As razões políticas que atrasaram a canonização de Bartolomeu dos Mártires

| 10 Nov 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Últimas

Fr. Bartolomeu dos Mártires

 

O processo de canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, que quando morreu era já conhecido como arcebispo santo, demorou mais de quatro séculos também por razões políticas: o bispo conciliar era suspeito de simpatizar com o rei de Espanha (os seus últimos dez anos de vida coincidem com a ocupação do trono português pela dinastia filipina), o que não seria verdade. Por isso, a causa foi protelada no início e continuaria a sê-lo com o Marquês de Pombal, que proibiu as obras do arcebispo.

Factores como a extinção das ordens religiosas (1834), perturbações na Cúria Romana depois do fim dos Estados Pontifícios (1870) e a revolução republicana em Portugal (1910) também não ajudaram a que a possibilidade da canonização prosseguisse.

Bartolomeu dos Mártires foi arcebispo de Braga por pressão do seu amigo, frei Luís de Granada, espanhol que, em 1558, era o provincial dos dominicanos portugueses. A primeira escolha do Papa e da rainha D. Catarina para o cargo era o próprio Granada e só depois de muita insistência Bartolomeu aceitou ser nomeado.

Bartolomeu Fernandes Vale nasceu em Lisboa a 3 de Maio de 1514. Baptizado na Igreja dos Mártires, daí recolhe o apelido com que fica conhecido. Aos 14 anos, foi para o noviciado do Convento de São Domingos de Lisboa. Em 38 já ensinava Teologia, em 52 foi nomeado preceptor de D. António, prior do Crato e figura importante nas futuras lutas pela independência de Portugal contra o rei de Espanha.

Frei Luís de Sousa, o seu primeiro biógrafo, descreve-o com uma “boa e bem proporcionada estatura, olhos “pequenos e sumidos, a vista em ambos torcida”, numa referência ao estrabismo que se nota mesmo nos quadros que dele se pintaram. Majestático, “grave e venerável”, pareceria “esquivo e intratável” mas era, afinal, de grande “brandura” e muito humano, com liberdade de “dizer a cada um o que entendia”, a par da humildade em saber ouvir.

Com fama de santidade quando morreu, inicia-se o processo de beatificação. Em Junho de 2001, após muitos avanços e recuos, o Papa João Paulo II promulgou o decreto da beatificação, reconhecendo como cientificamente inexplicável uma cura rápida e duradoura de uma bebé de nove meses, Paula da Costa Madeira Lopes, que sofria de meningo-encefalite, ocorrida em Tondela, em Setembro de 1964.

Foi por sugestão de frei António do Rosário (outro dos biógrafos importantes de Bartolomeu dos Mártires, com Raul Rolo e Aníbal Pinto de Castro, da Universidade de Coimbra), que a mãe de Paula, Olímpia Madeira, intercedeu junto do arcebispo pela cura da bebé, perdidas as esperanças nos médicos – o próprio pai, Carlos Alberto Lopes, era médico. Casada, mãe de duas filhas e professora, Paula Lopes esteve em em Roma na cerimónia da beatificação.

Agora, usando da prerrogativa de poder fazer uma canonização sem a necessidade de um milagre reconhecido, o Papa Francisco inscreveu o nome de Bartolomeu dos Mártires no catálogo dos santos da Igreja Católica. A leitura do decreto de canonização, neste domingo, 10 de Novembro, em Braga, põe termos a um processo de 419 anos.

 

(À excepção do último parágrafo, os elementos deste texto são adaptados de artigos publicados no Público no dia 4 de Novembro de 2001, data da beatificação de Bartolomeu dos Mártires)

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