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As novidades nas feiras do livro para enfrentar a crise “brutal” nas editoras e livrarias religiosas

| 28/08/2020

Editoras católicas levam às feiras do livro várias novidades e antecipam ao 7MARGENS novos projectos para os próximos meses. Os certames podem ser uma forma de atenuar os prejuízos “brutais” que a pandemia e este ano atípico provocaram.

Pavilhão da Lucerna na Feira do Livro de Lisboa. Foto: Direitos reservados.

 

As editoras católicas ou que têm no livro religioso um importante segmento tentarão também, tal como todo o sector, fazer das feiras do livro das duas principais cidades portuguesas, abertas ao público desde esta quinta (Lisboa) e sexta-feiras (Porto), uma oportunidade de atenuar os danos comerciais deste ano – que chegaram a atingir perto de 90 por cento.

Várias novidades no catálogo são um elemento acrescido para as feiras tardias (normalmente acontecem em Maio e Junho) e atípicas, por causa da covid-19. Entre elas, livros do Papa e sobre a pandemia na Paulinas Editora, um de Joseph Ratzinger/Bento XVI sobre Judeus e Cristãos na Lucerna, um outro com vários comentários à exortação do Papa Francisco Amoris Laetitia, acerca da família, nas publicações jesuítas. A Difusora Bíblica regressa este ano com pavilhão próprio após 14 anos a ser representada por outras editoras, enquanto a Paulus Editora investe em mais um volume da colecção YouCat.

Nas Paulinas, os destaques são A Vida Depois da Pandemia, e Diferentes e Unidos – Com-único, logo existo, ambos do Papa Francisco (o último, terceiro volume de um conjunto sobre oração e terra, tem prefácio do arcebispo de Cantuária); e Ressurgir – 40 Perguntas sobre a pandemia, que reúne meia centena de autores portugueses que escrevem sobre o que pode ser o futuro pós-pandemia; e Falava-lhes Através de Parábolas, do padre Sílvio Couto.

Para o final do ano, ficará aquela que teria sido a “grande aposta”, mas que teve de ser adiada também por causa da pandemia: o início da publicação da colecção de obras de Edith Stein (Teresa Benedita da Cruz), já proclamada santa e padroeira da Europa, uma das grandes místicas contemporâneas. “Começaremos com A Vida de uma Família Judia e outros Escritos Autobiográficos”, diz ao 7MARGENS a irmã Eliete Duarte, directora da Paulinas.

A um ritmo de um ou dois volumes por ano, este é um projecto de longo prazo: dos 30 volumes publicados pela Herder na Alemanha, serão publicados 11. O primeiro volume tem cerca de 600 páginas e a colecção a publicar em Portugal cobre “todo o arco da obra” de Edith Stein, a carmelita que, sendo de origem judia, foi por causa disso levada para Auschwitz, onde foi assassinada a 9 de Agosto de 1942, a dois meses de completar 51 anos.

Na Lucerna, a estratégia passa por um novo livro de Joseph Ratzinger/Bento XVI. Um deles, intitulado Judeus e Cristãos, é um diálogo do Papa Bento com o rabino de Viena de Áustria. O outro é a autobiografia Enfim, Livre, de Asia Bibi, a cristã paquistanesa que esteve presa nove anos acusada de blasfémia e que, depois de absolvida em Outubro de 2018, foi viver para o Canadá com a família, em Maio do ano passado. A autora deveria ter vindo a Portugal em Março, para a apresentação do livro, mas o estado de emergência fez adiar tudo. Ambos os livros, à venda na feira, irão para as livrarias no próximo mês de Outubro.

Para os próximos meses, o director da Lucerna, Henrique Mota, diz ao 7MARGENS que está previsto outro importante projecto: a Bíblia da Amizade, que inclui os textos bíblicos comuns a cristãos e judeus, com comentários de especialistas das duas tradições religiosas.

 

“Não deixar adormecer” os textos do Concílio

Livros do Papa Francisco ou sobre o seu pensamento continuam a ser publicados em quantidade em vºárias editoras (na foto, um aspecto do pavilhão da Paulinas Editora). Foto: Direitos reservados.

 

Na Paulus, a aposta principal é um novo livro da colecção Youcat, título inglês para aquilo que pretende ser uma espécie de catecismo para os mais novos. Depois da Bíblia Jovem, da Doutrina Social Jovem e do Catecismo Jovem, agora será a vez do Curso Fundamental da Fé para os Jovens. Para os próximos meses, a Paulus prepara a publicação de uma nova biografia de Joseph Ratzinger/Bento XVI. Na feira, a Paulus representa ainda as Edições Carmelo, a Editorial Cáritas e as publicações do Santuário de Fátima.

A Frente e Verso, das publicações jesuítas, tem um título acabado de sair: Alegria e Misericórdia reúne um conjunto de 13 comentários à exortação Amoris Laetitia e à teologia do Papa Francisco sobre as famílias e que terá apresentação pública no próximo dia 11 de Setembro, na Brotéria, em Lisboa.

