
Ana Maria Paredes e João Marcelino contam nos próximos 10 anos mostrar na Abrigada que para o futuro do planeta “a atitude individual é decisiva”. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS
Têm mais de 60 anos, mas olham para o terreno de meio hectare repleto de ervas espontâneas em que trabalham na Cidadela – a aldeia dos Focolares na Abrigada – e falam tranquilamente dos dez anos que serão precisos para realizar o seu projeto de agroecologia. Vêm do Brasil, trazem uma longa e bem-sucedida história de agricultura e pecuária amigas do ambiente. Chegaram para provar a uma das suas filhas que o planeta não está irremediavelmente condenado. E que a atitude individual conta para mudar o futuro.
Durante mais de três décadas, Ana Maria Paredes e João Marcelino dedicaram as suas vidas à sua fazenda e às de outros, gerindo-as sempre com a preocupação de contribuir para a sustentabilidade do planeta, publicando artigos científicos, animando redes de produtores rurais dedicados à mesma causa, obtendo certidões e fazendo avançar as leis brasileiras favoráveis à agricultura familiar e à agroecologia.
Porém, o sobressalto decisivo surgiu quando uma das suas filhas – ambas trabalham na Europa – confessou não ter coragem para ter filhos, para dar vida a uma criança destinada a viver num planeta hostil, degradado e sem futuro. Eles estavam a fechar um ciclo das suas vidas e decidiram deixar o Brasil e vir para mais perto das filhas. Com o objetivo de investirem numa exploração agroecológica exemplar tudo o que tinham aprendido e feito. Para mostrar que é possível regenerar o planeta e, sobretudo, mostrar que as opções individuais contam e podem mudar o destino das coisas.
Os seus antepassados portugueses tornaram Portugal a escolha lógica. O encontro com o Movimento dos Focolares foi um acaso, mas tornou-se fundamental ao descobrirem uma convergência profunda com a ética, a procura de uma vida simples, o respeito pela natureza e a espiritualidade inspiradas na economia de comunhão da fundadora Chiara Lubich e no seu desejo de que “todos sejam um”.
‘Aterraram’ na Cidadela Arco-Íris, na Abrigada, onde contam nos próximos 10 anos mostrar naquele terreno de meio hectare que para o futuro do planeta e da sua sustentabilidade “a atitude individual é decisiva”. “Fazer a sua opção com firmeza, sem radicalismo, escutando todos e dialogando com todas as linhas de pensamento, fundamentando-se cientificamente”, porque “a gente precisa saber o que está fazendo e não falar tolices”, é, afirmam, lembrando a sua anterior experiência, “bem mais importante do que 200 pessoas juntas, falando todas o mesmo, mas cada uma procurando satisfazer o seu ego”.
Recuperar o que está degradado

“O objetivo do projeto é recuperar esta pequena área, reavendo a fertilidade do solo.” Foto © Jorge Wemans/7MARGENS
E como vai ser a transformação do campo que cultivam? “Não vamos trazer de fora matéria orgânica em volume para recuperar o solo deste terreno degradado depois de anos a ser roçado pelas máquinas – esse é o nosso ponto ‘X’!” Para não recorrerem aos fertilizantes industriais, Ana e João têm “trabalhado muito na identificação das espécies autóctones para aumentar a biodiversidade e incrementar a matéria orgânica no solo”, isto é, deixar a nascença espontânea fazer todo o seu ciclo e, assim, recuperar a fertilidade da terra.
“O objetivo do projeto é recuperar esta pequena área, reavendo a fertilidade do solo, garantindo a biodiversidade e resolvendo a questão da água”, de modo a construir “um sistema produtivo diversificado com hortaliças, ervas medicinais, árvores de fruto e as espécies [vegetais] autóctones para fazer a produção de biomassa e permitir a reciclagem de nutrientes.”
Como estará o terreno daqui a um ano? João Marcelino ri e responde: “Num ano é impossível conseguir isso. Num ano vamos ter tomates, couve-flor, morangos e algo mais que nos permita obter um pequeno retorno que nos sustente e permita viver a vida simples que desejamos. Não estamos falando de ganhar muito dinheiro, mas sim de ter um ganho que nos dê essa satisfação de uma vida simples, um ganho para a comunidade, para o meio ambiente, para o planeta, por estarmos no caminho da recuperação do terreno e da sua sustentabilidade futura.”
O fator tempo é importante. Ana explica: “Se lembramos há quantos anos o planeta (e este terreno) tem vindo a ser degradado, percebemos que vamos precisar de tempo para o recuperar… e criarmos um pequeno modelo produtivo e sustentável leva um tempo… para que tudo isto esteja equilibrado vão ser precisos dez anos – é esse o nosso prazo.”
Lugar de visitação

