As prateleiras vazias

| 23 Nov 21

Prateleiras vazias. Londres

“Confesso que custa ver clareiras nas prateleiras. Sobretudo para quem, na sua vida adulta, passou a assumir que a abundância é a normalidade.” Foto: Supermercado com prateleiras vazias, Inglaterra. © Luís Pereira.

 

 

Teria eu uns 6 anos quando um dia o meu pai trouxe para casa uma pasta de chocolate Jubileu. Creio que a terá ganho num torneio de cartas, daqueles que se fazem nas aldeias, para angariar fundos para as festas da paróquia. Lembro-me bem disso porque não era nada normal termos acesso a essas lambarices. Na minha memória, o chocolate terá durado uns dias, ou semanas, porque o dividimos em pequenos pedaços. Para render e saborear.

Se me lembro disso, é porque foi de facto um acontecimento. Agora, quando conto esta história ao meu filho mais velho, ouve-a mas sem perceber o que significou para mim. O mesmo acontece quando lhe dizemos que, dantes, se ia buscar rebuçados e outros doces a Espanha. Porque não havia nas nossas lojas. Tudo isto soa estranho para quem não viveu nesse tempo. Como a mim me soa distante quando os meus pais me falam que cresceram em ambientes de pouca fartura (eufemismo de fome, na verdade).

Nos últimos tempos, em Inglaterra, tem-se assistido a várias cenas de míngua de recursos. Na primeira vaga da pandemia, o mais emblemático foi a falta de papel higiénico. Mais recentemente, as bombas de gasolina ficavam constantemente sem combustível, gerando enormes filas de espera e disrupção em quase todos os setores que disso dependem. A alimentação foi um dos mais afetados – desde a agricultura, passando pelo frio para a conservação de alimentos – e as prateleiras vazias são agora habituais nas visitas aos supermercados. Para quem prefere comprar online, demora dias a encontrar um horário para entrega. E, depois, pode haver cancelamentos ou há produtos que ficam por entregar porque não estavam disponíveis.

Confesso que custa ver clareiras nas prateleiras. Sobretudo para quem, na sua vida adulta, passou a assumir que a abundância é a normalidade.

Tive um colega de trabalho muçulmano que quando, por altura do Ramadão, fazia jejum, dizia-me que fica com o olfato muito mais sensível ao cheiro das comidas, durante o dia. Naturalmente não advogo que teremos de passar fome, sobretudo involuntária, para valorizar a comida. Mas acredito que a oferta em excesso me tem toldado a possibilidade de realmente apreciar a dádiva dos alimentos. Aliás, não deixa de ser curioso que se fale, por exemplo, em jejum intermitente, como um dos métodos para manter um estilo de nutrição mais controlado.

Nos mais recentes eventos em que se discutem as mudanças climáticas, tem-se chamado a atenção para o facto de haver determinados alimentos que são especialmente perniciosos no que toca aos recursos utilizados. Há também uma tendência para valorizar o que é local e biológico. Vejo, nas redes sociais, figuras públicas a mostrarem que têm, ou gostariam de ter, uma horta para produção caseira de alimentos. Tendo eu crescido numa aldeia, ter uma horta era a norma. Mas houve fases em que as mentalidades se foram alterando. A certa altura, a moda ditou que era melhor comprar no minimercado local a cultivar-se a terra. Aliás, lamentava-se que as frutas e os legumes caseiros não fossem como os comprados. Maiores e com menos imperfeições.

Mas a prova de que o mundo avança a velocidades muito distintas é a polémica causada por um novo restaurante em Londres. Trata-se de uma casa de bifes do empresário turco famoso pela sua imagem de marca de deixar o sal escorregar pelo cotovelo até aos pratos que trincha em frente aos clientes. Este novo restaurante de Nusret Gökçe, mais conhecido como Salt Bae, foi então notícia pelos preços praticados. Um dos pratos, um bife que vem coberto com folhas de ouro, pode custar mais de 1500 euros. Alguns clientes partilham nas redes sociais a conta. Uma delas ascendia a mais de 37 mil libras (mais de 40 mil euros) por uma refeição para um pequeno grupo de pessoas. Apesar dos preços exorbitantes, diz-se que o restaurante tem uma lista de espera de meses.

Imagino que quem passe por lá fique com uma boa história para contar. Dispendiosa, pelo menos, será. Mas tenho sérias dúvidas de que possa ser tão rica e saborosa quanto a minha experiência com o chocolate jubileu.

 

Luís Pereira, pai de dois filhos, reside em Inglaterra desde 2012, depois de ter concluído o doutoramento em educação para os media na Universidade do Minho. Desempenha funções na área da pedagogia e da educação digital.

 

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