As monjas que vão encher de flores o seu novo mosteiro

A irmã Maria Domingos, nos seus trabalhos de jardinagem no mosteiro; foto © António Marujo (foto inicial © Lucy Wainewright)
Nesta terça-feira, 5 de Março, as monjas dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, deixam o Lumiar (Lisboa) para Fátima, depois de quatro décadas presentes no coração da capital. Irão encher de flores o mosteiro onde passarão a viver, como disse domingo passado, no mosteiro, o arcebispo José Tolentino Mendonça, bibliotecário do Vaticano, que presidiu à eucaristia.
Várias dezenas de amigos e frequentadores do mosteiro despediram-se das irmãs Maria Domingos, Mary John e Teresa. Tolentino Mendonça referiu-se às mortes que todas as pessoas vivem e às ressurreições que todos também experimentamos nos quotidianos, conta Lucy Wainewright. Aludindo à dor que sentia com a saída das monjas, referiu também a esperança que significou o mosteiro do Lumiar e as vidas das monjas que por lá passaram para o catolicismo português, enquanto experiência de liberdade e generosidade. E acrescentou, numa alusão ao jardim sempre cuidado que acolhia os visitantes do mosteiro, que as três religiosas iriam encher de flores o mosteiro de Fátima.
Durante estas quatro décadas de presença da comunidade em Lisboa, muita gente ficou marcada pela vida e gestos das irmãs. O actor e encenador Luís Miguel Cintra recordou que ia buscar o pai à porta do mosteiro, ao final da missa de domingo. Quando o pai morreu, a irmã Maria Domingos esteve no funeral acompanhando a família e terminou a dizer ao filho de Lindley Cintra: “Se precisares de alguma coisa, conta comigo.” Por isso, quando regressou à fé, foi através do mosteiro e daquela pequena comunidade.
Emília Leitão, médica psiquiatra que animou várias das conferências do mosteiro que ali decorriam anualmente, esteve sábado passado na oração de vésperas: “Como é habitual, telefonei para saber se não causava inconveniente a minha ida ao mosteiro. Passei o portão, acolhida pelo silêncio e a beleza envolvente – no jardim já faltavam alguns vasos e algumas cores… dirigi-me à capela. As irmãs Teresa, Mary John e Maria Domingos não cumpriram a regra da hora marcada para a oração de Vésperas. Decidiram esperar por mim – o trânsito obrigara-me a atrasar a chegada”, conta, num curto depoimento.
“Iniciámos a oração cantando e escutando a Palavra de Deus. A mim, não me saía do pensamento a ideia de que era a última vez que ia estar com as irmãs naquela capela. Em mim, impunha-se a consciência espiritual de que o que recebi ao longo dos anos daquelas quatro mulheres (a Louise morreu há pouco mais de um ano) transbordou o meu coração no coração de muitas pessoas que fui cruzando na vida. Acolher, cuidar e repartir. No adeus, beijei humildemente as suas mãos (apeteceu-me, o coração pedia). Puseram-me na mochila o ícone da amizade. E eu fiquei triste. Mas alegre por tamanha dádiva.”

As irmãs Maria Domingos e Mary John, num momento de oração, na capela do mosteiro; foto © António Marujo
O historiador José Mattoso, outro frequentador do mosteiro, escreveu à pequena comunidade: “Deixaremos de ter a vossa companhia e o vosso acolhimento nas missas do domingo e nas conferências mensais de que tanto beneficiámos durante anos. Do ponto de vista humano, é uma perda irreparável. Mas é também uma ocasião de provarmos a nossa fé na palavra de Jesus: ‘Um pouco e não me vereis; mais um pouco e ver-me-eis’. Temos de agradecer a Deus ter-nos proporcionado o conhecimento da vossa comunidade, e às irmãs a amizade, o respeito e alegria que sempre sentimos da vossa parte e que foram para nós uma bênção muito especial. (Quero dizer-lhes) que este dom permanece no nosso coração como uma manifestação da misericórdia de Deus e uma certeza de que, mesmo longe uns dos outros, temos Jesus no meio de nós. Não podemos esquecer a abertura da vossa comunidade, a dignidade e a beleza da vossa casa, a palavra sempre inspirada do fr. Mateus Peres.”
Luís Lito, outro amigo das monjas também presente no último momento, caracterizava a última eucaristia como “um excelente momento de acção de graças por esta comunidade de monjas que durante 40 anos de forma e simples e sem protagonismos, pregou o evangelho e a Páscoa de Jesus”.
Uma tal pregação, “frequentemente sem palavras, mas realizada com os actos concretos da vida de clausura aberta das irmãs tocou e toca muitos corações”, acrescenta, para recordar também: “Uma outra pessoa marcou desde o início esta comunidade, o frei Mateus Peres (tal como frei José Augusto Mourão, que foi e é também tão importante para as irmãs). O frei Mateus, com a sua sempre interpelante catequese dominical, faz parte integrante do carisma deste mosteiro e contribui definitivamente para aquilo que bebemos no dia a dia destas irmãs e de todos os que aqui nos encontrávamos periodicamente. Mas a semente fica, e espero que continue a dar frutos.”

