
Bispo Pedro Casaldáliga Foto: Direitos reservados.
Conheci D. Pedro Casaldáliga em 1986, de uma maneira muito pouco convencional. Nesse ano eu vivia em São Paulo (Brasil), onde pesquisava sobre a minha tese de doutoramento em Teologia e trabalhava na Pastoral da Favela. Houve um dia, na Praça da Sé, uma concentração/manifestação de “sofredores de rua” (o nome dado naquela altura aos homeless ou sem-abrigo), de luta pelos seus direitos. Num determinado momento, alguém nos comentou, a um pequeno grupo, D. Pedro Casaldáliga estava na praça, perguntando se o queríamos saudar. Lá fomos. Tinha ouvido falar muito dele, mas não o conhecia em pessoa.
O que encontrei foi alguém muito simples, natural, convivendo espontaneamente e falando com todo o mundo, vestido de jeans e um impermeável, pois estávamos em época de frio. Num determinado momento, alguém pediu se podia dirigir, desde o palanque, algumas palavras aos presentes. E lá foi. E falou “ao povo da rua”. Ali, sem báculos nem mitras, nem anéis episcopais. Vestido de rua, como um qualquer de nós (com o tempo vim a saber que o seu báculo era um remo de pescador dos indígenas de São Félix do Araguaia, a sua mitra um chapéu de palha camponês, e o seu anel um de “tucum”: este anel representa a luta com a causa indígena e causas populares. Recordemos que este anel nasceu no tempo do Império do Brasil. Enquanto a realeza usava joias de ouro e metais, os escravos e índios, por não terem recursos para comprar este tipo de material, criaram o anel de “tucum”. Ele foi um símbolo de amizade entre si, de pactos matrimoniais, de resistência e da luta pela libertação). Pedro, sempre com @s pobres e oprimid@s.
Dias depois, Casaldáliga foi dar uma palestra na Faculdade de Teologia de Nossa Senhora da Assunção (Ipiranga-São Paulo), a Faculdade da arquidiocese naquela altura, numas jornadas de solidariedade com a libertação dos povos da América Latina. Houve depois uma concelebração com vários bispos. E, como já tinha ouvido falar mas queria confirmar, aproximei-me dele e perguntei-lhe se era verdade que todas as sextas-feiras ele fazia um jejum e oração pela situação da Nicarágua, naquela altura dos anos oitenta agredida pelos “contras”, financiados pela Administração dos Estados Unidos (Ronald Reagan). E confirmou que sim!
Na televisão, vi-o ser entrevistado no programa Roda Viva (1988), da TV Cultura de São Paulo (pode-se ver ainda no YouTube, o que recomendaria, pois sintetiza o seu pensamento e ação pastoral), quando lhe perguntaram se queria ser tratado como Dom Pedro e respondeu que bastava Pedro e até citava uma criança de São Félix de Araguaia que o chamava de Pedrinho… Chegou a dizer mesmo, com certa piada, que ele vem de um país de origem onde acontece afirmar: “Não sei o que dizes, mas, em princípio, estou contra”… O certo é que Pedro dá nesse programa muitas respostas a temas polémicos, como o seu apoio à Teologia da Libertação, à Nicarágua daquela altura, à situação do Vaticano, às suas ameaças de morte, etc. Seria bom que se visse de novo esse programa.
Enfim, Pedro Casaldáliga aponta a uma Igreja mais evangélica, mais simples, menos do poder, que não seja um Estado, uma Igreja mais comprometida com @s pobres e oprimid@s deste planeta. Pedro foi toda uma referência, na nossa juventude, quando quisemos ser religiosos. Juntamente com outra figura profética do Brasil: Dom Hélder Câmara. Recordamos aquele póster que muitos e muitas tínhamos na parede nos anos setenta: “Quando dou de comer a um pobre, todos me chamam santo. Mas quando pergunto porque é que os pobres não têm alimento, então todos me chamam comunista.”
Quando foi assassinado monsenhor Óscar Romero, as Comunidades Eclesiais de Base de El Salvador levavam cartazes do tipo: “Queremos mais bispos como monsenhor!”
Também poderíamos dizer agora, com a sua morte: “Queremos mais bispos como Pedro Casaldáliga”. Numa Igreja diferente.
Imagino que agora, desde o Além, ele continuará a perguntar-nos se estamos a fazer tudo o que podemos pelo Reino de Deus aqui-e-agora, em coerência evangélica!
O que é que lhe responderemos?
(Sobre a figura de Pedreo Casaldáliga, o 7MARGENS publicou uma evocação por altura da sua morte, em Agosto, e algumas memórias pessoais)









