As narrativas do evangelho

| 18 Mai 2024

Arte. Evangelhos. Evangelistas

Os quatro evangelistas e os seus símbolos

 

“Viver é narrar.” O impacto desta sentença nas nossas vidas impregna algo tão desconfortável quanto intrigante. De facto, a narração é algo importante, pois através dela o mundo não nos é apresentado apenas em sua pura dureza, encerrado sobre si mesmo. Um sentimento que Sartre explicita: “Tinha aparecido por acaso; existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. A minha vida crescia ao acaso e em todos os sentidos.”[1]

A vida narrada exige uma luta com nossa forma de nos relacionarmos com o mundo. Se o primeiro acesso ao mundo se dá por aquilo que dominamos como facticidade, o entrelaçamento com a narrativa permite o inverso dessa postura nua e crua. Deste modo, o fosso entre o período temporal que se estende entre o nascimento e a morte é talvez “salvo” quando a fantasia da narrativa converge em uma unidade entre todos os acontecimentos e todas as circunstâncias.[2]

A narrativa é responsável por criar uma certa memória capaz de dar sentido às questões que marcam nossa condição e, sobretudo, as questões que dramatizam nosso sentido. Ou, nas palavras de Sartre: “Eis o que pensei: para que o acontecimento mais banal se torne uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo”.[3] De tal forma que, apenas através de um músculo narrativo, é permitido que a vida seja constituída por um conjunto de vivências que alimentem o nosso curso no tempo.[4]

Para Proust, tal seria a missão do narrador: “Se ao menos me fosse concedido um prazo para terminar a minha obra, eu não deixaria de imprimir-lhe o cunho desse tempo cuja noção me impunha hoje com tamanho vigor, e, com o risco de fazê-los parecer monstruosos, mostraria os homens ocupando no Tempo um lugar muito mais considerável do que o tão restrito a eles reservado no espaço, um lugar, ao contrário, desmesurado (…) no Tempo.”[5]

Assim, não estamos destinados apenas à actualização, mas encontramo-nos numa relação sempre permanente e inacabada entre o passado ressuscitado e o futuro que nos é aberto.[6] Ora, a experiência da narrativa permite-nos um tempo condensado, bem como um tempo emergente. Porque a narração não é uma mera repetição mecânica do que se sucedeu, mas pressupõe proximidade e distanciamento, em que sua dinâmica nos abre sempre para a revelação.[7]

Seguramente, é aqui que podemos inserir-nos na própria lógica do Evangelho. O Evangelho não apresenta um caráter conceptual, pois Jesus não é retratado como se já estivesse predeterminado ou elaborado. Desde logo, as narrativas evangélicas dão-nos uma espécie de ímpeto permanente, o que nos permite conferir-lhe, e a cada um, um caráter narrável. Jesus vai realizando em cada situação uma revelação constante, pois a cristologia do Evangelho é narrativa.[8]

Geralmente, todas as situações se iniciam com uma interrogação, que é devolvida, e justamente desenhada num novo encontro.[9] Talvez sejam as palavras de António Lobo Antunes capazes de definir esses mesmos encontros: “Um verdadeiro livro fala-nos de nós, abre o nosso próprio interior e dá a possibilidade de cada um se rever.”

Portanto, as narrativas do Evangelho consolidam os leitores dentro de encontros, que nos levam para novas trajetórias, não só para descobrir Jesus, mas também a nós mesmos. O que esclarece o propósito de cada narrativa. Deste modo, o importante não está apenas no desfecho final, mas no envolvimento de cada um e na possibilidade de serem narrados pelo próprio trauma divino da situação. [10]

Assim, com a nossa aproximação, há uma revelação daquilo que permanecia oculto antes e deste modo passa a ter uma concretude colorida, própria e íntima.[11]

Assim sendo, o importante encontra-se na capacidade de desenvolver uma exposição que nos permite cruzar nossa vida com sua própria identidade. Quando nos conseguimos encontrar na força desse modelo, entramos em algo capaz de impor um novo sentido ao mundo, porque o Espírito permite-nos narrar.[12] A narrativa é, assim, capaz de transformar o mundo.

 

Pedro Fraga é aluno do 6º ano de Teologia no Seminário Arquidiocesano de Braga e um dos organizadores das XXXIV Jornadas Teológicas.

 

 

[1] Jean-Paul Sartre, A Náusea (Lisboa: Publicações Europa-América, 2005), 35.
[2] Cf. Byung-Chul Han, A crise da narração (Lisboa: Relógio D’Água, 2024), 50.
[3] Sartre, A Náusea, 59.
[4] Cf. Byung-Chul Han, A crise da narração, 55.
[5] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido VII – O Tempo Redescoberto (Carnaxide: Livros do Brasil, 1996), 326.
[6] Byung-Chul Han, A crise da narração, 53.
[7] Cf. Paul Ricoeur, «Entre philosophie et theologie II: nommer Dieu (1977)», em Lectures 3. Aux frontieres de la philosophie (Paris: Editions du Seuil, 1994), 288-289.
[8] Cf. Adolphe Gesché, JesuCristo, trad. José Bernal (Salamanca: Ediciones Sígueme, 2002), 40.
[9] Cf. Gesché, JesuCristo, 42.
[10] Cf. Gesché, JesuCristo, 50.
[11] Cf. Ricoeur, «Entre philosophie et theologie II: nommer Dieu (1977)», 296-298.
[12] Georges Bataille, A experiência interior, trad. António Hall e Lurdes Júdice (Lisboa: Edições 70, 2021), 193.

 

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