As preferências de Francisco – “C’est la confiance”

| 25 Out 2023

Santa Teresinha

 “A confiança no amor misericordioso de Deus deve, pois, ser pedida e procurada pelos cristãos com humildade e simplicidade, condições essenciais para a abertura à graça divina.” Foto: Santa Teresinha. Retirada do site: https://comshalom.org

 

No dia que a Igreja Católica Romana celebra liturgicamente Santa Teresa de Ávila (no passado dia 15 de outubro), o Papa Francisco deu ao mundo uma exortação apostólica denominada C’est la Confiance (“É a confiança”), por ocasião do 150º aniversário do nascimento de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, que considera ser “um fruto maduro da reforma do Carmelo” (nº 4). O documento é absolutamente esclarecedor quanto às preferências de Francisco para a vivência da fé na atualidade, deixando a descoberto algumas das tentações com que os cristãos se debatem e para as quais sugere os respetivos antídotos.

O Papa Francisco exorta para o “regresso ao essencial” (nº 46): o centro moral é a caridade e as obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito (nº 42), considerando este ensinamento da Igreja o mais atraente e ao mesmo tempo o mais urgente e o mais constitutivo para a vida cristã. Neste ponto, Francisco denomina Santa Teresinha de Lisieux como “Doutora da Síntese”, em contraponto com S. Tomás de Aquino, que considera um “Doutor da Análise”.

Na vivência desta essencialidade, o Papa sugere que o olhar dos cristãos se detenha e comprometa mais com Jesus e o Evangelho, e a mensagem salvífica do amor infinito de Deus, sempre vencedor em relação ao pecado do homem, que, por maior que seja, é sempre finito. A confiança no amor misericordioso de Deus deve, pois, ser pedida e procurada pelos cristãos com humildade e simplicidade, condições essenciais para a abertura à graça divina.

Como já tinha alertado noutras exortações apostólicas[1], o Papa Francisco pede aos cristãos um sério exame de consciência sobre a forma como vivem a fé, interrogando especificamente se não confiam demasiado nas suas forças, nos seus méritos, na própria capacidade de alcançar a santidade; ou na confiança num certo conhecimento da fé, em formas normativas de a viver, como se, por si mesmas, pudessem assegurar a santidade, dispensando o impulso do amor dado pelo Espírito Santo.

Nestes dois erros, denominados pelo Papa como pelagianismo e gnosticismo, a vontade e a inteligência humana ocupam o lugar do mistério e da graça, conduzindo ao individualismo, elitismo, ao ascetismo mais do que ao misticismo, à prioridade do esforço humano ou do conhecimento humano sobre a graça divina.

Para ajudar ao exame de consciência sobre estes desvios na vivência da fé, o Papa alerta para as suas manifestações: autocomplacência egocêntrica e elitista, obsessão pela lei, ostentação no cuidado litúrgico, atração pela realização autorreferencial, a submissão da vida da graça a certas estruturas humanas, “tornando-nos escravos de um esquema que deixa poucas aberturas para que a graça de Deus atue”[2].

Colocando o olhar sobre o “pequeno caminho” de Santa Teresinha, o Papa Francisco considera-o imitável e idóneo para qualquer cristão conseguir superar as tentações e os desafios colocados pelo tempo presente, que enumera: egoísmo, individualismo, autorreferencialidade, superficialidade, busca de poder e grandeza, descarte dos outros, complexidade, entrincheiramento e reclusão.

Revelando as vias de superação, o Papa Francisco aponta para este pequeno caminho teresiano, com raízes tão evidentes no rosto de Cristo e no Evangelho: o primado do amor, a simplicidade, a confiança e o abandono, a atração de Cristo e do Evangelho, a vida assumida como dom, a radicalidade evangélica, o poder da intercessão, a humildade, o cuidado do próximo e o enorme poder da ternura.

Com este documento, o Papa volta a pedir aos cristãos para simplificarem a sua existência superando a lógica legalista e moralista que enche a vida de obrigações e preceitos e “congela a alegria do evangelho” (nº 52), comprometendo-se em “saída missionária”, onde o protagonista é sempre Deus e a Sua graça.

 

[1] Cf. por exemplo, Evangelli Gaudium, nº 94 e Gaudete et Exultate, nºs 47-62
[2] Gaudete et exultate, nº 59.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com

 

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