As mulheres no cristianismo primitivo (4)

As mulheres da Igreja primitiva ignoraram as tentativas de as silenciar

| 18 Mai 2024

A vida religiosa tal como a conhecemos hoje – tanto contemplativa como ativa – evoluiu ao longo de dois mil anos. Neste último de quatro artigos, a autora analisa o que pode ter levado as mulheres do cristianismo primitivo a contribuir ativamente para a construção da Igreja.

 

Sarcófago com retrato feminino datado do primeiro terço do século IV. Foto © Museus Vaticanos, Museu Pio Cristiano, inv. 31556. Direitos reservados.

Sarcófago com retrato feminino datado do primeiro terço do século IV. Foto © Museus Vaticanos, Museu Pio Cristiano, inv. 31556. Direitos reservados.

 

Tal como foi referido nos três artigos anteriores desta série, as evidências da iconografia e das inscrições nos túmulos sobre as mulheres no cristianismo primitivo, juntamente com os escritos contemporâneos sobre as “madres da Igreja”, mostram que as mulheres exerciam formas de governo no serviço como viúvas inscritas (no catálogo de viúvas), diaconisas, líderes de igrejas domésticas e mosteiros, evangelistas, professoras, missionárias e profetisas. Em muitos casos, as mulheres governavam outras mulheres, embora haja exceções notáveis, como a da diaconisa Marthana de Seleucia (Turquia), que governou um mosteiro duplo no local do martírio de Santa Tecla. Estas mulheres do cristianismo primitivo testemunhavam e pregavam livremente, apesar da forte oposição de homens do cristianismo primitivo.

 

Como as mulheres superaram a oposição

Poder-se-ia perguntar, com razão, de onde vinham a força interior e a autoridade que levavam as mulheres da Igreja primitiva a ignorar as tentativas de as silenciar. Creio que o que levou as mulheres a falar em vez de ficarem caladas foi a sua fé em Cristo ressuscitado.

O sarcófago que vamos examinar fornece um indício sobre a forma como pelo menos uma mulher cristã (a quem chamaremos “Júnia”, uma vez que o seu verdadeiro nome é desconhecido) entendia qual era a fonte da sua autoridade interior.

No centro da figura 1, Júnia segura um códice na mão esquerda, enquanto a direita está levantada num gesto de oradora. De cada lado da figura estão representadas cenas bíblicas (da esquerda para a direita): Deus-Pai com Caim e Abel; Cristo com Adão e Eva; a cura do paralítico; a cura do cego de nascença; o milagre de Caná e a ressurreição de Lázaro. Alguns anos antes da sua morte, Júnia, ou a sua família, tinha encomendado este sarcófago esculpido de forma única para comemorar a ela e aos valores que tinham moldado a sua identidade.

Quando Júnia tivesse morrido, o sarcófago seria levado para sua casa, onde ficaria exposto durante sete dias, para que a família, os clientes e os amigos pudessem prestar homenagem e admirar o seu memorial habilmente esculpido: entrariam num espaço liminar para meditar sobre a sua vida, os seus valores, as suas convicções e, inevitavelmente, sobre o significado da vida e da morte.

Num artigo publicado em 2004, Janet Tulloch – especialista em artes figurativas do cristianismo primitivo – observou que a arte antiga podia ser considerada como um discurso social destinado a “atrair o observador como se fosse um participante” e que a arte era entendida “para interpretar significados, não simplesmente para os incorporar”. Assim, de acordo com o critério de Tulloch, é razoável pensar que Júnia desejava que os seus entes queridos entrassem num espaço liminar para experimentarem o poder de Cristo na inversão dos efeitos da queda – com a cura do cego e do paralítico – proporcionando vinho abundante no novo reino de Deus e ressuscitando Lázaro (e Júnia) dos mortos.

 

Detalhe do sarcófago representando uma falecida (anónima) com um códice na mão e em atitude de oradora, enquanto Cristo se aproxima para falar com ela. Foto © Museus Vaticanos, Museu Pio Cristiano, inv. 31556. Direitos reservados.

