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“As mulheres”: sempre uma questão difícil para a Igreja clerical…

| 27/11/2025

 

Como noticiado no 7Margens, a Secretaria-Geral do Sínodo da Igreja Católica publicou na segunda-feira, 17 de novembro, os relatórios preliminares dos dez grupos de estudo (GE), criados por decisão do Papa Francisco, em março de 2023, para aprofundar temas específicos que não puderam ser tratados com tempo e pormenor, durante a primeira assembleia do Sínodo dos Bispos. Os relatórios finais já deveriam ter sido apresentados, mas o Cardeal Grech, secretário da Secretaria-Geral do Sínodo justificou o atraso com a morte do Papa Francisco, a eleição de Leão XIV e com a “riqueza e complexidade de muitos dos temas que foram confiados” aos diferentes grupos”. Um dos grupos de trabalho que não especificou a data de entrega do relatório final é precisamente o grupo nº 5, designado como “Algumas questões teológicas e canónicas relacionadas com formas ministeriais específicas”, que trata do tema da participação das mulheres na vida e liderança da Igreja”.

O relatório preliminar faz uma menção especial à questão do acesso das mulheres ao diaconato, dizendo que, durante a Segunda Sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco reativou o trabalho da Segunda Comissão de Estudo sobre o Diaconato Feminino, que ele havia estabelecido alguns anos antes. Ora, acrescenta-se que todas as contribuições sinodais relacionadas a este assunto foram encaminhadas para essa Comissão, para sua consideração. Não se sabe para quando haverá resultados dessa Comissão, nem em que termos está a trabalhar. O facto de estas questões terem sido separadas dos objetivos do GT5 pode constituir um sinal positivo, na tentativa de aprofundar o tema para avançar, mas também podem introduzir uma indeterminação temporal que corre o risco de deixar esta problemática nas águas paradas em que se encontra há décadas, no mínimo.

 “as mulheres são sempre uma questão difícil para a Igreja”. Foto: Freiras do Mosteiro de Fahr (Suíça), pedindo o direito de voto para as mulheres na Igreja Católica. Direitos reservados

Confesso que, ao ler o comunicado da Secretaria-Geral do sínodo, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: “as mulheres são sempre uma questão difícil para a Igreja”… É certo que o relatório preliminar do GT 5 menciona o contributo de muitas mulheres para a reflexão do grupo, o que, de si, já é notável. Contudo, alguns dos temas que o relatório se propõe tratar são quase embaraçosos. E cito: “o significado de figuras femininas na história da Igreja; testemunhos pessoais de mulheres envolvidas atualmente na liderança da Igreja; testemunhos pessoais de mulheres que servem na Cúria Romana; o princípio mariano e o princípio petrino: relevância e limitações; a potestas eclesial: natureza e exercício; tensões críticas no que diz respeito ao clericalismo e ao chauvinismo masculino; os contributos do Papa Francisco e do Papa Leão XIV no que diz respeito ao papel das mulheres na Igreja”.

O embaraço que senti ao ler os itens (alguns deles, obviamente, resultantes da abertura do Papa Francisco à participação de mulheres em lugares relevantes de governo da Igreja, incluindo na Cúria, o que considero positivo, embora seja preciso olhar para a argumentação usada para tal!) a serem tratados no relatório do GE5 resulta do facto de haver muitos destes temas que são tratados há décadas por mulheres teólogas ou mulheres empenhadas numa Igreja em que elas, nós, constituímos a maioria dos crentes. Agora, aparecem como uma novidade, ou melhor, como uma tentativa de “síntese difícil”. Sim. Muito difícil. Houve até mulheres em quase todos os continentes que perderam o direito de ensinar teologia por se terem identificado como teólogas feministas, por exemplo. É verdade. A Congregação para a Doutrina da Fé “fez-lhes a vida difícil”. Houve muitas outras que foram afastadas de comunidades por terem uma perspetiva realista acerca de questões relacionadas com a sexualidade, por exemplo (lembremo-nos da fixação na questão dos preservativos, sobretudo durante o papado de João Paulo II).

