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As mulheres portuguesas: violência de género, carreira profissional e trabalho não pago

| 06/03/2019

As mulheres portuguesas: violência de género, carreira profissional e trabalho não pago

by | 6 Mar 19 | Destaques, Newsletter diária - título, Sociedade, Últimas

Fonte © Fundação Francisco Manuel dos Santos

Há mais mulheres portuguesas que passaram por situações de violência psicológica (33 por cento) do que violência física (14 por cento) numa relação, revela o estudo  “As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Das situações de violência de género mais frequentemente referidas, destacam-se o sobre-controlo, a intimidação e o menosprezo ou a humilhação em privado. Nas relações de intimidade, a violência física ou sexual não parece ter qualquer relação com a idade da mulher. No entanto, observa‐se alguma relação com com o nível de escolaridade já que, entre as que têm um mestrado ou doutoramento, os números são mais baixos (12 por cento). No que toca à violência psicológica, esta atinge o seu valor mais baixo (15 por cento) entre as mulheres mais jovens.

Neste 7 de março de 2019, que o Governo decretou como dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica, reavivam-se as palavras do presidente da República, aquando da apresentação do estudo, a 12 de fevereiro, em Lisboa: “Não é sequer preciso ser-se defensor de uma posição doutrinária de género para se condenar omissões, minimizações, fundamentações justificativas, claramente contrárias à dignidade da pessoa humana.”

O dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica foi proposto ao Conselho de Ministros pela ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva, e aprovado pelo Governo. Em nota à imprensa, a presidência deu conta que “o luto ora decretado significa maior mobilização nacional, incluindo de todos os órgãos de soberania, no combate a este flagelo da nossa sociedade”.

Ainda segundo o estudo e em relação à violência no relacionamento, conclui-se que a “pessoa parceira” é a faceta da vida com maior potencial para causar alegrias ou tristezas na vida das mulheres. Ou seja, é a que pode influenciar mais o facto de uma mulher se sentir feliz ou infeliz com a vida. As mulheres que sentem que “acertaram” com a pessoa com quem partilham a vida costumam sentir-se felizes, não só com o/a companheiro/a mas com a vida em geral, enquanto as que se sentem infelizes com a pessoa parceira tendem a sentir-se igualmente infelizes com a vida em geral.

 

Apenas 47 por cento dizem ser felizes

Mas quem é a mulher portuguesa? É essa a pergunta feita pelo estudo que considera a realidade das mulheres entre os 18 e os 64 anos, e dá conta da sua situação a três principais níveis: escolaridade, trabalho (pago e não pago) e vida pessoal (pessoa parceira e filhos).

Fonte © Fundação Francisco Manuel dos Santos

A crescente escolaridade da população feminina fica patente neste estudo: atualmente, a maioria das filhas apresenta um nível de escolaridade superior ao das respetivas mães: 36 por cento das filhas concluíram o ensino superior e apenas 10 por cento das mães o fizeram. Entre as mulheres que completaram o ensino superior, as três áreas de estudos mais comuns foram: “Direito, Ciências Sociais e Serviços”; “Economia, Gestão e Contabilidade” e “Humanidades, Secretariado e Tradução”.

Fonte © Fundação Francisco Manuel dos Santos

Ter trabalho pago é o mais habitual entre as mulheres que residem em Portugal: 71 por cento das analisadas no estudo estão ativas no mercado de trabalho (destas, 51 por cento está infeliz com o seu emprego). Para todas as faixas etárias em análise, as razões mais importantes de felicidade no trabalho são “ter um bom salário” e “conseguir conciliar vida familiar com a vida profissional”. As restantes 29 por cento distribuem-se entre desempregadas e à procura de emprego (10 por cento), já trabalharam, mas não estão à procura de emprego (outras 10 por cento), ainda estão a estudar (7 por cento) ou nunca tiveram trabalho pago (apenas dois por cento, um valor muito reduzido). 

A violência de género também se manifesta neste ambiente: a quantidade de mulheres inquiridas com experiência no mercado de trabalho que já sofreu assédio no trabalho pelo menos uma vez é de 60 por cento (assédio moral) e de 79 por cento (assédio sexual). As mulheres que se consideram a viver na situação de “realizadas” (com média etária de 55 anos, que, tendo ultrapassado as primeiras fases do seu ciclo de vida adulta, se sentem felizes ou muito felizes com a vida que construíram), são as que, em menor proporção, tiveram de enfrentar a violência doméstica e de género ou o assédio no trabalho. No extremo oposto, a situação em que mais mulheres experimentaram violência são as que estão a viver na situação das “resignadas” (com média etária de 39 anos e cuja vida está marcada pela frustração de não conseguirem um trabalho pago, apesar de ainda terem tempo pela frente para remediar esse sentimento).

“Hoje, as mulheres estão em maioria na sociedade portuguesa, em escolaridade obrigatória, no ensino superior e no mercado de trabalho. No entanto, a promoção de uma cultura de partilha de encargos entre homens e mulheres e a conciliação entre vida profissional e pessoal continuam a ser, juntamente com a chocante diferença salarial, preocupações que não podemos ignorar ou esquecer”, recordava o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na apresentação deste mesmo estudo, fazendo a ponte com os dados sobre a porção de trabalho não pago, um aspeto inovador registado neste estudo.

Fonte © Fundação Francisco Manuel dos Santos

No estudo, reflete-se ainda a falta de partilha de encargos na vida pessoal entre homens e mulheres: todas as tarefas domésticas analisadas (lavar a roupa, passar a ferro, lavar a louça, comprar, cozinhar etc.) são feitas pelas mulheres, em percentagens acima de 60 por cento. O mesmo acontece em tarefas ligadas aos filhos – de que são exemplo o acompanhá-los ao médico, brincar, alimentá-los, ou organizar a vida deles. Assim, as mulheres destinam mais de metade do tempo que estão em casa acordadas (5h48) a fazer o trabalho não pago que resulta da lide da casa onde vivem e do cuidado e educação dos filhos (se os têm, já que nove por cento das mulheres nunca quis ter descendência). Esta proporção mantém-se quase igual, estando a mulher activa no mercado de trabalho (57 por cento, em média) ou não tendo trabalho pago (52 por cento, em média). O estudo conclui que “ao ritmo que, na última geração, evoluiu a contribuição do homem para a execução das tarefas domésticas, faltam entre cinco e seis gerações para que se igualem as posições da mulher e do homem nos casais em que ambos trabalham fora de casa.”

Tudo isto contribui para que apenas 47 por cento das mulheres inquiridas se sintam felizes. Os filhos, amigos/as e companheiro/a são algumas das razões pelas quais as mulheres ficam felizes. Por outro lado, a falta de tempo para si, o seu emprego e aspeto físico são alguns dos aspetos que mais as deixam descontentes.

Como consequência de uma conciliação múltipla de papéis, 60 por cento das mulheres dizem-se “quase sempre” cansadas e 11 por cento dizem-se “sempre” cansadas.

O Presidente da República rematou o seu discurso, dizendo: “Não entender o papel crucial da mulher na construção da paz, da justiça, do desenvolvimento local, nacional, continental e internacional é não entender nada do que é a promoção da dignidade humana no seu futuro.”

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