Em bom rigor, as primeiras palavras públicas do Papa Francisco, depois de declarada a sua eleição pelos cardeais reunidos em conclave, foram, em italiano, fratelli e sorelli, buonasera – “irmãos e irmãs, boa noite”. Mas depois disso, mesmo antes das suas exortações apostólicas e encíclicas, houve momentos em que incluiu nos discursos ou homilias determinadas expressões que nos fazem pensar e que marcam o sentido do seu ensino.
Na sua primeira visita pastoral fora de Roma, mas ainda em território italiano, o Papa Francisco foi, a 8 de Julho de 2013, à ilha de Lampedusa, que se tinha tornado uma das principais portas de entrada, na Europa, dos refugiados que vinham do norte de África e do Médio Oriente. Na homilia durante a missa pelas vítimas dos naufrágios, criticou a “cultura do bem-estar” que nos leva à indiferença pelos outros e condenou a “globalização da indiferença”, que nos tira até a “capacidade de chorar” pelos que morrem à nossa frente.

Papa viagem lampedusa sauda migrantes, Foto: Vatican News
Esta expressão, “globalização da indiferença”, aparece três vezes no texto da homilia, na qual o Papa Francisco cumprimenta a presidente da Câmara de Lampedusa, Giuseppina Nicolini – que em Novembro de 2012, seis meses depois de ter sido eleita para este cargo, enviou uma carta aberta à União Europeia descrevendo a chegada dos corpos de emigrantes naufragados às suas praias e perguntando que dimensão devia dar ao cemitério local…
Numa entrevista que deu na Casa de Santa Marta ao padre jesuíta e autor Antonio Spadaro, a 19 de Agosto desse mesmo ano de 2013, o Papa Francisco descreve o que deve ser a Igreja como prestadora de cuidados e “hospital de campanha”.
Aqui se reproduz o parágrafo que propõe esta imagem muito forte:
“Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas… E é necessário começar de baixo.”
Vale a pena recordar aqui a origem dos hospitais de campanha na guerra da Crimeia de meados do séc. XIX (1853-1856), onde se destacou a enfermeira Florence Nightingale, e na Grande Guerra 1914-1918, onde se generalizou o princípio da “triagem”.
Uma única família

O Papa Francisco e o patriarca ortodoxo Bartolomeu com refugiados, em Lesbos, em Abril de 2016. Foto: Direitos reservados.
Na celebração pública do domingo 6 de Setembro de 2015, na Praça de São Pedro, o Papa Francisco inclui um apelo ao acolhimento dos refugiados, começando por dizer que, “perante a tragédia de dezenas de milhares de refugiados que fogem da morte devido à guerra ou à fome, e estão a caminho rumo a uma esperança de vida, o Evangelho chama-nos, pede-nos que estejamos ‘próximos’, dos mais pequeninos e abandonados.”
O parágrafo que se segue é explícito: “Portanto, ao aproximar-se o Jubileu da Misericórdia, dirijo um apelo às paróquias, às comunidades religiosas, aos mosteiros e aos santuários de toda a Europa a expressar o aspecto concreto do Evangelho e a acolher uma família de refugiados. Um gesto concreto em preparação para o Ano Santo da Misericórdia.” E repete: “Cada paróquia, cada comunidade religiosa, cada mosteiro, cada santuário da Europa hospede uma família, começando pela minha diocese de Roma.”
O texto adianta que as duas paróquias do Vaticano vão acolher duas famílias de refugiados. Será que este apelo foi seguido em todas as dioceses católicas da Europa?
E no ano seguinte, durante a visita que fez, a 16 de Abril, acompanhado pelos dignitários ortodoxos Hieronymos, arcebispo de Atenas e de toda a Grécia, e Bartolomeu, Patriarca Ecuménico de Constantinopla, ao campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, definiu o que via como “grave crise humanitária” e dirigiu-se aos refugiados deste modo: “Muitos de vós sentiram-se obrigados a escapar de situações de conflito e perseguição, sobretudo por amor dos vossos filhos, dos vossos pequeninos. Suportastes grandes sacrifícios por amor das vossas famílias.” E mais adiante: “Deus criou o género humano para ser uma única família; quando sofre algum dos nossos irmãos ou irmãs, todos nos ressentimos. Todos sabemos por experiência como é fácil, para algumas pessoas, ignorar as tribulações dos outros e até aproveitar-se da sua vulnerabilidade; mas sabemos também que estas crises podem fazer despontar o melhor de nós mesmos.” “Viste-lo em vós próprios e no povo grego, que, apesar de imerso nas suas próprias dificuldades, respondeu generosamente às vossas necessidades.”
Voltou a este tema em 5 de Novembro do mesmo ano de 2016, num encontro mundial de movimentos populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, onde, entre outras coisas, disse: “O que acontece com o mundo de hoje que, quando se verifica a falência de um banco, imediatamente aparecem quantias escandalosas para o salvar, mas quando ocorre esta falência da humanidade praticamente não aparece nem uma milésima parte para salvar aqueles irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo tornou-se um cemitério, e não apenas o Mediterrâneo… muitos cemitérios perto dos muros, muros manchados de sangue inocente. Nos dias deste encontro, quantos são os mortos no Mediterrâneo?”
Silas Oliveira