É verdade que se reconhece neste relatório preliminar que o clericalismo e o chauvinismo são um problema na Igreja, o que já é bastante positivo, mas a pergunta que fica é mesmo esta: por que motivos têm as mulheres que esperar séculos para que a sua presença na Igreja seja reconhecida nas Igrejas locais, mas também em Roma? Por que motivo se fala do “princípio mariano e do princípio petrino”, que não têm qualquer fundamento bíblico, por mais que tenha havido teólogos a insistirem nele, quase como uma forma desesperada de não retirar o poder a Pedro, isto é, à hierarquia da Igreja? É certo que se reconhece que o mesmo tem limitações. Mas também se diz que tem relevância. Qual é esta relevância? O que se entende por potestas eclesial? Qual é a sua natureza? Como se manifesta o seu exercício? Qual o lugar das batizadas e dos batizados nesta potestas (poder eclesial)?

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

“De facto, porque são as mulheres um problema difícil para a Igreja? E para que Igreja?” Foto: Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 Outubro 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. © António Marujo/7MARGENS

Mais uma vez: a questão do diaconato não faz parte dos temas a tratar neste grupo. Foi relegada para um outro do qual nada se sabe. Contudo, os argumentos para legitimar o chauvinismo, de que o próprio grupo de trabalho quer tratar – o que representa um avanço significativo – enquadram frequentemente a discussão acerca do acesso das mulheres a ministérios ordenados. E se esse enquadramento não mudar, não adianta, nem falar de ministérios, nem falar da igualdade de homens e mulheres diante de Deus – a questão mais profunda e subjacente a todas as outras.

De facto, porque são as mulheres um problema difícil para a Igreja? E para que Igreja? É que a própria formulação do tema já é reveladora do problema em si: o da participação das mulheres na vida e liderança da Igreja. Não somos todas e todos parte da Igreja? Por que motivo tem de se destacar o tema da participação das mulheres na Igreja? Será porque para os homens há sete sacramentos e para as mulheres só há seis? Será porque a Igreja continua a insistir na ideia de que tem autoridade para dizer a quem é que Deus dá vocação e porque se aceita calmamente a ideia de que Deus só dá vocação a homens? Será porque se diz que uma mulher não pode representar Jesus Cristo no altar, porque Ele era homem, argumento que levou mulheres a “baterem com a porta à saída” há décadas, por considerarem insultuoso divinizar a masculinidade de Jesus, distorcer a ideia fundamental de que Jesus Cristo assumiu tudo o que é humano, e, portanto, não se trata de uma questão de ser homem ou mulher, como diz S. Paulo?

É usual o argumento de que as mulheres querem ter poder na Igreja. Devemos, então, supor que os homens ordenados, afinal, apesar de mencionarem que “servem a Igreja”, o que querem e têm é poder?

No comunicado do secretariado do Sínodo já mencionado diz-se que o grupo de trabalho que trata das questões relacionadas com as mulheres não especificou a data de entrega do relatório final. O tema é difícil, muito difícil: mexe com aquilo que está no centro da fé cristã. Mexe em estruturas eivadas de um clericalismo centenário. Estará esta perspetiva disposta a ceder o lugar àquilo que está no centro da fé: Jesus Cristo, que salvou e salva todas e todos? Aquele em quem todas as batizadas e todos os batizados acreditam?

P.S. Gostaria de fazer uma declaração de interesses: não tenho qualquer vocação, nem desejo de ser ordenada. Não é isso que me move na minha argumentação. O que me move é a legitimação secular do tal “muro de separação”: para os homens há sete sacramentos. Para as mulheres, só há seis. E, no entanto, recebemos todas e todos o mesmo batismo. Quantas gerações terão de passar, quanta paciência teremos de ter para conseguir que o muro se abata?

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Paulinas Editora).

 

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