A irmã Teresa acendendo as velas antes de iniciar um dos vários momentos de oração diários; foto © António Marujo
Na sua crónica na revista do Expresso, de sábado, 2 de Março, Tolentino Mendonça evoca também a experiência deste mosteiro. É essa crónica, sob o título O sabor de Deus, que a seguir se transcreve:

O trabalho de colagem de reproduções de ícones em molduras era uma das ocupações das irmãs no mosteiro (aqui, numa foto de 1996); foto © Luís Vasconcelos
Um dia, quando se contar a história destes anos, talvez o nome destas mulheres saia do escondimento voluntário em que escolheram viver e compreendamos então quanto a sua irreverente experiência de fé e de liberdade inspirou uma estação do catolicismo português, e inclusive das suas margens: falo das monjas dominicanas do mosteiro do Lumiar (Lisboa), a poucos dias do encerramento do mosteiro e da transferência delas para Fátima.
É verdade que a cultura contemporânea se mantém ambivalente na leitura que faz da opção monástica: por um lado, mostra-se sensível ao monaquismo como alternativa utópica e valoriza, por exemplo, as suas práticas de hospitalidade; mas não deixa, porém, e de modo vincado, de considerá-la uma opção de vida anacrónica e inadequada, com um carácter feudal, um modelo ilegível e pouco operativo no confronto com a realidade. Ora, a vitalidade destas quatro décadas do mosteiro do Lumiar testemunha bem a importância de que se pode revestir a vida monástica e como ela profeticamente se inscreve no tempo.
A vitalidade destas quatro décadas do mosteiro do Lumiar testemunha bem a importância de que se pode revestir a vida monástica e como ela profeticamente se inscreve no tempo.

A irmã Louise Marie, que morreu há pouco mais de um ano, aqui numa foto de 1996: “um pequeno número de monjas de clausura que decidiu começar uma comunidade aberta, arriscando a transparência de uma vida simples”; foto © Luís Vasconcelos
O mosteiro de Santa Maria foi fundado nos inícios dos anos 80, num período em que a visão reformadora do Concílio Vaticano II estimulava as várias formas de vida religiosa (tanto as de linha apostólica como as de perfil contemplativo) a ousar novos caminhos. O repto foi aceite por um pequeno número de monjas de clausura que decidiu começar uma comunidade aberta, arriscando a transparência de uma vida simples, segundo o Evangelho. Procuravam guardar o essencial da tradição monástica dominicana, mas ensaiando uma nova proximidade ao laicado cristão e a todos os anónimos buscadores de Deus. Claro que quem transpunha os portões do mosteiro sabia que entrava em contacto com um claustro, e que aquelas mulheres viviam um distanciamento voluntário do mundo. Mas o seu contemptus mundi não pretendia denegrir ou acusar o mundo, nem instaurar uma relação dicotómica entre ação e contemplação, entre vida interior e exterior, entre sagrado e quotidiano. Pelo contrário: o silêncio do mosteiro tornou-se a possibilidade inesperada do encontro do uno e do diverso; tornou-se para tantos uma experiência de acolhimento integral da existência e da própria história; uma imersão numa liturgia cuidada, preocupada com a beleza dos símbolos e da linguagem; uma aprendizagem comum de esvaziamento, de relançamento e de plenitude.

Sob a inspiração de São Domingos, “o silêncio do mosteiro tornou-se para tantos uma experiência de acolhimento integral da existência e da própria história; uma imersão numa liturgia cuidada, preocupada com a beleza dos símbolos e da linguagem…”; foto © António Marujo
Para a afirmação do projeto foi preciosa a colaboração dos frades dominicanos, de modo especial dois protagonistas a que o cristianismo do futuro há de voltar: Frei Mateus Peres (um nome central da geração de “O tempo e o modo”, que optou pela vocação religiosa) e Frei José Augusto Mourão, que, depois do Padre Manuel Antunes, foi certamente o intelectual mais irrequieto e inventivo que o nosso catolicismo gerou. Eles foram os cúmplices certos das monjas para fazer do mosteiro um ativo laboratório de vida espiritual, implicado com as questões mais nodais (e também as mais de fronteira) que se colocam ao presente. No chamado “Salão do Quintal” realizaram-se as conferências dos segundos sábados, dirigidas a um público heterogéneo de crentes e não crentes, onde foi possível escutar teólogos e psiquiatras, sociólogos e vozes dos estudos literários, historiadores, como José Mattoso ou homens do teatro, como Luís Miguel Cintra.
O que foi o mosteiro do Lumiar? A aventura espiritual de um punhado de mulheres que nos explicou, sem ruído, que a liberdade é o sabor de Deus. E isso, queridas Irmãs Maria Domingos, Teresa e Mary John, não acaba: é uma alegria para sempre.
(Um dos outros trabalhos que as irmãs também faziam no mosteiro era a confecção de bolachas; no vídeo a seguir elas falam da relação de um trabalho como esse com a vida monástica)
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