Por isso é que eu digo que é uma espécie de tudo ao mesmo tempo. É uma espécie de abrigo sob mão protetora e vulnerável na mesma medida, é ou não é?
De tão fraquinho que a gente sente que é, nunca se aventura a lutar briga de pontapés. O medo a zeros, descansado de confiante, mesmo sabendo da fragilidade inteirinha da nossa parte. Cometer errâncias, quantas quiser, sem resultar em se magoar. É ou não é?
Ser o primo mais novo de uma geração é uma espécie de ser tudo ao mesmo tempo. Bom e mau tal e qual unha e carne da nossa vivência. Forte e fraco. Abandonado e protegido. Corajoso e medricas. É ou não é?
Durante dez anos (quase isso), fui a prima mais nova de uma geração inteira da família, tudo meninas. Foi só depois desse tempo que sucedeu de a Filipa e o Guilherme nascerem, já não contava. Ter um primo e uma irmã nessa distância toda dos anos altera o grau de parentesco. O Guilherme e a Filipa eram como se fossem meus filhos precoces – de levar e buscar ao infantário, pela mão dada, de adormecer ao colo, de dar a sopa na boca com colher de aviãozinho.
As outras não. A Vânia, a Susana, a Sandra e a Rita (minha irmã, esta) eram primas de grau mais condizente com o conceito. Cinco anos apenas separavam a gente umas das outras, digo, da mais velha à mais nova; o resto, pelo meio, entremeando-se por um ou dois anos cada. Cinco anos na infância é pouca distância parecendo muita.
Quem sofreu fui eu, sofri de mentira, da boca para fora, só. É jeito de sofrer sem saber que se sofre – uma espécie de ilusão. Enganei sendo enganada, era batota delas.
E eu perguntava porque é que tinha de ir para a cama mais cedo se, afinal, todas éramos as netas da mesma avó. A avó dizia: “Porque amanhã tens de acordar antes do sol e de elas todas, se quiseres ir à pesca com o avô, só tu é que vais, mas não digas nada, elas não podem saber”. E eu guardava aquele entusiasmo de suspense, acreditada no valor do segredo só meu e da avó. Elas, as mais velhas, haviam de estar de risos contra mim, no sofá da televisão, lá em baixo, a ver os Jogos Sem Fronteiras, que dava a horas de eu não poder ver ainda.

“Elas, as mais velhas, haviam de estar de risos contra mim, no sofá da televisão, lá em baixo, a ver os Jogos Sem Fronteiras, que dava a horas de eu não poder ver ainda.” Foto: Jogos sem Fronteiras em Trento, 1998. RTP Memória.
Mas eu, não sabendo desse riso contra mim, era feliz por ser a única a ir com o avô à pesca. Eu era de confiança cega do avô, seu braço direito, medalha de ouro ao pescoço, eu levava.
É, ser primo mais novo de uma geração é ser tudo sendo tão pouco. É ou não é?
Chegadas da praia, o banho era no quintal, por mor das areias não causarem entupimentos nos canos da casa. Eu era a primeira, logo. Mas não queria, banho frio era coisa para dar sofrimento ao corpo, preferia ficar salgada de algas, mesmo. A avó dizia: “Anda, Sofia, vem primeiro, depois comes a sopa enquanto elas tomam o banho e, quando acabarem, faz de conta que nem comeste sopa, a avó esconde o prato, faz de conta que só elas é que são obrigadas a comer a sopa, tu não”.
Eu chorava um pouco, mas não era de tristeza, era só de frio daquela água da mangueira à sombra, no quintal de trás. Depois, engolia a sopa desgostada do sabor. A seguir vinham as mais velhas e iam pensar que a avó me adorava mais do que a elas, que eu não precisava de comer a sopa, podia logo saltar para as batatas fritas. Iam-se invejar todas de mim, iam querer ser a mais nova, mas esse era meu e só meu estatuto.