Detalhe do sarcófago representando uma falecida (anónima) com um códice na mão e em atitude de oradora, enquanto Cristo se aproxima para falar com ela. Foto © Museus Vaticanos, Museu Pio Cristiano, inv. 31556. Direitos reservados.

 

Onde encontrou Júnia a autoridade para testemunhar e ensinar Cristo? Uma sugestão pode ser dada pela expressão do seu rosto, esculpido próximo do rosto de Cristo inclinado para ela, com a boca aberta, como se murmurasse algo ao seu ouvido (ver imagem). Júnia e a sua família queriam que ela fosse recordada como alguém que ensinou com a autoridade de Cristo. As pessoas que a choram comunicam não só com a defunta Júnia, mas também com o Cristo que cura e edifica, através do significado evocado e “realizado” pela arte do seu sarcófago. Júnia exorta os vivos a abraçarem Cristo, que autorizou o seu ministério e de quem ela dá testemunho mesmo para além da morte.

 

As mulheres pioneiras sucessivas

Estas mulheres do século IV são as precursoras das monjas monásticas e apostólicas dos tempos posteriores, que confiaram no poder de Cristo para levar a cura e a justiça, apesar da forte oposição que enfrentaram. Por exemplo, o nascimento e o desenvolvimento da educação pública e dos hospitais – no Ocidente e no Sul do mundo – podem ser atribuídos a ordens de religiosas que se recusaram a ficar fechadas em conventos para poderem cuidar dos doentes, dos pobres e dos analfabetos.

Clara de Assis escreveu a primeira regra monástica para mulheres: nunca mais a sua comunidade teria dependido das dádivas dos ricos. E isso significaria que todas as suas irmãs seriam iguais. O bispo resistiu-lhe com veemência e só cedeu quando Clara estava no leito de morte. Apesar do seu medo da Inquisição, Teresa de Ávila indicou novas formas de experimentar a presença de Deus no centro da nossa existência e nas instituições e sacramentos da Igreja. Durante a epidemia da Peste Negra, Juliana de Norwich proclamou um Deus misericordioso que não condenava à perdição eterna aqueles que morriam antes de receber a absolvição, como a Igreja ensinava na altura. “Tudo correrá bem, tudo irá correr bem”, dizia aos seus concidadãos desesperados. Em geral, as doutoras da Igreja-mulher, como Teresa de Ávila, Hildegarda de Bingen, Teresa de Lisieux e Catarina de Sena testemunharam um Deus de misericórdia, não de julgamento.

Os relevos esculpidos no túmulo da nossa antepassada “Júnia” sugerem que a sua experiência de comunhão com Cristo ressuscitado foi fundamental para a sua pregação e ensino, apesar das suas admoestações para permanecer em silêncio. Na longa história do cristianismo – e talvez particularmente na história das ordens religiosas femininas – a proximidade de Cristo ajudou os crentes a superar obstáculos aparentemente impossíveis, encorajando-os a correr riscos pelo nosso Abba, Deus-Pai, cujo amor – no fim – reinará assim na terra como no céu.

 

Christine Schenk é religiosa da Congregação de São José (CSJ) nos Estados Unidos e foi fundadora e directora da FutureChurch, grupo internacional de católicos afiliados a paróquias que se centra na plena participação dos leigos na vida da Igreja. Entre outros livros, é autora de Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity (Fortress, 2017), que o jesuíta Brian McDermott, na America: The Jesuit Review, descreveu como um amplo material para “transformar radicalmente a nossa compreensão das mulheres cristãs como figuras de autoridade nos primeiros séculos…” Este texto foi inicialmente publicado no Vatican News e é aqui reproduzido por cedência da autora e daquela publicação. 

 

Textos anteriores: 

A mulher e a autoridade como representadas nos sarcófagos do séc. IV

Autoridade missionária e ação profética das mulheres

As “Madres da Igreja” do século IV

 

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