As perguntas que agora nos faz o bispo Pedro Casaldáliga

| 11 Set 20

Bispo Pedro Casaldáliga Foto: Direitos reservados.

 

Conheci D. Pedro Casaldáliga em 1986, de uma maneira muito pouco convencional. Nesse ano eu vivia em São Paulo (Brasil), onde pesquisava sobre a minha tese de doutoramento em Teologia e trabalhava na Pastoral da Favela. Houve um dia, na Praça da Sé, uma concentração/manifestação de “sofredores de rua” (o nome dado naquela altura aos homeless ou sem-abrigo), de luta pelos seus direitos. Num determinado momento, alguém nos comentou, a um pequeno grupo, D. Pedro Casaldáliga estava na praça, perguntando se o queríamos saudar. Lá fomos. Tinha ouvido falar muito dele, mas não o conhecia em pessoa.

O que encontrei foi alguém muito simples, natural, convivendo espontaneamente e falando com todo o mundo, vestido de jeans e um impermeável, pois estávamos em época de frio. Num determinado momento, alguém pediu se podia dirigir, desde o palanque, algumas palavras aos presentes. E lá foi. E falou “ao povo da rua”. Ali, sem báculos nem mitras, nem anéis episcopais. Vestido de rua, como um qualquer de nós (com o tempo vim a saber que o seu báculo era um remo de pescador dos indígenas de São Félix do Araguaia, a sua mitra um chapéu de palha camponês, e o seu anel um de “tucum”: este anel representa a luta com a causa indígena e causas populares. Recordemos que este anel nasceu no tempo do Império do Brasil. Enquanto a realeza usava joias de ouro e metais, os escravos e índios, por não terem recursos para comprar este tipo de material, criaram o anel de “tucum”. Ele foi um símbolo de amizade entre si, de pactos matrimoniais, de resistência e da luta pela libertação). Pedro, sempre com @s pobres e oprimid@s.

Dias depois, Casaldáliga foi dar uma palestra na Faculdade de Teologia de Nossa Senhora da Assunção (Ipiranga-São Paulo), a Faculdade da arquidiocese naquela altura, numas jornadas de solidariedade com a libertação dos povos da América Latina. Houve depois uma concelebração com vários bispos. E, como já tinha ouvido falar mas queria confirmar, aproximei-me dele e perguntei-lhe se era verdade que todas as sextas-feiras ele fazia um jejum e oração pela situação da Nicarágua, naquela altura dos anos oitenta agredida pelos “contras”, financiados pela Administração dos Estados Unidos (Ronald Reagan). E confirmou que sim!

Na televisão, vi-o ser entrevistado no programa Roda Viva (1988), da TV Cultura de São Paulo (pode-se ver ainda no YouTube, o que recomendaria, pois sintetiza o seu pensamento e ação pastoral), quando lhe perguntaram se queria ser tratado como Dom Pedro e respondeu que bastava Pedro e até citava uma criança de São Félix de Araguaia que o chamava de Pedrinho… Chegou a dizer mesmo, com certa piada, que ele vem de um país de origem onde acontece afirmar: “Não sei o que dizes, mas, em princípio, estou contra”… O certo é que Pedro dá nesse programa muitas respostas a temas polémicos, como o seu apoio à Teologia da Libertação, à Nicarágua daquela altura, à situação do Vaticano, às suas ameaças de morte, etc. Seria bom que se visse de novo esse programa.

 

Enfim, Pedro Casaldáliga aponta a uma Igreja mais evangélica, mais simples, menos do poder, que não seja um Estado, uma Igreja mais comprometida com @s pobres e oprimid@s deste planeta. Pedro foi toda uma referência, na nossa juventude, quando quisemos ser religiosos. Juntamente com outra figura profética do Brasil: Dom Hélder Câmara. Recordamos aquele póster que muitos e muitas tínhamos na parede nos anos setenta: “Quando dou de comer a um pobre, todos me chamam santo. Mas quando pergunto porque é que os pobres não têm alimento, então todos me chamam comunista.”

Quando foi assassinado monsenhor Óscar Romero, as Comunidades Eclesiais de Base de El Salvador levavam cartazes do tipo: “Queremos mais bispos como monsenhor!”

Também poderíamos dizer agora, com a sua morte: “Queremos mais bispos como Pedro Casaldáliga”. Numa Igreja diferente.

Imagino que agora, desde o Além, ele continuará a perguntar-nos se estamos a fazer tudo o que podemos pelo Reino de Deus aqui-e-agora, em coerência evangélica!

O que é que lhe responderemos?

(Sobre a figura de Pedreo Casaldáliga, o 7MARGENS publicou uma evocação por altura da sua morte, em Agosto, e algumas memórias pessoais)

 

Precisamos de nos ouvir (25) – Fátima Almeida: A transfiguração do Desenvolvimento

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Há tempos e momentos que são mais propícios à reflexão e à interiorização, oferecendo-nos oportunidades de pensar, ou repensar, atitudes pessoais e realidades coletivas. E são estas oportunidades de refletir que, normalmente, nos abrem perspetivas de mudança, de ver novas formas de viver, de olhar novas respostas para combater injustiças, pobrezas e violações dos Direitos Humanos.

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Crónica

Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net”

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O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação de um homem ao pagamento de mais de 60 mil euros à ex-companheira pelo trabalho doméstico que esta desenvolveu ao longo de quase 30 anos de união de facto. (Público, 24-2-2021)
No acórdão, datado de 14 de Janeiro (…), o STJ refere que o exercício da actividade doméstica exclusivamente ou essencialmente por um dos membros da união de facto, sem contrapartida, “resulta num verdadeiro empobrecimento deste e a correspectiva libertação do outro membro da realização dessas tarefas”.

Breves

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Hino da JMJ Lisboa 2023 em língua gestual portuguesa

Há pressa no ar, o hino da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, tem agora uma versão em língua gestual portuguesa, interpretada por Bruna Saraiva, escuteira do Agrupamento 714 (Albufeira) do Corpo Nacional de Escutas.

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