Ser o neto mais novo de uma geração inteira é coisa boa de se viver, não é? A gente acredita que, mesmo sendo o mais fraco, é o mais forte. Mesmo tendo sido o último a chegar, é o mais amado. Mesmo sendo o que tem a cabeça menor, é o mais esperto. E os mais velhos, de uma bondade divina connosco, nunca revelando os enganos. Até ao dia em que a gente, já velhos de adultos, relembra todas as coisas e desvenda finalmente os segredos; tanto tempo depois, que já nem dá pontinha de vontade de guerrear. Vontade, mesmo, só de rir e chorar na mesma medida da lembrança.
Ser a neta mais nova da geração era o único lugar que eu conhecia no reinado dos avós, castelo abençoado de longa escadaria rumando aos nossos quartos todos. Lugar de sonhos.
Eu queria a intelectualidade da Susana, a extroversão da Vânia, a rebeldia da Sandra, a maturidade da Rita; tudo isso eu queria olhando de longe, na impossibilidade de lá chegar. Aquele misto de orgulho e inveja. Como se eu fosse aquilo que sobrava de todas elas. Mas eu não era sobra nenhuma, isso era coisa das imaginações da minha cabeça, eu era sim a causa da diversão. O caçula traz alegria a uma casa, descobri depois. Essa coisa de primo mais novo é como ser um bobo sem querer sê-lo, na ingenuidade dos começos da vida, mas só que cheio de amor e carinhos ao invés da humilhação da corte.
Às tantas, mais ou menos sem a gente se dar conta da atrapalhação do tempo que acontece, parece que os anos se desregulam e os mais novos deixam de ser mais novos. Há uma espécie de encolhimento da vida tentando nivelar a geração.

“Quando a Sandra morreu, já não éramos as crianças do banho de mangueira e da sopa por obrigação, mas ainda éramos a primeira geração de netas. Eu desconhecia a morte. Não sei o que mais me apavorou, se conhecer a morte na juventude, se ver os meus avós engolidos pela profunda tristeza.” Foto: Sandra com fato de carnaval. DR
Sem que esperássemos, na brutalidade dos infortúnios, perdeu-se alguém antes da data prevista. Quando a Sandra morreu, já não éramos as crianças do banho de mangueira e da sopa por obrigação, mas ainda éramos a primeira geração de netas. Eu desconhecia a morte. Não sei o que mais me apavorou, se conhecer a morte na juventude, se ver os meus avós engolidos pela profunda tristeza. Tristeza tão grande de chegar ao tamanho que eu nunca tinha visto. Não sabia sequer que os avós estavam aptos para o desfalecimento. Na cabeça da gente os avós são inchoráveis, inquebráveis, infalíveis, irredutíveis. Ver o avô de olhos pregados ao chão na porta da igreja, sem restinho de nada que o alegrasse, foi um susto maior do que ver a Sandra assim, apagada, toda sem mais rebeldia nenhuma por aprontar, dentro daquele caixão, sossegada como nunca a gente esteve nos dias da infância. A avó de rosto desfigurado pelas lágrimas, incapaz de aguentar tamanha punhalada de deus, o ar a escassear-lhe na respiração, o corpo a desejar o abraço da neta que já não existia, as mãos tremidas a percorrer o terço com desconfiança.
Parece até que me esqueci da Sandra, eu só queria pegar a avó ao colo, segredar juras de amor e cuidado, prometer virar duas netas em vez de uma que sou, se fosse preciso, para amenizar o seu tormento, talvez erradicar-lhe metade da dor instalada.
Avó não pode sofrer assim, é judiação de deus, é coisa da maldade, dos infernos. A dor da avó doendo na gente todas, de ricochete, a gente a querer a Sandra de volta para regularizar o débito do prejuízo causado à nossa alegria. Tudo em vão, como a certeza de que nenhuma prece faz brotar um milagre.