O leque de autores inclui vários teólogos (Andrea Grillo, Antonio Autiero, Conor M. Kelly, Philippe Bordeyne), entre os quais também alguns jesuítas (Antonio Spadaro, James Keenan, Miguel Almeida e Pablo Guerrero Rodriguez), duas teólogas (Julie Hanlon Rubio, Stella Morra) e ainda o cardeal António Marto, bispo de Leiria, o jornalista e biógrafo do Papa Francisco, Austen Ivereigh e a irmã Irene Guia, que trabalhou vários anos em campos de refugiados.

Uma nova edição dos textos do Concílio Vaticano II (1962-65) foi publicada na altura da quarentena, “para não deixar adormecer os textos”, diz o padre António Valério, director das publicações jesuítas. Uma outra novidade é A Avó Conta a Bíblia – A vida de Jesus, de Thereza Ameal e ilustrações de Isabel Girão, destinado a ser lido pelos mais velhos aos mais pequenos.

A Difusora Bíblica, dos Franciscanos Capuchinhos, regressa a um pavilhão próprio, depois de 14 anos representada por outros. Com a editora a comemorar 65 anos, um dos seus cartões de visita é a revista Bíblica, que entrou também no 66º ano de publicação.

O livro Os Animais na Bíblia, um estudo sobre a protecção da natureza, as regras alimentares e os rituais de ofertas sacrificiais no texto bíblico, é a novidade a registar, a par dos Cadernos Bíblicos, importante colecção da editora já com largos anos de publicação – além de outras obras que aprofundam temas do texto sagrado dos cristãos e poesia de frei Lopes Morgado.

 

Contrariar “ausência de política para o livro”

As novidades e a presença nas feiras do livro são duas formas de tentar atenuar perdas de um ano atípico que deixou a economia com largos problemas. Será uma oportunidade para “fazer uma grande promoção do livro em geral”, como diz a irmã Eliete Duarte, directora da Paulinas Editora, citada pela Ecclesia.

Nas editoras, a quebra do negócio “foi brutal”, diz a irmã Eliete ao 7MARGENS. “No mês de Abril a queda nas vendas foi de 85%, foi mesmo um desastre total. O mês de Maio já foi um pouco menos, na ordem dos 70 por cento”, e só a partir daí tem começado a recuperar ligeiramente. Tal como muitas outras empresas do sector, a editora teve de recorrer ao lay-off parcial, quer nas cinco livrarias, quer nos armazéns e escritórios – e o mesmo aconteceu em outras editoras.

Algumas das editoras têm também vendas importantes para os países lusófonos, que também pararam e levaram ao agravamento dos prejuízos.

Em Junho, aliás, os dominicanos anunciaram o fecho da livraria Verdade e Vida, que se concretizará segunda-feira próxima, 31 de Agosto. O sector teve quebras superiores a 80 por cento nas vendas, mas um levantamento recente feito pela Renascença calcula que, no caso das editoras católicas, elas podem ter sido ainda maiores.

Em declarações à RR a propósito da questão, Henrique Mota, da Lucerna, foi muito crítico com a ministra da Cultura, Graça Fonseca, e o que considera a ausência de uma “política para o livro”: “Há uma desatenção total, um desinteresse pela sobrevivência das empresas que estão associadas ao livro”, diz, recordando que “o livro é a indústria cultural mais significativa em termos de facturação, impacto no PIB e emprego”, seja da indústria gráfica, da distribuição, de designers, paginadores, revisores, ilustradores e autores.

Henrique Mota sugere que os apoios do Estado deveriam começar pelas livrarias: “Se o dinheiro e os apoios forem injectados a partir das livrarias, sobrevivem as livrarias, sobrevivem os editores, as gráficas e todos aqueles que trabalham à volta do livro.”

“Espaço de cultura” e debates

Promover e relançar os livros e ter esperança em dias melhores é o sentimento entre os editores. Foto: Direitos reservados.

Os jesuítas, por exemplo, tiveram, em Abril, uma quebra na ordem os 90% nos livros vendidos em livraria. A livraria digital teve um aumento interessante (20%), mas ele não foi suficiente para colmatar as perdas, diz o padre Valério. O mesmo quadro se verificou nas restantes editoras citadas.

Agora, todos eles olham para a Feira do Livro com alguma “esperança”, como diz o director da Paulus, irmão Tiago Melo, em declarações à Ecclesia. “Este certame é importante para relançar os livros que fomos publicando ao longo deste tempo”, acrescenta o padre António Valério. E frei Luís Leitão, da Difusora Bíblica, manifesta o desejo de que as feiras cumpram o seu “papel de espaço de cultura, de troca de experiência entre os editores” e os leitores.

No caso de Lisboa, a Paulinas promove debates e iniciativas praticamente todos os sábados e domingos. Entre eles, a apresentação de Ressurgir e uma conversa sobre o primeiro bispo de Setúbal, D. Manuel Martins (a lista completa pode ser consultada na agenda da página oficial da Feira).

Em Lisboa e Porto, as feiras prolongam-se até 13 de Setembro e estão em vigor regras específicas de segurança (o uso de máscara é obrigatório) e distanciamento físico. Haverá um controlo do número de “entradas” no Parque Eduardo VII (Lisboa, 3300 pessoas) e Jardins do Palácio de Cristal (Porto, 3500 pessoas), mas os organizadores prevêem que ele seja atingido apenas em algumas horas ao fim-de-semana, obrigando eventualmente a pequenas esperas.

 

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