Os outros – o Gabriel, o Miguel, o João e o Rafael – saíram da água e correram em círculos pela areia, a jogar ao meínho com as vestes do Luizito, que, ao tentar apanhar os calções que voavam de moço em moço, desfazia por breves segundos a concha das mãos destinada a tapar a pilinha, deixando-a à vista da praia inteira.
As meninas fugiam atrás dos rapazes para ajudar o Luizito a resgatar os calções, e quem os alcançou foi a Tatiana, que era alta que nem uma vara – como diziam os mais velhos. Depois enfiámo-nos outra vez mar adentro, meninos e meninas, a brincar aos afoganços e à chuva horizontal, porque o Luizito nunca se marafava nem desmanchava prazeres, era intristecível. O preferido para judiações alheias por isso mesmo, nem vinganças ele planeava.
Parecia preocupado unicamente com a harmonia ou com a felicidade, mas eu nem sei se ele sabia o significado da palavra harmonia – há coisas que a gente naquela idade não tem idade para saber. Da palavra felicidade ele sabia o significado porque chamavam-no de Luís Feliz e ele acudia vestindo a alcunha como carapuça feita à medida. Eu achava que ele existia de propósito para tudo dar certo.
Tantas vezes dei por mim a não me conseguir desviar de pensar só nele, fixava a ideia no Luizito por minutos a perder de vista, no jeito de ele ser desapegado das brigas e dos amuos. Era uma singularidade. Intrigava-me cá com os meus botões, Quanta benevolência será que pode uma criança possuir, nos cruéis convívios da infância, antes de o espírito amadurecer. Nenhum outro menino da escola era assim tão capaz de rejeitar o desânimo, dotado de um riso teimoso empoleirado no rosto sem desistência nem descanso, como se a vida fosse só rosas sem merecimento de reclamações.
Uma vez perguntei-lhe por que era que ele vivia na Santa Casa. Porque a minha família ainda não chegou, Respondeu-me. Da onde, Insisti. De um lado qualquer, quando vierem hei de descobrir, por enquanto é só um mistério.
Convenci os meus pais a levar o Luizito com a gente nas férias da Páscoa – era fácil, era só ir ao gabinete da doutora da Santa Casa e assinar uns papéis.

Tom Sawyer e Huck Finn, na série da Nippon Animation, As Aventuras de Tom Sawyer (1980), que a RTP transmitiu nessa década. Foto: Direitos reservados.
Combinámos que durante todo o tempo das férias eu seria o Tom Sawyer e ele o Huck Finn. Houvesse um barómetro para medir a pressão das alegrias e aqueles momentos entrariam no livro do Guinness – pescámos no Guadiana, trocámos segredos, inventámos mais mistérios, trepámos freixos centenários, pernoitámos numa tenda e colecionámos estrelas cadentes. O mundo era o melhor lugar do universo, o Luizito era a melhor pessoa do mundo e eu era a pessoa mais sortuda do universo.
No caminho de volta, o pai pôs a cassete que tinha a música do Tom Sawyer e o Luís chorou, então eu também chorei porque queríamos ambos o que não podia acontecer. A tristeza é contagiosa, porque depois eu vi através do retrovisor os olhos do pai e da mãe, iguais aos que os adultos usam para empurrar as lágrimas de volta para dentro. Os adultos aprendem a engolir as lágrimas para não assustarem as crianças. Queríamos todos o mesmo – mas o nosso amor nada podia contra quem mandava.
O amor que não se vive transforma-se noutra coisa, as impotências trituram o coração até ele deixar de sentir.
No sexto ano, o Luís preferiu outros amigos e eu vi-o ao longe perder a doçura de antes, renunciar àquele sorriso das benevolências singulares.
Tentei resgatá-lo, Vem cá Luís, vamos fazer de Huck e Tom Sawyer. E ele, Estás parvo, Tiago, já não sou um puto, muito menos um betinho como tu.
Era só terem-no deixado vir para a nossa família, era quanto bastava para que não se desesperançasse todo por dentro, não se rendesse à raiva. A raiva é a justiça dos injustiçados.
O Luís nunca chegou a ser adotado e aos dezoito anos saiu da escola e da Santa Casa para ir morar com os arrumadores na casa abandonada do morro de São Batista.
Num sábado à noite vi-o ser espancado na rua dos bares por dois putos com capacetes na mão, Preto de merda, vai mas é roubar para a tua terra.
Não fui em seu auxílio – ele tinha razão, eu não passava de um puto parvo, e, agora, cobarde, o mais cobarde à face da terra, o Tom não abandonaria o Huck nem que fosse contra cães raivosos de capacetes na mão. A polícia serenou a zaragata impondo os cassetetes da ordem e levou-os a todos algemados para dentro do jipe. O Luís com a cara coberta de sangue, tipo cascata de ódios a pingar-lhe da cabeça – o Luís desistido de si e do mundo.
Eu queria voltar à primária, às férias da Páscoa, e fazer greve de fome até o autorizarem a vir morar com a gente. Não tínhamos um quarto a mais, mas ele podia dormir no meu, o quarto era meu, por que é que não podia ser eu a decidir? Os meus pais não tinham o dinheiro que os serviços exigiam como segurança, mas será que estima, afeto e ternura não bastavam para estarmos todos seguros?
Essa foi a última vez em que o vi – aquelas algemas nunca me saíram dos pulsos, aquele sangue nunca deixou de me inundar, aquele jipe nunca desistiu de me perseguir.
Agora é Páscoa outra vez e volto a chamar por ti.
Huck, em todas as Páscoas te espero para irmos juntos transformar o Guadiana em Mississipi.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo, é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
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