Foi sem jeito, ter de aprender a respeitar o lamento da avó. Dor daquelas a gente não pode imaginar o tamanho, a vida acontecendo ao contrário sem merecimento das personagens. É de endoidecer. A minha prima toda agredida por um acidente de carro, e sem culpa de ninguém em quem a gente pudesse descarregar a raiva, foi pneu furado. Só deu para ofender o destino mesmo, mais nada. Os sonhos todos ainda por lhe acontecerem. Demorou um bocado para eu resgatar a crença em Deus. Ainda hoje fica esse pedacinho de dúvida entalado na minha devoção.
Das netas mais velhas dos meus avós, sobraram a Rita, a Vânia e a Susana. Aliás, verdade seja dita, eu deixei de ser a mais nova, estamos todas com a mesma idade. Aquela idade em que só nos encontramos uma vez por ano, para relembrar o mesmo filme, todo o santo ano.
A meninice inteira resumida num jantar a trinta e cinco anos de distância.
O Tom Sawyer na RTP2 ao final da tarde, o jindungo em cima da mesa para castigar a língua de quem dissesse asneiras, a mangueira do quintal para o banho frio depois da praia, os jogos de tabuleiro onde eu perdia sempre – birras sentidas, as pipocas para os Jogos Sem Fronteiras, as sessões de fotografia com a máquina do avô (poses dos anos 90, franjas e calções de licra muito floreados, lindo de se ver), a vizinha a dançar a Lambada e nós a espreitar pelos buraquinhos da persiana, o mini vermelho do avô, a 4L do tio a fazer ploc na soltura dos pedais, o cinema do avô, os dias inteiros no parque aquático sob a vigilância ineficaz da avó, a comida a sobrar por todos os lados, as histórias de África, as mesmas perguntas, as mesmas respostas, o gelado Pé, a primeira consola com pistola de matar patos (hoje estaria proibida, passaram quarenta anos e não matámos nenhum pato de verdade), os primeiros livros – As Histórias do Avôzinho, os móveis da Barbie que o avô fazia igual para todas – da perfeição aos pormenores, as canecas coloridas – cada uma com a sua cor, os sete gatos, os três cães, os canários, os discos do avô – tango argentino, as novelas da avó, o amor, o amor, o amor, o amor infinito até depois da despedida.
Agora eu não sou nem mais velha nem mais nova do que nenhuma prima ou irmã, chega um dia em que a idade se desvanece no universo do patamar genealógico. Hoje eu tenho uma filha e quatro sobrinhos, a mais velha da geração é a minha filha, a mais nova é a minha sobrinha Aurora Sofia. Pergunto-me se significarei para eles o que as minhas tias significaram para mim, uma alegria de saltar o coração sempre que chegavam a casa da avó. Era um querer pular-lhes no colo, ouvir-lhes as histórias, contar-lhes mentiras brotadas da minha imaginação – tentativas de fazer de mim mais do que eu era, jogar às cartas e fazer a batota possível para lhes ganhar enquanto fingiam que não viam.

“Como é que a gente consegue resumir tantos anos, tanta vida, num pedaço de memória? Como é que a gente consegue estrangular essa saudade para que todos os dias não sejam lágrimas indomáveis da vontade de rebobinar o tempo?”
Eu pergunto-me: Como é que a gente consegue resumir tantos anos, tanta vida, num pedaço de memória? Como é que a gente consegue estrangular essa saudade para que todos os dias não sejam lágrimas indomáveis da vontade de rebobinar o tempo? Como é que a gente consegue não ir ao cemitério tentar resgatar a Sandra e voltar à idade de onde ela nunca saiu? Como é que a gente consegue – tão eficazmente – fazer de conta que envelheceu? Como é que a infância nos é roubada com pleno e negligente consentimento nosso?
Isto é uma espécie de tudo ao mesmo tempo, força e fraqueza, resignação e luta, conforto e desproteção, arrogância e humildade, saudade e expectativa … tudo na mesma medida, é ou não é?
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro o livro de poesia “Tempo”.










