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autores - Serafim Falcão

[Entre Margens]

As primeiras palavras de tomada de posse

| 21/04/2026

 

As primeiras palavras de alguém são as mais esperadas, melhor registadas, que ficam e permanecem.

Estou atento às primeiras palavras que os pastores (bispos) da Igreja Católica proferem na sua tomada de posse.

Tais palavras serão uma alavanca impulsionada pela aragem nova e fresca, marcando as diferenças ao que se está habituado – a “quotidianidade” – evitando-se que se perca a oportunidade “de usar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária que não pode deixar as coisas como estão… não nos servindo, neste momento, uma simples administração”. (Evangelii Gaudium, 25)

Fiquei bem impressionado e esperançado pela proposta daquele que, ao saber da sua nomeação, disse: “Primeiro, vou ouvir as pessoas”; nunca tal me constou. Anos depois, na sua despedida, disse, sabendo-me a pouco: “O que mais me impressionou, a melhor recordação dos anos à frente deste povo, foi a passagem [da imagem] de Nossa Senhora de Fátima pela diocese.”

Gostava que esse “estudo” fosse feito por pessoas competentes e habilitadas e bem documentadas, que não eu; espero que este texto sirva de sugestão.

Refiro-me apenas a algumas tomadas de posse destes últimos anos.

De um modo geral, são mensagens de saudação aos padres, aos fiéis e, muito particularmente, aos jovens, às pessoas em geral e às várias confissões religiosas; de agradecimento ao Papa, aos colegas no sacerdócio e, agora, no episcopado; de compromisso e promessa de se dedicarem ao serviço de Deus e da Igreja e de todos, na partilha de alegrias e tristezas, no caminho da vida e da fé. Em suma, mensagens de piedosas, rectas, vagas e até poéticas intenções…; ficar-se por aqui, é muito pouco para um pastor…

Surgem-me logo as perguntas: “Mas o que vens fazer? Qual o teu projecto pastoral, o que tens de renovador e actualizar no que se refere ao clero, à evangelização, à animação comunitária para os leigos? Que importância dás aos decretos, às exortações pastorais do Papa, à Evangelii Gaudium, Laudato Si’, Dilexit Nos, ao ano sinodal, ao ano jubilar, à exortação apostóloca Dilexit Te… em suma, à renovação, à diferença entre o antes e agora, nas palavras do número 25 da Evangelii Gaudium, já citado?

Apenas algumas referências, como exemplo do supra já dito:

1.  “As minha primeiras palavras, para todos… Palavras de saudação… serviço… disponibilidade para escutar e agir, para o bem de todos”: “minha primeira tarefa… conhecer a realidade humana e cristã… sou bispo… não sou político (é verdade, mas a situação actual não deve ser muito diferente da que deixaste); evangelizar, celebrar os sacramentos, conduzir o Povo de Deus, como bom pastor (não podia ser de outro modo). “O Papa aponta-nos uma dupla tarefa: construir comunidade cristã e evangelizar (é tarefa primeira de um bom pastor, mas não diz como)… “os dois aspectos da missão em que todos devemos procurar cumprir, todos os cristãos, todos – leigos, sacerdotes, religiosos e como é óbvio o próprio bispo… todos empenhados, conto com todos”. “Serei pastor… umas vezes à frente a abrir caminho, atrás cuidando que ninguém fique fora, no meio do rebanho animando a todos… com humildade e ousadia” … Seguem-se diversos agradecimentos e termina dirigindo-se à comunicação social.

Mas, de concreto, o que vem fazer nos diversos aspectos pastorais? O que há de novo na dinâmica, na concretização do referido? Que diferença ou de continuidade, em determinados pontos, do anterior?

2. Este outro apresenta-se como quem chega “sem programa na manga, mas com sonhos”, para um caminho que quer “partilhar com as realidades vivas em diálogo com a sociedade”; “gostaria, juntamente com os diversos órgãos da diocese, de podermos encontrar um programa”.