Um dos objetivos é conseguir que “este modelo seja replicável” e atraia outros produtores agrícolas. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS
Para o casal outro objetivo não menos importante é conseguir que “este modelo seja replicável” e atraia outros produtores agrícolas. Ao contrário do que sucedia no Brasil, em Portugal não estão inseridos em nenhum instituto de investigação, mas acreditam que vão conseguir “gerar um conhecimento empírico que pode ser interessante para outros”, pois certo, certo, é que: “Sozinhos não vamos conseguir transformar todo o mundo”.
Ana e João esperam “ter muitos percalços, muitos acidentes de percurso”, mas acreditam que vão chegar àquilo que querem: “Um misto de produção em estufa, de frutas e produtos hortícolas, mas também de plantas medicinais” porque estas “são a verdadeira farmácia viva” e querem “trabalhar a questão da saúde, não apenas na vertente da prevenção através de uma alimentação mais saudável”, mas também na “da cura” para conjugar tudo o que “é necessário a uma vida mais saudável”.
As plantas medicinais favorecem também outro objetivo do seu projeto, tornar aquele campo um lugar de visitação, um lugar conhecido, e, sobretudo, “atrair os jovens para vivências, oficinas, trabalhos de campos” em que possam “conversar sobre as questões da alimentação, da ética da agroecologia, etc… Os jovens do Movimento dos Focolares, das escolas e das paróquias mais próximas, bem como os escuteiros da região são o seu público preferencial.
No seu percurso profissional no Brasil nunca se cruzaram com movimentos católicos preocupados com o cuidar da casa comum. Budistas, associações de outras espiritualidades orientais e organizações evangélicas colaboraram em seminários, encontros e organizações de produtores. Católicos organizados, nada! Por isso se espantaram de, logo que começaram “a conversar com as pessoas da Cidadela” sobre o que queriam realizar, terem percebido que “estavam no espírito da Laudato si’” reconhecendo que “o que o Papa Francisco propõe é muito interessante, não apenas quanto ao respeito pela criação, mas também no mudar de vida fazer você perceber que pode viver feliz assim, sem o gasto todo que a vida da cidade está sempre sugerindo”.
Uma longa história e a eterna pergunta

Ana Maria Paredes e João Marcelino. Foto Jorge Wemans/7MARGENS
Licenciados em 1984, ele como engenheiro agrónomo, ela como veterinária, em tempos em que em São Paulo não existia qualquer pensamento sobre a agricultura natural, cruzaram-se com a obra de Ana Maria Primavesi, a mãe da agricultura orgânica no Brasil. De tal forma se envolveram com os princípios da agroecologia que em 1986 tinham a sua própria fazenda com produção de leite natural em que a saúde das vacas era garantida com recurso à homeopatia e à acupuntura em que, entretanto, Ana Paredes se especializara.
Os conhecimentos e a prática adquiridos, levaram-nos a estabelecerem-se como consultores e gestores de outras fazendas, seguindo sempre os mesmos princípios de uso da terra e cuidado do gado. No seu maior projeto geriam uma fazenda em Monteiro Lobato (Estado de São Paulo) com uma centena de cabeças, todas tratadas segundo os princípios da veterinária homeopática e da acupuntura.
A sua notoriedade no país foi crescendo à medida que disseminavam as práticas que seguiam, publicavam estudos, integravam grupos de investigação e ajudaram a criar institutos e organizações promotores da agroecologia. Em determinado momento já eram mais de duas centenas “os peritos” envolvidos no movimento agroecológico. “Eram já muitos os ‘doutores’, os ‘peritos’ e os egos para gerir”, tantos que Ana e João decidiram retroceder para uma vida menos exposta publicamente e mais simples, concentrando-se de novo e em exclusivo na sua fazenda original. Até que a partida das filhas para a Europa…
Ao longo destes anos, há uma questão que sempre volta e vem. É a eterna pergunta sobre a suficiência da agricultura biológica, da pastorícia natural e de outras modalidades de uso não industrializado do espaço rural: “Mas acha que a agroecologia, a agricultura biológica, dá para sustentar toda a população mundial?” João é categórico: “Com certeza! Não temos dúvidas! E falamos não só pela nossa experiência particular, mas por todas as pessoas e experiências concretas que conhecemos. A questão é outra: onde é que está a política pública para cuidar da agricultura familiar, que é onde se acolhe a agroecologia e onde se produz o que nós comemos?”
E continua: “No Brasil, para cada bilião que vai para o crédito rural, para a investigação, para os apoios à agricultura industrial, vai um real para a agricultura familiar. Agora, pegue nesse bilião e jogue aqui na investigação para desenvolver a agroecologia, para desenvolver técnicas, equipamentos e tudo o mais, para financiar a agricultura familiar e você vai ver o que acontece!”
“Veja só: nos anos sessenta, para acabar com a fome no mundo, avançámos para a ‘revolução verde’ – mecanização, fertilizantes, desmatação –, depois veio outra e outra moda, acabando agora no uso dos transgénicos. Sem transgénicos não há comida que chegue para todos! Todas as modas eram propostas como forma de acabar com a fome no mundo. Mas nunca houve tanta fome como hoje!” “Chega a ser um discurso hipócrita”, remata João Marcelino.










