocês não podem’. Ou seja, temos diversidade cultural, mas sem nos pegarmos pelas diversidades de rituais, pelas diversidades de disciplina”. Mas que trouxe de alterações na Igreja Católica portuguesa? Nada. Tudo como dantes!

Finalmente vem a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que poderia mudar alguns preconceitos existentes. Mas o que muda? De facto, os famosos sínodos dos jovens mudaram, passaram a ter bandas modernas – e isso está bem, mas não chega. Mudou-se a língua: por exemplo, peptalks em vez do português “conversas estimulantes”. Muitos dos bispos portugueses não compreenderam o que era “todos, todos, todos” e passaram para a fórmula “todos, todos, todos – aqueles que concordam connosco”. Este é um facto indesmentível e concreto. A substância da JMJ foi esquecida, os temas são os bispos que os escolhem e aprovam os programas. Não foi nada disto que se passou na JMJ. É necessário não só ouvir a juventude, mas deixá-la percorrer os seus próprios caminhos. Perdeu-se uma ocasião de transformação séria.

Perante tudo isto, na Igreja Católica em Portugal continuam as mesmas pessoas, os mesmos cargos e os mesmos métodos e, naturalmente, as mesmas decisões. Assim não vamos lá!

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

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