3. Um outro: “Eu quero ser bispo. Sei que estamos cá para fazer o mesmo: o bem comum da comunidade que servimos, no respeito pelo trabalho, pelo empenho e pela função de cada um”. Este, pelo contrário, prometeu “arregaçar as mangas” para que ninguém se sinta abandonado” ou “se sinta para trás.” “Convosco, com cada um de vocês quero descobrir os sonhos de Deus… e juntos vamos conseguir identificar os nossos sonhos, vamos lutar.”

Não diz o que vai fazer pelos “nossos sacerdotes”; apenas que “merecem a nossa oração e a nossa bênção, merecendo a maioria a nossa homenagem”.

Ao povo, em geral, não prometeu “absolutamente nada”, quer conhecer “olhos nos olhos”, “coração a coração”. “vamos ter de fazer trabalho; começo já amanhã às nove horas da manhã”.

Aos jornalistas, falou não tanto como Pastor, mas como sociólogo e economista – que também o deve ser – salientando a razão que impede que cheguem à Região, “milhões e milhões “de euros… e denunciando situações em que se ganha” milhares de euros, durante vários anos. Nota-se no discurso, nas palavras, no estilo, a veemência e a indignação, em confronto com a calma, o vago, o elogio pastoral, na diferente análise pastoral que fez da situação da diocese… E, na diocese, não haverá situações pastorais a denunciar?…

Para terminar, uma das últimas tonadas de posse… Ao povo: “Chegou a hora! Vamos, mãos à obra, a nossa querida igreja… desta diocese…, tomou posse de mim! Sou vosso! Convosco sou cristão, para vós sou bispo… tanto o entusiasmo do cimo da montanha como o quotidiano da vida no planalto serão os passos”, aludindo ao Jubileu, “que vão guiar todos como ‘peregrinos da Esperança’”.

Dirigindo-se ao clero: “Não se deve considerar uma classe, um vestido ou ordem social, uma corporação, uma elite… não somos parte do povo, mas somos povo, não estamos fora do povo, mas no meio do povo”. Que plano traz, de concreto?

Dirigindo-se à diocese: vós sois portadores de uma herança, vós sois guardadores de um tesoiro; vós sois depositários de uma esperança”. Tal como os outros: “Por isso não trago um plano de acção para vos apresentar, Vamos construí-lo juntos”.

Aos jovens: “conta também com o dinamismo e inquietação” Mas estes ficam sem saber o que contam do seu bispo; apenas “partir do caminho já percorrido, multipliquemos entre nós espaços de convívio e proximidade em Cristo para que as perguntas e as procuras possam ir encontrando resposta”. Apetece-me perguntar: Afinal o que vem fazer este pastor? Onde me posso encaixar, para colaborar, para “caminhar junto”?

Com os párocos acontece o mesmo, regra geral, acompanhados pelo seu bispo, e bem…

José Francisco Sanches Alves, arcebispo emérito de Évora. Foto © SPM TV Alentejo / Wikimedia Commons

Seria útil, para o trabalho do novo Pároco, que este, perante o senhor bispo e toda a gente, apresentasse o seu programa pastoral.

Imagine-se que um político, na sua tomada de posse, se apresentava nos termos supra referidos…

Em conclusão, algumas observações, diria sinodais – o meu modo de “caminhar junto”: haja uma pastoral de actos, de acções de informação e de formação, com estímulos de despertar o interesse, a sede, no sentido de “se conhecesses o Dom de Deus…” (João 4:7); concretizem a Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. Está lá tudo para a renovação da pastoral paroquial.

Se, como disse D. José Alves, arcebispo emérito de Évora, numas jornadas de formação e actualização sobre o perfil do sacerdote, “urge modificar os métodos de trabalho”, parece-me que urge também alterar os métodos das tomadas de posse dos bispos e dos párocos, bem como a missão da Rádio Renascença, estando presente nestes locais e nestas ocasiões, entrevistando, informando e formando, debatendo a mensagem do bispo e do pároco, em concreto.

 

Serafim Falcão é professor aposentado do Ensino Secundário e autor de A Alegria do Evangelho na nossa Paróquia, baseado na exortação apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, e de outras publicações e artigos. Contacto: s.m.falcao@gmail.com

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